Helô Sampaio

Quando o meu irmão Paulo consegue se desvencilhar dos compromissos em São Paulo e vem passar uns poucos dias com a irmãzinha em Salvador, a vida vira uma festa. Amo o meu caçulinha. Tivemos uma boa parte da vida juntos quando fazíamos faculdade aqui em Salvador, e dividíamos tudo, das dificuldades às farras.

Depois de enchê-lo de beijos, sentamos para definir o roteiro dos passeios para ele matar a saudade de Salvador. Aí ele disse que gostaria de ver Alzira Power, a nossa nêga amadinha, que mora em Cachoeira com Fory, meu compadre, e maior escultor da região. Amo os trabalhos de Fory. Não contei conversa e no domingo, cedinho, pegamos a irmã Ana e o amigo Henrique, e rumamos para Cachoeira.

Mas, deixa eu avisar a você, mente impura, quando eu ligo avisando à neguinha que estou indo, não é para ela preparar a maniçoba, não, é para ela preparar o coração para os beijinhos dos irmãozinhos da vida. Lógico que a maniçoba não pode faltar, he-he. Chegamos e enchemos ela e Fory de abraços apertadinhos e cheirinhos no cangote (eu já de olho na panela). Amo esse casal de irmãos pois é só alegria e boas recordações quando estamos juntos.

E estamos juntos há muito tempo. Desde quando eles namoravam que íamos pra o São João em Cachoeira. Ficávamos na pousada de Nieta, mas o rango era na casa de Fory, preparado por Zélia, mestra na cozinha. Eu amava conversar com o pai, nascido Vandercock mas conhecido como Coquito, que me contava as histórias que ele viveu na Itália, convocado que foi para a Segunda Guerra Mundial. É mole, neguinho?

Ficava sentada na porta da casa tomando cerveja e ouvindo as histórias e aventuras de Coquito, que criava, aumentava ou ‘enfatizava’ a sua participação na guerra, falando de tiros, perigos e batalhas. Eu ouvia os casos (mentiras ou verdades) com a cara mais séria do mundo. Coquito era uma figura linda, um herói de Cachoeira que deixou saudade.

Passamos um domingo maravilhoso no sitio, conversando fiado, ouvindo pássaros,  relembrando as estripulias dos bons e irresponsáveis tempos da juventude, enquanto eu mergulhava na maniçoba preparada por Fory. Que estava simplesmente divina. Crendeuspadre! Trem bom demais, sô.

É lógico que na hora de viajar, ao ver o meu olhar pidão, a nega colocou uma tigela cheinha de maniçoba para mim. (Não, não venha me visitar por estes dias não, que eu, Paulo e Ana já trucidamos a maniçoba. Quase não sobra nem a tigela).

Fory vai reabrir o ateliê no dia 12 de agosto. A proposta é unir arte e culinária. Fory quer unir no mesmo local as belas esculturas em madeira que ele faz e também servir a maniçoba, com o propósito de tornar o local como referência do tradicional prato, que é uma iguaria típica e muito apreciada do Recôncavo. Eu já disse que estarei lá na inauguração, rente que nem pão quente, e que reforcem a maniçoba.

O atelier  funciona desde desde a década de 1980, na Rua 13 de Maio, n° 31, Centro Histórico de Cachoeira. Estou dando o endereço para você ir disputar a maniçoba comigo a partir de 12 de agosto. Vamos disputar no garfo.


Helô (de bolsa a tiracolo) abraçada com Fory e os irmãos Paulo e Ana com Alzira no sítio em Cachoeira

Segue a receita que Fory me mandou, como ele faz (viu que sou boazinha, lindinho?).

Maniçoba de Fory

Ingredientes:
-- 5 bolos de folhas de mandioca trituradas 
-- 1 kg de carne de sertão
-- 2 kg de carne bovina- peito
-- 1 pé de porco salgado
-- 1 pé de porco defumado
-- 1 kg de carne porco (sal preso)
-- 2 chouriças mistas (carne de porco e carne de boi)
-- 2 calabresas
-- 1 josefina
-- 1 paio
-- 300 gramas de bacon, de toucinho, lombinho defumado e costela de porco defumada.

Temperar com:
-- 1 cabeça de alho
-- 6 cebolas
-- 4 folhas de louro
-- Cominho
-- 1 molho de coentro
-- 1 molho de salsa
-- Pimenta do reino e sal (apenas para corrigir, se for necessário, por causa carnes salgadas).

Modo de Preparar: 

1 - Lavar bastante as folhas de maniçoba em água corrente, com o uso de uma peneira para retirar o sumo verde;

2 - Depois das folhas bem lavadas e escorridas, colocar numa panela grande com água para aferventar. Depois de aferventada, escorrer a água;

3 - Em seguida, colocar uma panela grande no fogo com um pouco de óleo e o toucinho em pedaços para esquentar. Quando o toucinho estiver soltando óleo, está na hora de colocar as folhas de mandiocas aferventadas e cobrir com água. Deixar no fogo por 5 horas.

4 - Depois desse tempo, acrescentar as carnes e os temperos e deixar a panela no fogo até cozinhar as carnes. Colocar uma pimenta de cheiro inteira na finalização do prato.

(E para dar charme, digo eu, antes de 'mergulhar na maniçoba com farinha).

Experimenta, neguinho, e me conte depois. 

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