Doris Pinheiro

Eu gosto do Natal.

Compreendo completamente quem não gosta. No final das contas é uma data difícil de muitas maneiras, para muita gente.

Mas eu tive a sorte – entre as muitas que tenho – de ter tido pais, família, que fizeram dos meus Natais dias bonitos e especiais.

Nunca houve luxo, ou correria por presentes caros e consumismo, nunca foi nada disso.

Apenas houve a gente...

Lá em casa, na Casa Velha, tudo começava com minha mãe montando o presépio no dia primeiro de dezembro, dia do aniversário do meu irmão Roberto, nosso primogênito.

Hoje tento manter a tradição dela, mas ainda não consegui montar no dia primeiro.

Mas os presépios estão todos aqui, na sala da minha casa. E todos cheios de histórias e da presença de pessoas queridas, e são assim uma maneira de honrar todas elas.

No aparador está o presépio ainda todo branco que minha sogra amada (sim, amo Dona Socorro) me deu todo em gesso.

Nós duas gostamos muito de artesanato. Acho que ela me deu para eu pintar, mas gosto tanto dele branco que ainda o mantenho assim.

Coloquei-o em cima de uma toalha branca que minha tia Terezinha, esposa de meu tio Paulo, irmão de minha mãe, deu a ela, “porque sabia que minha mãe cuidaria bem”.

Em cima da toalha branca um lenço de seda azul que minha mãe fez de um retalho que ganhou de Dona Norma, sogra de meu irmão, sobra de tecido de um vestido bonito que ela fez para algum evento importante da família.

Acima de tudo, o Espírito Santo em madeira que minha amiga Ed trouxe para mim de Minas.

Na cômoda que também está na sala há vários presépios.

O nosso mais antigo, que data da minha infância (minha mãe deixava o Anjo da Guarda acima da cabeceira da minha cama o ano inteiro e no Natal ele ia para o presépio), que já foi repintado por nós umas duas vezes e tem tudo... carneiros, jeguinho, vaca, pastores, reis, galo, camelo e a sagrada família.

Ao lado dele dois presépios que meu marido Yves Delgoffe, ateu convicto, comprou para dar à minha mãe, numa daquelas demonstrações silenciosas dele de profundo afeto.

Ele se prometeu que de onde fosse, quando viajasse, compraria um presépio para ela.

Antes de nossa viagem à França, quando conheci meus sogros Guy e Jeanine e descobri que estava grávida de nosso filho Eric, paramos em Recife.

Uma escala de muitas horas.

Ele purucutu correu a um mercado de artesanato e comprou um presépio bem nordestino, colorido, e botou na mala.

Chegando lá na França, num dos dias ele pegou o carro e viajamos, viajamos e eu não sabia que roteiro era aquele que não tinha nada de turístico nem era para ir ver ninguém em especial.

Paramos numa das cidades da Provence, não lembro qual, e ele comprou um presépio de santons com as imagens que são feitas tradicionalmente em argila pelos artesãos franceses, desde o fim da Revolução Francesa.

Há ainda as figurinhas em porcelana que minha sogra Jeanine trouxe da França para mim e que fazem parte da Épiphanie, a Festa de Reis, no dia 6 e que é uma gracinha. Um dia ainda vou celebrar isso...

Mas, voltando ao passado, à minha infância e adolescência, devo dizer que tudo se impregna de sons e cheiros e expectativa de felicidade quando relembro.

Numa noite quente no começo de dezembro íamos, num dos muitos fusquinhas que meu pai teve, olhar a decoração natalina da cidade.

E havia a montagem da árvore de Natal, com algodão nos ramos e bolas de vidro bem fino, de vários tamanhos e cores.

Na nossa Casa Velha morávamos permanentemente eu, minha irmã Gina, meu irmão Roberto, meus pais, Ennio e Lourdes, Meus avós Hermes e Guiomar, minha tia Maria e meu primo Ricardo.

Era a casa “mater” da família. E no dia 24 à noite todos iam para lá para fazer a grande celebração natalina.

Os irmãos e irmãs de minha mãe e suas famílias, meus primos, que sempre estiveram por perto no resto do ano também.

Para receber a todos a casa toda se mobilizava.

Eu e minha irmã ajudávamos na arrumação. Eu adorava passar cera no piso e depois a enceradeira e deixar tudo brilhando, cheiroso, bonito.

E eu e Gina colocávamos a vitrola na sala e a trilha sonora da casa era música de Natal.

(A minha música preferida era “Deixei meu sapatinho na janela do quintal”. Claro que eu era criança e não sabia da vida, mas acho que gosto dela mesmo porque o sapatinho fica na janela do quintal, não precisa de chaminé e lá em casa tinha janela do quintal...)

Enquanto isso, cada uma fazia uma coisa diferente para transformar nossa casa antiga, desgastada, num palácio.

E ela se transformava.

Na noite do dia 24 todas as portas eram abertas e a casa toda iluminada.

Recebíamos nossa família e todos levavam pequenos presentes para todos.

Lembro de minha linda dinda Milza chegando lá em casa com seu sorriso sempre doce e fofo, com o meu presente, perguntando: “de quem é esse presente?”.

Era uma prancha de isopor que meu irmão invariavelmente pintava com algum desenho bacana (ele desenhava extremamente bem) com tinta a óleo para não assar minha barriga quando fossemos à praia no verão que estava só começando.

A campeã dos presentes interessantes e divertidos e criativos sempre foi Margô, minha tia Margarida. Na verdade ela é até hoje.

Lembro de um ano em que as crianças todas ganharam binóculos coloridos.

E aí havia a ceia, com o finado peru que ficava lá no quintal de casa uns dias antes de virar prato principal, assado no forno da padaria, porque não cabia no forno lá de casa.

E todos comíamos, nos víamos, conversávamos, celebrávamos e éramos, ainda somos, nossa família...

Depois que todos saiam íamos dormir para acordar no outro dia com nossos presentes de Natal.

Cheiro de boneca nova também é inesquecível...

Quem era a força motriz disso tudo era minha mãe, Lourdes, a quem agradeço pelos Natais entre as incontáveis coisas boas que ela fez por nós e todos em volta.

E olhe só, foram tão bonitos e cheios de vida e afeto estes Natais que eu hoje nem sinto tristeza ou mesmo saudade.

Apenas guardo dentro de mim, como o mais precioso dos presentes de Natal que alguém pode ganhar na vida, a beleza de ter vivido isso.

Um Feliz Natal para você que me lê e para sua família também...

Eu proponho celebrar o nascimento de um ser que mudou o código moral da humanidade e falou que o amor é que é o grande lance. 

Tanto que nosso tempo é contado antes e depois dele...

Assim entramos o Ano Novo vibrando de desejo de dias muito melhores para todos em nosso país.

Paz, saúde, amor, prosperidade, esperança, harmonia, solidariedade, justiça, fartura, compreensão, afeto... todas as palavras lindas e benfazejas que vierem à sua cabeça.

“Já nasceu o menino Deus... a cantar vinde vós pastores, já nasceu o menino Deus, celebremos os seus louvores...”

Colunas anteriores
Ver mais notícias desta seção: mais recentes · mais antigas