Doris Pinheiro


Foto: Colagem de Clara Bacarin

Outro dia eu estava dormindo, sono leve, quando acabei por acordar com um grupo de pessoas, que eu acredito eram jovens, passando por minha rua (moro no Rio Vermelho) cantando “Tempo Perdido”, do Legião Urbana.

Sorri...

Não. Não me aborreci por ser acordada assim no meio da madrugada.

Apenas achei bonito que a minha música dos 20 e poucos anos, uma das músicas da minha vida, talvez a mais importante, esteja novamente marcando a vida de outras pessoas, de gerações mais jovens.

Meu filho, que tem 22 anos também ouve. E não fui eu quem a apresentou a ele.

“Tempo Perdido” traz ao mesmo tempo desesperança, fome de viver, dor, luta, beleza, realidade, lirismo e enche o peito inteiro de uma quase certeza de que a vida é bonita e vale a pena viver ela com intensidade e verdade ...

“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem! Selvagem!
Selvagem!

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo”

Veja no vídeo

Eu acho linda.

E aí eu fiquei, como já aconteceu muitas vezes nos últimos tempos, pensando em como está o mundo em volta de mim e em como eu acho difícil ser jovem hoje.

Sinto, mais do que tenho certeza, que embora os jovens de hoje, de adolescentes até novos adultos, tenham um senso de realidade bem mais acurado do que eu tinha, vivem uma expectativa de realização na vida que é muito projetada, de forma fantasiosa, pelos meios de comunicação, pelos produtos audiovisuais e agora de maneira acachapante pelas redes e mídias sociais.

O que parece é que se acredita que um raio mágico tecnológico virtual atingirá determinados indivíduos escolhidos por terem nascido com estrelas na testa.

Quanta fantasia!

Colagem de Ben Giles

A verdade é que a construção de qualquer tipo de sucesso se dá mesmo é com estudo, talento, empenho, capricho, trabalho... Muito trabalho.

Às vezes, em sala de aula, ao falar sobre isso, para mexer mesmo com a cabeça dos meus alunos, eu refletia com eles sobre quanto trabalho dava para se ter uma boca de fumo de sucesso.

Era preciso ter capital, conhecer os fornecedores, arranjar um ponto de venda, conquistar uma clientela, fazer com que o negócio se tornasse seguro, formar mão de obra...

Eles ficavam olhando para mim meio atônitos. Mas não é a mais pura verdade? E não deve dar um trabalho dos infernos?

Agora, quer saber o que me incomoda mais do que tudo? É que eu acho que está faltando sonho...

Não sonho de ter coisas materiais ou posição social. Sonho de construir um mundo melhor, de acreditar que se pode ter um mundo melhor.

Não que não haja muitas pessoas lutando por isso todos os dias, mas esse tal senso de realidade + a falta de noção do que se precisa fazer no concreto para construir o tal sucesso, para se tornar a pessoa que você quer ser + este monstro que tenta corromper tudo, que é a alma da sociedade de consumo capitalista selvagem, e que influencia de muitas maneiras tudo a nossa volta (ufa!) está tirando das pessoas a capacidade de sonhar.

Sonhar sem vergonha de sonhar.

Basta reparar nas séries e nos filmes de ficção científica que estão sendo feitos. Eles refletem o inconsciente coletivo.

Geralmente começa com a humanidade já toda lascada por culpa das besteiras que fez no planeta e a si mesma. Quando não é o caso de ter um monte de zumbis enchendo o saco (acho zumbi um porre) os cenários são sempre distópicos.

Colgem de Lucas Mahat

Pausa para deixar tudo explicadinho - Distopia e Utopia

Em Filosofia, através da mesma raiz etimológica surge o termo distopia (ou antiutopia) como o oposto de utopia.

A distopia é um pensamento filosófico que caracteriza uma sociedade imaginária controlada pelo Estado ou por outros meios extremos de opressão, criando condições de vida insuportáveis aos indivíduos. Normalmente tem como base a realidade da sociedade atual idealizada em condições extremas no futuro.

Alguns traços característicos da sociedade distópica são: poder político totalitário, mantido por uma minoria; privação extrema e desespero de um povo que tende a se tornar corruptível.

Os romances "1984" de George Orwell (1903-1950) e "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley (1894-1963) são exemplos de ficções distópicas. No cinema, o filme V de Vingança apresenta uma sociedade distópica, brutalmente constrangida por um regime totalitarista.

Pois é, parece que é este cenário que a humanidade fantasia encontrar no futuro. Nada de evolução positiva, nada de mundo melhor, nada de sonho.

Mas quer saber? Apesar do mundo, da civilização humana ainda precisar melhorar muito, o mundo está melhor sim.

Olhe para trás...

Quantos dos direitos que temos hoje se tinha há um tempo atrás?

Mulheres, gays, negros, crianças, idosos e até outras espécies animais...

Tem muiiiito para melhorar. Mas caminhamos um pedaço.

Quer ver? Pesquisa do acadêmico sueco Hans Rosling, que gerou o livro “Factfulness”, mostra que  questões importantes como a redução da mortalidade infantil, da pobreza extrema e da desigualdade social, o aumento da expectativa de vida e um menor número de conflitos armados pelo mundo mostram que sim, o mundo está melhor.

Colagem de Mia Scontet 

O Instituto Pew fez em 2017 uma pesquisa mundial e a conclusão foi de que, na média global, 43% das 43 mil pessoas pesquisadas, de 38 diferentes países, acham que o mundo está melhor, enquanto que 38% consideram que está pior — e os demais 19% não sabiam dizer.

Além das razões já citadas acima, a  pesquisa do Instituto Pew aponta  que a alimentação melhorou, a medicina avançou, há direitos trabalhistas garantidos e a rotina de vida é mais saudável e confortável, as comunicações e os transportes evoluíram muito, se tem muito mais consciência dos impactos ambientais e há lutas mundiais em torno disso, temos mais tempo para viver em família, e as relações dentro do núcleo familiar estão mais equilibradas.

Mais dois índices importantes :  em 1800 apenas 12,5% da população do mundo era alfabetizada. Em 2014, eram 85,3%.

Em 1816 apenas 0,88% dos países do mundo eram democracias. Hoje dois terços da população mundial vive em regimes livres.

Isso não só faz do mundo um lugar melhor hoje, mas projeta um mundo melhor no futuro.

E de onde foi que saiu a semente para isso tudo ?

Do sonho...

 

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