Doris Pinheiro

Me salte!

(Me salte: me deixe, me largue, me poupe, não me aporrinhe, não me pegue não, não, não, me deixe à vontade)

Eu não sou uma pessoa preconceituosa, mas tenho preconceito com gente metida a besta.

E acredito que é um comportamento que denota fraqueza de espírito.

Por mais que eu ache que o ser humano é no geral um macaco metido a besta, cheio de marcações sociais de poder, eu não consigo engolir o comportamento de quem se dá o direito de menosprezar o outro a partir de uma posição “superior” que acredita ter, ou que quer fazer o outro, e o mundo, acreditarem que tem (a imagem ao lado é uma ilustração de David Lawrence)

E a definição de metido a besta não tem mesmo nada de positiva nos escritos.

Nos dicionários aparece como “uma pessoa que se julga acima dos outros. Que é arrogante, pretensiosa ou vaidosa”.

A Infopédia diz que é uma pessoa bruta, estúpida, tola, vaidosa e pretensiosa.

No site Origem da Palavra, que é muito legal (https://origemdapalavra.com.br), o que diz é o seguinte :

“Esta palavra é usada há muito tempo na gíria portenha. Sua etimologia é incerta, mas o seu significado é, numa expressão bem brasileira, “metido a besta”.

Descreve uma pessoa pretensiosa que, desejando fazer algo que pensa que a valoriza, acaba fazendo papel ridíc­ulo”.

Pois é...

Parece que ser metido a besta não é tão eficiente assim, embora funcione aqui e ali numa sociedade extremamente desigual e escravocrata como a nossa.

As pessoas se submetem, abaixam a cabeça para as pessoas metidas a besta.

Mas por que uma pessoa é metida a besta?

Faço-me essa pergunta. Tenho alguns palpites:

Para se proteger (a imagem mostra uma colagem de Nana Fernandes)

Para sinalizar ao mundo que ela pertence a uma casta superior.

Por insegurança.

Por inabilidade social.

Por arrogância.

Por ter sido educado assim.

Se deslumbrou.  

Acredita que assim mostra ao mundo que é uma pessoa especial.

Porque é fútil.

Porque tem complexo de superioridade. Porque tem complexo de inferioridade.

E você, o que acrescentaria nesta lista? 

Você sabia? Eu não...

Metido a besta é “uma expressão metafórica construída a partir de zoônimos, que  refletem o olhar cultural que permeia as concepções animais”...

Aprendi com o artigo super bacana de Heloisa da Cunha Fonseca e Waldenice Moreira Cano, do Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia. Vale a pena ler.

Os encontros com gente metida a besta costumam ser, além de desagradáveis, situações de onde se costuma sair meio enojado, meio perplexo e achando a pessoa... babaca.

Um clássico são as esposas donas de artistas, especialmente da área musical. Os caras até que são tranquilos, não sei se porque o “trabalho sujo de proteção” é feito por elas, ou porque eles são mais plantados mesmo (a imagem ao lado é uma colagem de Olga Khaletskaya).

Tem uma que é um ícone!

Uma vez fiz um trabalho de assessoria de imprensa que envolvia um grande artista, que foi como de outras vezes uma pessoa gentil, e me deparei com sua esposa dona.

Dei boa tarde. Nada. Nem olhou para minha cara. Tive de consultar para uma decisão. Nada. Ignorou-me solenemente.

Sinceramente, não entendi. Era trabalho e eu precisava de respostas.

Fiquei com uma ojeriza à tal mulher ...

Eu acho que metidabestice é também uma forma de falta de educação.

(Olhe o que encontrei na internet. Achei super engraçado... Eu sou geminiana. E você, está entre os signos metidos a besta ? http://horoscopodia.virgula.com.br/index.php/2017/10/20/os-6-signos-mais-metidos-do-zodiaco/ )

Outra situação que me marcou tem a ver com vaidade, que leva a pessoa a assumir esta postura de porreta acima da “carne seca”.

Estava eu numa reunião de acertos de divulgação com o meu cliente, que não era o cidadão.

O tal metidão a besta (pessoa por quem, até então eu tinha respeito, admiração e carinho) chegou super atrasado e foi mandando ver aqui e ali, combinando com as pessoas o que elas tinham de fazer, já que ele era o diretor do espetáculo.

Num dado momento, olhou para mim, que estava lá na minha ouvindo e colhendo detalhes de informações que poderia usar na divulgação e determinou (e ele não era o meu cliente...) que eu tinha de fazer isso e aquilo, chegou a inventar um modelo de instagram que não existe, dizendo o que eu devia postar na tal rede, me mandou gravar uma entrevista para o YouTube (ao lado, óleo sobre tela de Salvador Dali – “The Stinking Ass”).

Detalhe: a assessoria de imprensa que eu estava prestando não incluía serviços de mídias e redes sociais.

Naquele momento eu vi meu respeito, minha admiração, meu carinho por ele darem as mãos, saírem correndo e se jogarem num precipício. Deu para ouvir quando bateram no chão e quebraram como cristais.

De lá para cá me bati poucas vezes com ele e fui educada e reservada. Se este cara soubesse que imagem passou a ter para mim talvez tivesse a lucidez de refletir sobre o papel ridículo que fez.

Quem sabe... Vaidade é intoxicante. Não sei se tem salvação.

Você sabia ? Eu não...

Existe um Dicionário Brasileiro de Insultos, cujo autor é Altair J. Aranha. Acho que vou me dar de presente de aniversário...

Mas, para rebater estas histórias chatas, tenho outras duas lindas.

Estava eu nos bastidores da TV Bahia, esperando para a entrada no ar de uma banda bem bacana que estava divulgando, quando me deparo com Antônio Fagundes.

Na sala de espera havia duas cadeiras vagas, e ele estava bem no meio. Cumprimentei, ia me sentar numa das cadeiras, o que inevitavelmente era ao lado dele, quando a produtora sem noção que também estava lá acompanhando a banda me sinalizou com a cabeça para que eu não sentasse.

Confesso que não entendi de cara (devo instintivamente ter achado um absurdo), mas ele entendeu, ficou um pouco indignado e disse que não, que eu sentasse ali, sim.

Resultado: batemos um papão durante a espera e ele, um cavalheiro, um super artista, um homem cabeça, me deixou encantada para além do que eu já gostava dele (além dele ser um pedaço de mau caminho, hahahahaha).

Isso é ter tamanho de gente.

(Aproveito para sugerir que você dê uma lidinha numa das colunas que eu mais gostei de escrever aqui até agora - https://leiamais.ba/2018/05/19/conhece-alguem-metido-besta-pois-57-do-corpo-dele-sao-bacterias)

Outra situação inesquecível. Eu foquinha (jornalista em começo de carreira), repórter da noite na TV Itapoan, fui pautada para entrevistar Gonzagão (a ilustração ao lado é de DeviantArt).

Ai Deus...

Coração bate.

Perna treme.

Boca seca.

Um dos pilares da música brasileira, um mito! Preparei-me para ser tratada como uma insignificante.

Eis que chega um senhor caboclo, peito largo, sorriso aberto...Emociona-me até hoje a lembrança.

Deu a entrevista sem frescura, tratou-me com respeito e carinho e eu fiquei completamente agradecida e apaixonada.

Isso é ter tamanho de gente.

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