Saudar e pedir licença é a primeira coisa a se fazer ao falar de Exu. Símbolo sagrado do caminho, o Senhor da Comunicação. Larôye! E é para ele que pedimos permissão e bênçãos nesta primeira reportagem multimídia da Editoria de Cultura do Leiamais.ba. Exu, Aluvaiá ou Bombo, Elegbara, Legbá... para cada nação uma forma de chamar o mensageiro, mas, a energia, as características e a forma de cultuar o Orixá são parecidas.

LarÔye!
Uma feira onde Exu se multiplica

O mercado, a feira, são o lugar de Exu por excelência.

Na feira, geralmente, é onde compramos alimentos para o corpo físico. Mas na Feira de São Joaquim é diferente.  Lá também encontramos alimentos para a alma.

Em “São Joaquim se encontra de um tudo”, dizem os mais velhos . De um tudo e todo tipo de gente. E onde tem gente, tem Exu, entidade que faz a comunicação entre as divindades e as pessoas e vice-versa.

Então, com a vontade de encontrar os Exus personificados nas esculturas, fomos a São Joaquim.

Assim que entramos encontramos um Exu em tamanho gigante. Uma escultura, com mais de dois metros de altura, feita pelo artista Samuel.

Estava no lugar onde os caminhos se cruzam.

Ali, na encruzilhada, é onde muitas vezes se decide a vida. A encruzilhada representa “a escolha” da direção a ser seguida. Este é o local de Exu. Local do movimento. Do fluxo de energia em múltiplas direções. Lugar do caos de onde brota o esclarecimento.

Seguindo em frente, nos deparamos com o box Casa São Jorge, especializado na venda de esculturas representativas dos vários tipos de Exus e em ferramentas de outras divindades.

Lá encontramos esculturas de Exu em metal, madeira e cimento.

Encontramos também Jairo Arte trabalhando numa escultura no andar superior da loja, onde tem um atelier com todas as ferramentas necessárias para o manejo com o metal.

Jairo contou que Jorge das Ferramentas, dono do box e artista, tinha saído, mas que logo chegaria. Além dos Exus, íamos  encontrar dois artistas.

Jairo artesão
Jairo produz, taambém, ferramentas dos orixás

Sorte? Ou Exu, o Senhor dos Caminhos, guiando e abrindo as portas para que a gente conhecesse um pouco mais da sua energia e movimento? E passasse esse conhecimento para você que lê esta reportagem?

Apesar de não seguir a religião afro-brasileira, Jairo conta que em um determinado momento da sua vida, quando as coisas estavam difíceis no sentido material, Jorge o convidou para trabalhar na loja como vendedor.

Com a necessidade de se produzir mais peças em metal, ele passou para a produção de Exus e de ferramentas dos orixás. A experiência como vendedor lhe conferiu o conhecimento necessário a produção de artefatos espirituais.

E ele aprendeu o ofício e encontrou espaço para criar e se expressar artisticamente. Além das encomendas da loja ele produz as suas próprias obras, como a escultura de “Caveirinha na Cadeira.

Em toda entrada de casa de Santo tem um Exu. E orgulhoso, Jairo afirma: “tem escultura da Casa São Jorge em quase todos candomblés de Salvador”.


Jairo Arte explica como começou a produzir Exus

Jorge chegou e com ele muitos clientes. Cada um trazendo as suas encomendas, geralmente baseadas em sonhos e avisos do Orixá.

Loja cheia é coisa boa. Energia de troca, de atividade e de fartura, dinâmicas da vida ligada diretamente ao mensageiro.

Curiosamente, as esculturas que se encontram mais enferrujadas são as preferidas pelos turistas, compradores sempre presentes na Casa São Jorge.

Jorge pede licença aos fregueses para um dedo de prosa conosco. Ele segue mostrando as ferramentas que são os emblemas e os símbolos dos Orixás e as esculturas, fazendo referência aos autores, e nos conta, que ao conceber as suas peças, muitas vezes, Exu sopra no seu ouvido a inspiração.

 

Enquanto Jorge das Ferramentas conversava conosco chegou Rita Bahia, a única mulher da Feira de São Joaquim a produzir Exus. Rita encontrou na madeira e no cimento os materiais ideais para expressar a sua criatividade.

Apesar da fonte criadora ser a mesma pessoa, as obras de madeira e de cimento são completamente diferentes. As de madeira remetem às esculturas africanas enquanto as de cimento trazem a lembrança de Buda, se distanciando da simbologia representativa do Orixá dentro das religiões afro-brasileiras.

Jorge, produtor de Exus, mostra as ferramentas dos orixá

“As pessoas me elogiam e incentivam na produção das esculturas, eu nunca sofri discriminação pelo fato de ser mulher”, fala Rita.

Rita Bahia fala sobre as esculturas que produz

Seu Tranca RuaSeu Tranca Rua

O melhor local para encontrar o material utilizado para a criação das esculturas são os ferros-velhos. As peças de carro, principalmente o amortecedor, pedaços de ferros e toda sorte de metais encontrados pela frente são elementos para compor a obra.

A ordem é colar os “pedaços” dando forma à entidade a partir das características de sua personalidade, por exemplo: na representação de Seu Tranca Rua sempre aparecem elementos que nos remetem ao ato de trancar, como o cadeado.

O limiar que separa a arte do artesanato é tênue, e visivelmente, os escultores dos Exus de São Joaquim ainda não perceberam o real valor artístico presente nas suas esculturas. 

Mas quem for a um dos boxes onde as ferramentas de Orixás são comercializadas e abrir os olhos e coração para o trabalho destes artistas vai entender o quanto isso é verdade.

 

Exu quer festa e respeito

Presente em todas as casas de tradição afrobrasileira, Exu é alegre, gosta de festas, de brincadeiras, de “zuar”, de fazer peripécias, mas também é um guardião que conhece os “vários mundos” e fala diversas línguas.

Gosta de respeito, como qualquer Orixá.

Pode andar em qualquer direção e falar qualquer linguagem, a depender dos pensamentos e atos dos humanos.

Na liturgia das religiões afrobrasileiras é o primeiro a ser reverenciado.

Ouça - Solange Borges: o Exu no candomblé

Solange Borges, kota do Terreiro Unzo Nganga Kuatelesa Ninza, da nação Angola Paketan, regida pelo Inkise (Orixá) Tatetu Hongolo (Oxumaré) diz que ao falar em Exu e Orixá estamos nos remetendo a cultura Yorubana, a mais difundida no Brasil por causa dos primeiros pesquisadores e completa falando que cada casa é uma casa e cada um tem sua própria forma de conduzir a espiritualidade.

Existe o Exu pagão ou de rua, o Exu batizado, que serve ao Orixá e o Exu coroado, que já ascendeu na prática do bem. Todos cultuados.

Só existe Candomblé com a presença de Exu. Ele é o responsável por toda comunicação entre os humanos e os Orixás e é quem protege os terreiros e as pessoas de todos malefícios.

Ao jogar os búzios é ele quem responde. É ele também quem leva a fala dos humanos para as divindades e traz as respostas das divindades para nós, humanos.

Antes de qualquer movimentação, de qualquer festa, de qualquer ritual, se saúda primeiro a Exu. É Exu quem convida os Orixás para a dança circular, para o Xirê.

Maior autoridade do país em “Exu”, o professor de História da África, de Filosofia da Educação e de Filosofia da Ancestralidade da Universidade Federal do Recôncavo em Amargosa, Emanuel Soares, diz que o Xirê, cerimônia festiva aberta ao público, é o símbolo máximo do sincretismo interafricano dos candomblés no qual Orixás dançam juntos, todos convocados por Exu, que foi alimentado no Padê, uma oferenda que pode ser pública ou privada e que dá início aos trabalhos da casa.

É um pedido de permissão, de abertura de caminhos.

O afoxé Filhos de Gandhy faz um lindo Padê de Exu antes de sair para o carnaval de Salvador. Pede paz e caminhos desimpedidos.

Acompanhe o afoxé Filhos de Gandhy

Conhecer Exu, exige tempo... Tempo de permanência do iniciado no terreiro, tempo necessário para que os mais velhos ensinem através da oralidade, forma de transmissão dos saberes nas casas de Santo, tempo para se percorrer todo o ano litúrgico das religiões afro-brasileiras, que têm um calendário bem marcado. 

Ouça - Prof. Emanuel: Exu está em nós

Mas, de fato, Exu é indecifrável e por isto temido por muita gente. O professor Emanuel Soares enfatiza essa força da divindade, muitas vezes tão mal compreendida.

O caráter neutro de Exu permite que a influência seja de ambos os lados. Ele influencia o ser humano e vice-versa. Assim o bem e o mau fazem parte da sua essência, reflexo da humanidade. Exu representa todas as possibilidades e contradições. Exu não se submete ao estabelecido.

Vermelho e preto são as cores de Exu e de sua guia (colar). Uma “purinha”, cachaça destilada de boa qualidade é a sua bebida predileta. Sete é o seu número. Segunda- feira é o seu dia.

Ouça - Claudinei Abreu: quem é Exu

“Exu é o princípio dinâmico e a realização. É o homem em movimento, é seu desejo manifestado, é aquilo que ele é. Exu, é o exercício sem barreiras de sua vontade e do livre arbítrio do próprio homem”.

O candomblecista Claudinei Abreu, da nação Ketu, do Ilê Asé Ode Deloi, tem Ayra, ministro de Xangô, como Orixá de cabeça. Mas para ele a divindade Exu é seu alicerce, é o próprio caminho. 



 

Exu, o educador

O professor Emanuel Soares, em sua tese de doutorado “As Vinte e Uma Faces de Exu na Filosofia Afrodescendente da Educação: Imagens, Discursos e Narrativas” fala sobre o sentido pedagógico da divindade, a forma como ele ensina,  utilizando de vários artifícios para levar o outro a refletir sobre seus próprios caminhos e conta um dos mitos ligados a Exu.

A história é assim
"O adivinho Orumilá estava perdido na floresta não sabendo como chegar à casa de um amigo, do qual tinha o endereço, mas mesmo assim não encontrava o caminho, estando há horas andando em círculos.

Eis que, de repente, Orumilá encontra com Exu e, após as saudações de praxe, diz como foi bom achá-lo e pergunta se ele conhecia aquelas matas. Exu responde que conhece como a palma da sua mão, então, Orumilá pede a Exu para guiá-lo.

Exu se faz de rogado, até que Orumilá, percebendo o interesse dele por dinheiro pergunta quanto ele quer para levá-lo. Exu responde que quer 16 curais, preço que Orumilá julga caro, posto ser o valor correspondente às suas adivinhações com o Ifá.

Orumilá alega que a técnica divinatória é difícil e não pode ser comparada à sabedoria geográfica de Exu, o qual retruca, falando que embora ele não saiba jogar Ifá, sabe o caminho, coisa que o adivinho, com toda sua sabedoria, não sabia.

Vendo-se sem saída Orumilá paga a Exu o preço exigido pelo senhor dos caminhos e este leva o adivinho até a casa do amigo, coisa que era bem perto de onde eles estavam, para espanto de Orumilá...

Exu sai rindo com o dinheiro do sábio no bolso. A lição que fica deste mito é que cada um é importante no seu saber, nem mais nem menos, todos o saberes são importantes."