Fé e alfazema
   Foto: Antonio Muniz/Leiamais.ba
 

A Lavagem do Bonfim
por
Doris Pinheiro, Monalisa Leal, Rosana Andrade, Felipe Belmonte, Antonio Muniz, Roberto Aguiar, Djair Sant'Anna, Gina Marocci, Alberto Oliveira

***

À colina sagrada
6,7 quilômetros de fé e batuque

A caminhada começa em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, na Cidade Baixa, ao lado do Elevador Lacerda, e se estende por 6,7 quilômetros (embora muita gente vá dizer para você que são 8) até a Igreja do Bonfim, na Colina Sagrada.

Quanto tempo demora? Isso depende do seu fôlego (muitos vão ficando pelo caminho, abatidos pela má forma física ou atraídos pela bebida e comida que vendedores vão apregoando ao longo do trajeto).

Os becos ficam agitados, cheios de pessoas que buscam um sossego, uma cerveja gelada e a tradicional feijoada.

Correndo

Se uma multidão (200 mil pessoas, de acordo com previsão da Prefeitura) caminha até o Bonfim, há também os que vão correndo. Eles fazem parte da Corrida Sagrada.

Em 2019 foram mais de 900 participantes de 16 a mais de 80 anos, que partiram às 7 horas da Conceição da Praia até a Basílica do Bonfim. 

"O atletismo, como esporte democrático, abraça a todos. Esse evento é atípico, pois, apesar dos festejos do Bonfim mesclarem o catolicismo e o candomblé, na corrida, pessoas de diversas religiões participam", disse o presidente da Federação Bahiana de Atletismo, Og Robson Menezes Chagas.

Og, que tem 67 anos, participa desde as primeiras provas e em 2006 assumiu a presidência da Federação. Ele explica que a prova oficial, só aceita o limite de mil inscritos, porém os atletas pipoca que se juntam somam quase 3000 pessoas, o que segundo ele acaba prejudicando o andamento e a organização. 

O policial militar reformado, de 65 anos, Roberto de Jesus Santana, participa há cinco anos da corrida. Em 2019 fez a prova em 50 minutos. Ele já acumula mais de 70 medalhas no atletismo e futebol amador. "Muita fé e paz para começar o ano."

Com 58 anos, o juiz de Direito Rilton Góes Ribeiro, participa há 15. A cadeira de rodas não é desculpa para não encarar o desafio. Rilton também pratica basquete em cadeira de rodas. "O esporte e a fé nos fortalecem."

Farofa, velas e acaçá

Nada disso acontece, no entanto, sem a permissão de Exu, invocada pelo afoxé Filhos de Gandhy. É o orixá que abre os caminhos até a Colina Sagrada, onde se ergue a Igreja do Senhor do Bonfim.

Eram 7h55 minutos da quinta-feira (17/1), quando se iniciou no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador, na Cidade Alta,  a cerimônia do Padê (ou Ipadê) de Exu.

É quando são feitas as oferendas de alimentos e bebidas (cachaça, vinho, champanhe, farofa branca e de dendê), além de velas e do acaçá (bolinho afro-baiano feito de farinha de arroz ou de milho, cozido em ponto de gelatina e envolvido, ainda quente, em folhas de bananeira).

O objetivo é o de acalmar o lado brincalhão de Exu e o de pedir que ele interceda pela boa vontade dos orixás.

Só então, feitas as oferendas e com a permissão do orixá, o afoxé se desloca até a Cidade Baixa, onde se ergue a Igreja da Nossa Senhora da Conceição da Praia, para o início do cortejo até a Colina Sagrada, no bairro do Bonfim.

E a fé se espalha pelos 6,7 quilômetros que separam a Conceição da Praia do Alto do Bonfim.

É um mar de gente vestida de branco, que mistura dentro de si esse espírito sacro-profano que só se entende como funciona por aqui quando se mergulha sem pensar muito, mas abrindo o coração e o sorriso, olhando para o céu azul e pedindo a benção. Afinal, essa aqui é a terra abençoada pelo filho de Deus, o Senhor do Bonfim da Bahia.



   O mar branco da fé
   Foto: Manu Dias
 

Toda essa história de fé começou numa tempestade...

Em meio a uma das travessias pelo Oceano Atlântico, ao sentir que as imensas vagas que atingiam suas naus poderiam levar todos à morte, o capitão Teodósio Rodrigues de Faria, comerciante de grande porte, contratador de tabaco e negociante de escravos, prometeu ao Senhor Crucificado, caso ele e sua tripulação fossem salvos, construir em Salvador da Baia de Todos os Santos uma igreja em louvor ao Senhor do Bonfim, num local bem alto, onde se pudesse avistar toda a entrada da Baía.

Nascido em Setúbal, cidade portuguesa onde a devoção ao Senhor do Bonfim é muito forte, o capitão Teodósio, em 1745 cumpriu sua promessa. Mandou buscar em sua cidade natal uma imagem idêntica à que existe lá, em cedro, 1,10m de altura. A imagem chegou à Província da Bahia em 18 de abril de 1745, acompanhada da de Nossa Senhora da Guia. As duas foram instaladas na igreja da Penha.

O capitão Teodósio e toda sua tripulação ajudaram pessoalmente a construir a primeira capela, embrião da igreja que conhecemos hoje. A devoção ao Senhor Bom Jesus do Bonfim nasceu, então, de um ex-voto, como uma oferta ao povo baiano.

Em meio a uma das travessias pelo Oceano Atlântico, ao sentir que as imensas vagas que atingiam suas naus poderiam levar todos à morte, o capitão Teodósio Rodrigues de Faria, comerciante de grande porte, contratador de tabaco e negociante de escravos, prometeu ao Senhor Crucificado, caso ele e sua tripulação fossem salvos, construir em Salvador da Baia de Todos os Santos uma igreja em louvor ao Senhor do Bonfim, num local bem alto, onde se pudesse avistar toda a entrada da Baía.

Nascido em Setúbal, cidade portuguesa onde a devoção ao Senhor do Bonfim é muito forte, o capitão Teodósio, em 1745 cumpriu sua promessa. Mandou buscar em sua cidade natal uma imagem idêntica à que existe lá, em cedro, 1,10m de altura. A imagem chegou à Província da Bahia em 18 de abril de 1745, acompanhada da de Nossa Senhora da Guia. As duas foram instaladas na igreja da Penha.

O capitão Teodósio e toda sua tripulação ajudaram pessoalmente a construir a primeira capela, embrião da igreja que conhecemos hoje. A devoção ao Senhor Bom Jesus do Bonfim nasceu, então, de um ex-voto, como uma oferta ao povo baiano.

Na animação (por Felipe Belmonte) - a promessa do capitão Teodósio

Ele fundou, também, o culto ao Senhor do Bonfim e a Nossa Senhora da Guia, criando a “Devoção do Senhor Bom Jesus do Bomfim”, Irmandade de leigos reconhecida pelo então arcebispo Dom José Botelho de Matos. E a população aderiu ao ato de fé criando a Associação de Devotos do Senhor Bom Jesus do Bomfim (1745).

Segundo a historiadora Katia Mattoso, os primeiros devotos eram moradores de Itapagipe, pessoas simples, como pescadores, pequenos comerciantes, marinheiros e negros livres. E este foi um traço peculiar da Devoção, pois, como bem observa a arquiteta Mariely de Santana, nela se uniam pessoas das diversas camadas da sociedade, de várias profissões e cor da pele, o que a tornou, desde sempre, diferente das outras irmandades, geralmente relacionadas a grupos sociais específicos.

A capela teve suas obras iniciadas em 1746, e no dia 24 de junho de 1754, após a conclusão das obras internas, a sagrada imagem do Senhor do Bonfim foi trazida da igreja da Penha, onde havia ficado desde a chegada ao Brasil, para a Colina do Bonfim. Procissão e missa solene entronizaram o Senhor do Bonfim em sua casa.



   Nas cores dos orixás
   Foto: Antonio Muniz
 

A medida do Bonfim

Todos os anos, centenas de pessoas chegam à Colina Sagrada logo nas primeiras horas da manhã, para esperar o cortejo do Senhor do Bonfim.

O branco predomina e a palavra de ordem, além da fé, é  a paz.

Seja de tênis, salto alto, chinelo, de monociclo ou de joelhos, vale qualquer esforço para alcançar a igreja, agradecer pelas bênçãos e pedir proteção ao Senhor do Bonfim, renovando os pedidos com as tradicionais fitinhas.

Foi entre 1807 e 1809 que as famosas fitinhas do Senhor do Bonfim foram introduzidas na Bahia. Na época eram chamadas de “medidas”, porque tinham exatamente 47 centímetros, que é a medida do braço esquerdo - da mão esquerda até o coração da imagem do Senhor do Bonfim da Basílica.

Elas eram fitas de seda com pinturas e bordados representando o Senhor do Bonfim. Originalmente criadas para serem usadas no pescoço, hoje elas são levadas no pulso. No pescoço eram usadas como um colar, no qual se penduravam medalhas e santinhos e funcionavam como uma moeda de troca. Ao pagar uma promessa, o fiel carregava um pequeno objeto, que podia ser uma pequena escultura de cera, representando a parte do corpo curada com a ajuda do santo. Ou como lembrança, comprava uma dessas fitas, que simbolizava a própria igreja.

As várias cores das fitinhas, são associadas aos orixás africanos:
-- Verde é Oxóssi
-- Azul claro, Iemanjá
-- Amarelo, Oxum
-- Azul escuro, Ogum
-- Rosa, Ibeji e Oxumaré
-- Branco, Oxalá
-- Roxo, Nanã
-- Preta com letras vermelhas, Exu e Pomba Gira
-- Preta com letras brancas, Omulu e Obaluaê
-- Vermelha, Iansã
-- Vermelha com letras brancas, Xangô
-- Verde com letras brancas, Ossain

São coisas da Bahia, assim como amarrar no pulso, fazendo três pedidos, um a cada nó dado. Por isso, quando a fita romper ela deve ser lançada ao mar ou no mato.

Para o baiano é uma tradição comprar um carro e colocar as fitas bentas amarradas ao espelho retrovisor. Durante muitos anos as mulheres as colocavam amarradas ao sutiã.

Muitos se valem da fitinhas - ou "medidas" - em busca de proteção ou na esperança de terem seus pedidos atendidos, mas nem sempre isso dá resultado (elas não devem ser compradas, mas presenteadas).

Em 1978 os compositores Chico Buarque e Francis Hime fizeram o País cantar "Trocando em Miúdos", música que fala da separação de um casal e da divisão dos bens.

"Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim, não me valeu", confessa a letra da canção.

Ouça Gal Costa cantando "Trocando em miúdos"

Mas, o que orixás têm a ver com o Senhor do Bonfim?

A explicação vem do período do Brasil colonial e escravista. Os africanos que chegaram ao País como escravos  não podiam cultuar suas divindades livremente. A religião oficial do país era o catolicismo. Inteligentemente, começaram então a associar suas divindades com os santos católicos para poderem exercer sua fé, ainda que  disfarçadamente. Buscaram então semelhanças...

Assim, Oxalá, filho de Olorum (Deus Supremo).  foi “sincretizado” com Jesus Cristo, Senhor do Bonfim, filho de Deus. Na África Oxalá habitava um monte. Em Salvador Senhor do Bonfim habita a Colina Sagrada...

Numa festa como a Lavagem do Bonfim onde milhares de pessoas vão às ruas em louvor ao Senhor do Bonfim, mas também a Oxalá , isto que pode parecer aos menos acostumados uma espécie de “confusão mística”. Para muitos o nome é sincretismo. Mas na verdade não é correto dizer isso.

Sincretismo, por definição, é a fusão de diferentes doutrinas para a formação de uma nova, seja de caráter filosófico, cultural ou religioso. Não é o que acontece numa festa como a Lavagem do Bonfim.

   Pra tirar olhado
   Foto: Felipe Belmonte

Antropólogo, historiador, jornalista, estudioso  dos Orixás, irmandades religiosas, religiões afro-brasileiras, música popular e literatura no Brasil, Marlon Marcos é doutor em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia - UFBA e professor Adjunto da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira .

Ele concedeu entrevista ao Leimais.ba para falar sobre o que se consagrou como sincretismo, para que se possa entender melhor o que realmente acontece na Bahia.

Leiamais.ba - As pessoas falam sempre de sincretismo religioso quando se deparam com uma celebração como a festa de Santa Bárbara ou a Lavagem do Bonfim, mas não é sincretismo... Se fala em paralelismo, dupla pertença... Para vc o que é este fenômeno tão baiano?
Marlon Marcos - Isso mexe com o imaginário das pessoas que acreditam e vivenciam a festa. Se formos pensar do ponto de vista antropológico, existem várias categorizações.  Sincretismo é uma palavra perigosa para se avaliar antropologicamente, mas aqui houve um encontro de culturas africanas e europeias nesse cenário complexo que é a Bahia. As pessoas querem separar politicamente Senhor do Bonfim e Oxalá, mas na fé, no dia a dia, as pessoas praticam isso, é que chamamos de dupla pertença:  é você pertencer ao candomblé, mas “se sentir católico” ou aceitar o catolicismo - ou você é católico e tem a abertura para entender o candomblé e religiões de matrizes africanas. Resumidamente, de um lado tem o Senhor do Bonfim e do outro, Oxalá, e esses dois santos convivem diariamente – as pessoas podem pertencer às duas coisas ao mesmo tempo.

LM - Por que Senhor do Bonfim foi “sincretizado” com Oxalá?
MM – Graças aos Orixás, os negros encontraram formas de vencer a dureza, a desumanidade da escravidão. Os negros não tinham direito de cultuar sua crença, sua fé, porque era considerada algo selvagem, desumano. Por isso, associar Senhor do Bonfim a Oxalá foi uma forma estratégica de fazer com que as religiões de matrizes africanas sobrevivessem em território brasileiro.

LM – Como os negros, ao chegar na condição de escravos no Brasil, estabeleceram estratégias de resistência para poder professar sua fé?
MM – Os negros foram escravizados e o escravo se tornou “coisa”. A ideia era manter a sua integridade como ser humano, se manter vivo. Uma das formas fundamentais para resistir à escravidão foi a criação dos quilombos. Mais à frente, para fora dos quilombos, outro grande evento de resistência para vencer a escravidão foi a ressignificação familiar através dos terreiros de candomblé.

LM – Qual o papel desta característica da religiosidade baiana na formação da nossa identidade como povo?
MM – As religiões negras, as afrobrasileiras, civilizaram o Brasil e, fundamentalmente, civilizaram a Bahia.  Em tudo, na música, na forma que temos de nos expressar, de nos alimentar...Percebemos então o quanto somos indígenas e negros.

LM - O que é importante aprender com uma celebração como a Lavagem do Bonfim?
MM – A gente renasce, passamos por um processo de purificação e nos alimentamos de fé. Essa ideia de vestir branco é alcançar a paz e estar em contato com o que há de mais simples. Caminhar até a igreja, jogar água de cheiro, embelezar o ambiente com flores; tudo isso é muito lindo, é estar no início da vida, no mais simples, puro, no mais limpo. Todo ano Salvador renasce através das água de Oxalá, da Lavagem do Bonfim, que é uma forma de ingressar, de fato, no novo ano. O povo renasce em frente a igreja pedindo paz e proteção. A festa imprime essa ideia de purificação.



   Exus na Feira de São Joaquim
   Foto: Kithi
 

Exu e Oxalá

Oxalá é o primeiro orixá criado por Olorum (Deus Supremo). Ele também é conhecido pelos nomes de Orixalá e Obatalá. A missão de Oxalá foi criar o mundo. Segundo as lendas, ele é o pai de todos os Orixás. Portanto, está acima de todos na hierarquia divina. É o Rei da Roupa Branca ou, ainda, o Grande Orixá é o mais importante dos deuses Yorubá. Seus adeptos usam colares de contas brancas e vestem-se, igualmente, de branco. Sexta-feira é o dia da semana que lhe é consagrado. Sua saudação é Axé Babá! Ou Epa Babá!

Ele se apresenta em duas formas  -  jovem e velho, e reina sobre os Orixás e os homens. Como Oxaguiã, forma, jovem ele é vigoroso e nobre.  Sua dança é guerreira. Como Oxalufã, forma velha, é sábio bondoso, patrono da fecundidade, da procriação, deus purificador através da água doce de fonte. Sua dança é lenta com o Orixá curvado pelo tempo encerrando o cortejo dos orixás.

Pai dos homens, criador da humanidade, Oxalá é o pai de todos. Muito sábio e benevolente com os filhos, ele os leva pelos caminhos da vitória. Ele é regente do Trono da Fé, ou seja, está associado a todos os assuntos que envolvam a esperança e a confiança em Deus.

Ouça Toquinho cantando "Meu pai Oxalá"

Oxalá é o Orixá mais velho, filho de Olorum, e foi a ele que seu pai confiou o saco de criação, para que pudesse criar o mundo. Mas, como todo Orixá, Oxalá deveria seguir alguns procedimentos para fazer o ritual de criação. Ele, muito altivo e presunçoso, recusou-se a fazer uma grande oferenda, achando que por ser o Orixá mais velho isto não era necessário. Exú – o responsável por fiscalizar a entrada do mundo do Além – não gostou nem um pouco da falta de respeito de Oxalá, e quando ele passou pelo local o fez sentir uma grande sede que o obrigou a furar uma palmeira com o seu Opaxorô.

Um líquido vermelho e delicioso começou a sair da árvore e Oxalá o bebeu até se embebedar e adormecer, o que ele não sabia é que esta bebida era vinho de palma. Enquanto dormia, seu irmão e maior rival Oduduá passou por ele e roubou o saco da criação, o levando até Olorum e contando o que aconteceu com Oxalá. Olorum então permitiu que Oduduá criasse o mundo. Assim, fez toda a oferenda e a primeira cidade a surgir foi Ifé, e Oduduá tornou-se seu rei.

Ao acordar, Oxalá indignado por não estar com o saco da criação foi falar com Olorum, como castigo ele foi punido a nunca mais poder beber vinho de palma e nem usar azeite de dendê. Mas, tocado pela frustração de Oxalá,  permitiu como consolo que ele criasse o homem a partir do barro, onde Olorum sopraria a vida. Oxalá se empenhou na tarefa, mas não acatou todas as ordens do seu pai, e bebia escondido o vinho de palma. Por isso algumas pessoas nascem com deficiências físicas ou albinas por não ficarem no forno de Oxalá o tempo certo para cozinhar.

Oxalá decidiu visitar seu filho Xangô, Ifá o alertou que ele correria riscos durante a viagem e para que levasse consigo 3 roupas limpas, sabão, ori e que não brigasse com ninguém no caminho.

Logo no início do caminho ele se encontrou com Exu Elepo, que o sujou de dendê quando o abraçou, lembrando do conselho ele se acalmou, tomou banho e trocou de roupas a despachando com o ori. Mais a frente Exu Eledu cruzou o seu caminho o sujando de carvão, e por último Exu Aladi o sujou com óleo de caroço de dendê, mas ele não se limpou.

No caminho ele viu um cavalo que havia dado de presente para Xangô e ao chegar perto os guardas acharam que ele era um ladrão e o prenderam. No período em cárcere de 7 anos, o mundo sofreu muito, secas surgiram, mulheres não conseguiam engravidar, então Ifá alertou Xangô de que algum inocente estava preso. Ao revistar as celas, Xangô encontrou seu pai e o libertou.

Oxalá x Exú

Oxalá e Exú vivem se atacando, em uma reunião com os Orixás Oxalá deu um tapa muito forte no rival, que caiu longe e todo machucado, mas no instante em que se levantou ele já estava curado. Não satisfeito, ele bateu em sua cabeça, deixando Exú anão, mas o mesmo se balançou e voltou ao normal. Inconformado Oxalá pegou-o pela cabeça e o chacoalhou, deixando a cabeça dele gigantesca.

Ao soltá-lo, Exú passou a mão na cabeça e ela voltou ao estado normal no mesmo instante. A disputa dos dois continuou até que quando o Exú se irritou e  tirou de dentro de sua cabeça uma cabacinha, e soltou uma fumaça branca sobre Oxalá, que perdeu toda sua cor. O Orixá então começou a se esfregar como Exú fazia, mas não conseguiu retornar ao normal. Oxalá arrancou de si o próprio Axé e o soprou sobre Exú, que com isso ficou pacífico, e deu a cabacinha mágica para Oxalá (que passou assim a ter domínio para a criação do branco).



   Na Colina Sagrada
   Foto: Antonio Muniz
 

Becos e botecos no caminho

Mas, se uma multidão espalha a fé pelos 6,7 quilômetros que separam a Igreja da Conceição da Praia, na Cidade Baixa, da Colina Sagrada, onde se ergue a Igreja do Bonfim, muitos ficam pelo caminho, nos muitos bares, botecos e esquinas onde se oferece bebidas (principalmente cerveja) e comida.

No Beco do Algibres encontramos os bares Palácio dos Bares e o Chariot, com as mesas nas calçadas e ocupadas por fiéis da folia.

“É uma parada obrigatória, um descanso. É o momento de repor as energias e seguir a caminhada. Nosso combustível, além da fé no Senhor do Bonfim, é uma cerveja gelada e uma comida baiana”, fala sorrindo o aposentado Ezequiel Mata, freguês do bar Chariot.

Compromisso com Senhor do Bonfim 

Rita do Carmo é católica e conta que participa da Lavagem do Bonfim desde a época que os fiéis enfeitavam os jegues e saíam com carroças. “eu sou da época da carroça, depois passou a ser de caminhão e hoje é essa festa maravilhosa, de fé, muita fé”, disse.

“Paramos pra tomar uma cervejinha mas já vamos seguir, eu tenho que seguir porque tenho um grande compromisso com Senhor do Bonfim. Fui diagnosticada com um câncer, na época o tumor média 17 centímetros. Me comprometi com o meu Senhor do Bonfim e não precisei operar, ele é maravilhoso, sou muito grata”.

No vídeo
Goli Guerreiro fala sobre a importância dos becos na Festa do Bonfim

   A atração que vem dos becos

   Foto:Felipe Belmonte

O feijão do Bonfim

Na Colina Sagrada, o que espera os fiéis são as tradicionais feijoadas, que começam a ser servidas na noite da quarta-feira. Nas casas que receberão os amigos ou nas barracas e bares no entorno da festa. 

Há também o conhecido cachorro quente. A cuidadora de idosos Joselita dos Santos, de 65 anos, troca os hospitais onde trabalha pela barraca, onde vende a iguaria há 38 anos. Natural de Nazaré das Farinhas, ela já chegou a vender 500 unidades em um único dia da festa.

A vendedora conta que saía da festa da Lapinha e já montava a barraca no Bonfim, pois os festejos profanos começavam no domingo anterior a lavagem e se estendiam até o domingo seguinte. "Daqui vou para a Ribeira. Vou porque gosto da praia. Depois 2 de fevereiro e Carnaval".

A quituteira Negra Ginga, de 56 anos, há 15 participa da Lavagem vendendo feijoada. 6 quilos de feijão são utilizados para preparar o prato. 

Ginga lamenta que a festa venha perdendo força. "Hoje precisamos desmontar as barracas na sexta-feira. Exigência da prefeitura, que quer deixar o Bonfim limpo logo cedo ", enfatiza ela. 


   Negra Ginga: 15 anos de feijoada

   Foto: Rosana Andrade

Mas há gente nova chegando para reforçar a turma da feijoada, como é o caso da chefe de cozinha Iara Alves da Silva, que pela primeira vez participa do evento.

Ela morou em Angola, cozinhando para um restaurante libanês (o dono do restaurante, que funcionava em um castelo, queria atrair brasileiros e providenciou uma brasileira para assumir a cozinha).

Agora está à frente de um negócio familiar, junto com as duas filhas e o genro, na Baixa do Bonfim. "Aproveitei o ponto e porque não fazer uma feijoada?", disse, confiante.

Passar a noite vigiando as panelas, com um cafezinho para despertar, faz parte do trabalho nada de quem deseja fazer parte da festa comercializando alimentos.

Da mesma forma, os vendedores de bebidas, começam a chegar um dia antes da festa, com seus kits, marcando os lugares na extensão do percurso. 

Paredão no Bonfim

Também é possível se divertir na Lavagem do Bonfim longe do circuito oficial, com som próprio, mas aproveitando a energia da festa. 

Alguns “paredões” (caixas de som montadas em paralelo)  podiam ser vistos ao longo do trajeto. Na Praça Marechal Deodoro, também conhecida como Praça da Mãozinha, dezenas de pessoas curtiam um desses paredões, por exemplo. 

Era o caso de Eudes Santos. Segundo ele, a festa do Bonfim "é, de fato, o grande atrativo", mas este ano ele preferiu curtir o “circuito alternativo”.

“Eu venho para a festa do Bonfim desde criança, sempre acompanhei o cortejo, mas este ano preferi reunir os amigos e tomar uma cervejinha por aqui, curtindo um pagode legal." 

Douglas Silva era mais um que se divertia com o som e se mostra animado com "Crush Blogueirinha" (música interpretada pelo cantor Léo Santana). "Assim como o axé music, o pagode baiano é um ritmo tradicional presente na cultura do povo baiano. Importante o ritmo tocar na Lavagem do Bonfim porque nos dá opções variadas de diversão", disse.



   A pé ou de joelhos, quem tem fé vai à Colina
   Foto: Antonio Muniz
 

30 graus de calor e fé

É assim, toda segunda quinta-feira do mês de janeiro. A data está na agenda de muitos moradores da cidade e de turistas do mundo inteiro.

Eles vão de tênis e chapéus, carregam água, câmeras e celulares. Outros nem se preparam tanto assim. Quem vem de regiões mais frias sente o sol forte e o calor de Salvador - que chega fácil aos 30 graus nessa época do ano -, mas sem reclamar. Pelo contrário, com um sorrisão no rosto, fé e devoção.

“Lavagem do Bonfim já faz parte do meu calendário de eventos há quase dez anos. Sou de Petrolina e este ano paguei caro na passagem porque comprei de última hora, mas está valendo a pena. Agradecer e se divertir pra começar o ano com o pé direito”, diz Nathali Vasconcelos, que é católica, admiradora e estuda religiões de matrizes africanas. 

A cor de Oxalá (branca), o deus Yoruba sincretizado na imagem católica do Senhor do Bonfim aparece na maioria das roupas. Veem-se muitos trajes típicos, turbantes, colares, braceletes, saias longas e bem engomadas.

As baianas carregam moringas e potes cheios de água perfumada para a lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, encantando moradores e visitantes.

Galeria - Exemplos dé fé

Fotos: Antonio Muniz

“É uma festa que realmente encanta. A gente vem pra Lavagem do Bonfim e é só paz, momento de purificação. Já venho há muitos anos e sempre é uma emoção diferente, gosto muito de sentir essa energia”, afirma a devota Dora Browne.

Veja no vídeo
Um exemplo de fé

47 entidades

Bloquinhos e minitrios, fanfarras e DJS dão o tom profano da festa. Em 2019 o cortejo tinha 47 cadastrados.

A entidade com o maior número de participantes era a Devoção do Senhor do Bom Jesus do Bonfim, com 3 mil integrantes. A Associação Filhos de Gandhy saiu com 800 pessoas e a Banda do Mestre Memeu com 700.

Mas 2 chamavam a atenção pelo baixo número de participantes. José Eduardo se cadastrou junto à empresa de turismo do município, a Saltur: apenas 2 participantes. E havia menor, ainda. Paulo Sérgio levou o DJ Móvel para o cortejo. Número de participantes: 1.

Destaca-se, entre todas, a Lavagem de Corpo e Alma, que em 2019 chegou à sexta edição. Nascida em 2014, o cortejo católico busca separar os fiéis dos blocos organizados por organizações partidárias e folia (em especial, das bebidas alcoólicas).


   Lavagem de Corpo e Alma
   Foto: Felipe Belmonte

Pelo segundo ano, a Lavagem de Corpo e Alma foi puxada pela Oficina de Frevos e Dobrados, sob o comando do maestro Fred Dantas. A filarmônica, fundada em 1982, é composta por 60 músicos. 

O maestro explica que a Lavagem de Corpo e Alma não busca dividir as religiões católicas e de matrizes-africanas.  “Não há problema com o sincretismo. Não é uma divisão entre católicos e fiéis das religiões de matrizes africanas. O objetivo é sair da margem dos políticos e das bebidas alcoólicas.”

Quanto ao repertório, Fred Dantas explica que a filarmônica passeia por músicas tradicionais e atuais da Igreja Católica.

“Além das músicas católicas, tocamos canções que tem pertencimento à festa como Ilha de Maré (Walmir Lima), Madalena (Gilberto Gil e Isidoro) e Maracangalha (Dorival Caymmi). São sambas que sempre tiveram presentes na festa, perderam espaço e agora estamos recuperando essa história.”

Ele avalia que as filarmônicas estão ganhando espaço na Lavagem do Bonfim e outras festas populares após a proibição do uso dos trios elétricos. 

“Os trios elétricos geram ruídos que impedem o povo ouvir os arranjos das filarmônicas. Não somos uma charanga. Há uma grande preparação para a nossa apresentação. Os músicos tocam por partituras, com arranjos elaborados para cada música. As pessoas que nos acompanharam na edição passada se divertiram. Recebemos adesão da população, atraídos pelos nossos arranjos musicais. Tudo isso sem a presença de bebidas alcólicas”, frisa Fred Dantas.

A professora Deise Oliveira acompanha a “Lavagem de Corpo” desde a primeira edição. “Um bloco católico dentro da Lavagem do Bonfim, com canções tradicionais e animado por uma filarmônica. Um ambiente alegre e de fé. Estou feliz e agradeço ao Senhor do Bonfim por estar aqui mais um ano.”



   Festa do Bonfim em 1950
   Foto: Arquivo
 

Há quase 230 anos

Aponta-se como 1773 o ano em que a festa litúrgica do Bonfim passou a ser celebrada pela igreja e que o templo passou a ser preparado para as celebrações. Há notícias de que também neste ano pode ter sido iniciada a tradição da lavagem da Igreja, quando os integrantes da Irmandade dos Devotos mandavam os escravos lavar o templo.

Mas não era uma cerimônia pública, nem mesmo da igreja.

Informações de estudiosos marcam o ano de 1804 como o da primeira lavagem oficial da igreja do Bonfim. Se sabe também que como a devoção era forte dentro da sociedade abastada da época, escravos eram enviados às quintas para lavar o templo para a missa das sextas.

No século seguinte à construção da igreja, portanto meados do século XIX, a festa já era grande em fervor popular e novamente se volta a ter informações de que foi instituída a lavagem oficial da igreja.

Mas também circulam notícias de que ela começou com um pedido singelo de um pároco a algumas pessoas para que a casa do senhor estivesse limpa para a missa solene do domingo.

Outra explicação bem simples é a de que a lavagem começou quando um devoto prometeu que, escapando ileso da guerra do Paraguai (1864 – 1870) lavaria sozinho a igreja do Bonfim. Alcançada a graça, ele teria ido cumprir a promessa o que motivou a curiosidade e algumas pessoas presentes passaram a ajudar e daí teria nascido o costume.

Segundo Mariely de Santana (2009), no início, a água da lavagem era retirada da fonte natural da encosta da colina. Com o crescimento da devoção, muitos romeiros chegavam antes, na quinta-feira, para participar da lavagem, e traziam vassouras, potes e barris.

Com o tempo, as pessoas da cidade, principalmente os aguadeiros, em sua maioria negros, passaram a levar pipas cheias de água ao Bonfim em romaria.
Eram levadas em carroças enfeitadas com ramagens de pitanga. Eles partiam da região da Conceição da Praia e de proximidades da Jequitaia e muita gente os acompanhava como uma verdadeira procissão.

As negras de ganho, e as esposas dos aguadeiros, os acompanhavam levando tabuleiros com quitutes. O cortejo era acompanhado pelos músicos de barbeiro.
Idas e vindas – A Lavagem do Bonfim, como cerimônia pública, teve muitos altos e baixos, momentos apoteóticos e de total proibição. Em 1889 o Brasil mudou de regime de governo, do Império para a República e a Bahia entrou inteira em estado de sítio. Claro, em 1890 não teve lavagem.


   Aguadeiros no primeiro chafariz do Bonfim, instalado em 1860
   Foto de 1901

Antes disso, em 1837, o arcebispo Dom Romualdo Antônio de Seixas, já havia feito duras críticas à festa, editando uma portaria na data, revela o publicitário e pesquisador Nelson Cadena em seu blog.

Cadena segue contando que em 1856 o Jornal da Bahia alertava quanto ao que considerava uma manifestação pagã: "Ontem era dia de Lavagem da Igreja do Senhor do Bonfim, para sua festa que celebra-se o domingo próximo, e como sempre houve no templo atos de desrespeito capaz de fazer estremecer um herático".

Em 1860 o Imperador da Áustria, o Principe Maximiliano descreveu a Lavagem do Bonfim no seu diário de viagem como "louca bacanal". Segundo ele, Xavier Marques, o ilustre escritor, descreveu a Lavagem na década de 20 (já no século XX) como "festa de água e álcool, aquele enorme disparate de benditos e chulas de rezas e gargalhadas, de gestos contritos e bamboleios impúdicos. A Vênus lá exibia as suas opulências carnais e os seus rebolados". Genial não é mesmo?

Em 1930 há notícias de que as autoridades eclesiásticas abriram mão para as baianas e o povo que, carregando potes de água da fonte da Baixada do Bonfim lavaram toda a igreja preparando-a para a festa.

A lavagem da igreja foi proibida em 1940 com a chegada a Salvador dos missionários Redentoristas. Apenas o interior da igreja foi lavado

Em 1943, em meio à Segunda Guerra Mundial, por causa da vitória das tropas brasileiras na Itália, a lavagem ganhou uma força especial. Milhares de pessoas, como não se tinha visto antes, participaram da procissão levando ao Senhor do Bonfim uma grande vela de dois metros, ornamentada com flores naturais, para ser colocada aos seus pés e acesa em solene Te-Deum. A vela foi benta na igreja da Conceição da Praia e levada por baianas.

Mas o espírito profano e a religiosidade novamente entraram em choque em 1949 e a lavagem voltou a ser proibida. A festa só voltou a acontecer em 1953 com a lavagem simbólica das escadarias.

Nas décadas de 1960 e 1970 a festa ganhou nova força popular por causa da participação de artistas e intelectuais como Vinicius de Moraes e Caetano Veloso. Os políticos também começaram a tornar sua presença mais marcante.

De lá para cá, com ou sem trios elétricos, com ou sem carroças puxadas pelos pobres jeguinhos e burros, a festa se mantém vigorosa, a mais importante do ciclo de festas populares da Bahia.

Aquela que espalha pelos quilômetros que separam a Conceição da Praia do Alto do Bonfim, gente vestida de branco que mistura dentro de si esse espírito sacro-profano que só se entende como funciona por aqui quando se mergulha sem pensar muito, mas abrindo o coração e o sorriso, olhando para o céu azul e pedindo a benção. Afinal, essa aqui é a terra abençoada pelo filho de Deus, o Senhor do Bonfim da Bahia.



   Fé e batucada
   Foto: Antonio Muniz
 

A uma só voz

"Glória a ti neste dia de glória..."

Assim começa o hino que é a trilha sonora da Festa do Bonfim.

Escrito em versos eneassílabos (9 sílabas métricas), o hino foi composto em 1923 por Arthur de Salles (imortal da Academia Baiana de Letras) com música de João Antônio Wanderley, para comemorar os 100 anos da vitória do povo baiano sobre o domínio português, nas lutas da Independência da Bahia.

A letra rende glórias ao Senhor do Bonfim: "Redentor que há cem anos nossos pais conduziste à vitória, pelos mares e campos baianos".

E faz alusão indiretamente a um episódio registrado pelo historiador Santos Titara: a imagem do Senhor do Bonfim havia sido apoderada pelas tropas portuguesas e, quando consolidada a vitória brasileira, foi esta restituída em cortejo poular, em 1823, ao templo original na colina do Bonfim (um lugar sagrado, como destaca a letra).

No centenário, a caminhada foi repetida e pode estar aí a origem da procissão que, todos os anos, enche de pessoas as ruas da Cidade Baixa.

Aprenda a letra e a tocar o hino no violão

Glória a ti neste dia de glória
Glória a ti redentor que há cem anos
Nossos pais conduziste à vitória
Pelos mares e campos baianos

Dessa sagrada colina
Mansão da misericórdia
Dai-nos a graça divina
Da justiça e da concórdia

Glória a ti nessa altura sagrada
És o eterno farol, és o guia
És, senhor, sentinela avançada
És a guarda imortal da bahia.

Dessa sagrada colina
Mansão da misericórdia
Dai-nos a graça divina
Da justiça e da concórdia

Aos teus pés que nos deste o direito
Aos teus pés que nos deste a verdade
Trata e exulta num férvido preito
A alma em festa da tua cidade

Desta sagrada colina
Mansão da misericórdia
Dai-nos a graça divina
Da justiça e da concórdia.

Os músicos chamam a atenção para um recurso do hino: ele foi composto com base em acorde com quinta, e isso ajuda a fazer com que sua melodia se fixe na mente.

Ele foi gravado por Caetano Veloso no disco Tropicália ou Panis Et Circensis, de 1968, o que ajudou a ser popularizado.

No YouTube é possível encontrar muitas interpretações, instrumentais ou cantadas, executadas por orquestras ou filarmônicas e hoje o hino está diretamente associado à caminhada que anualmente moradores e visitantes, em Salvador, fazem da Igreja da Conceição da Praia, na Cidade Baixa, à Colina Sagrada, onde se ergue a Igreja do Bonfim.

É difícil achar alguém, durante a caminhada, que não cante ou tenha ouvido ao menos uma vez a melodia e os versos do Hino ao Senhor do Bonfim.

Veja partitura com o Hino do Bonfim
(Fonte: Superpartituras)

Veja uma versão do Hino do Bonfim no musical Alegria, Alegria

Gerônimo canta o Hino do Bonfim



   Rua Travasso de Fora, em foto de 1913
   Foto: Arquivo
 

Os jegues do Bonfim

A justiça e a concórdia destacadas no Hino ao Senhor do Bonfim tiveram que ser exercitadas com mais força a partir de 2010, quando grupos de proteção aos animais (Subcomissão da Ordem dos Advogados do Brasil de Proteção dos Direitos dos Animais, ONGs Animal Viva, Célula Mãe e Associação Terra Verde Viva) resolveram impedir a continuação do que era, para muitos, uma tradição da festa, mas para eles apenas maus tratos: a utilização de jegues puxando carroças enfeitadas.

As entidades alegavam que os jegues do Bonfim eram submetidos ao estresse provocado pelo barulho e pela grande movimentação de pessoas às sua volta, além de serem submetidos a horas de esforço, sem comida e água.

Uma ação para impedir a prática foi julgada pelo então juiz substituto da 8ª Vara da Fazenda Pública, Mário Albiani Júnior. Um dia antes da Lavagem ele concedeu liminar liberando a presença dos animais com a condição de a prefeitura fiscalizar e punir excessos.

Em 2011, O Juiz Ruy Eduardo Almeida Britto, da 6a. Vara de Fazenda Pública da Comarca de Salvador - Bahia, proibiu a utilização dos jegues, mas em 2012 a Prefeitura de Salvador conseguiu que os desembargadores do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ) aprovassem a participação, por 24 votos a favor e 10 contra.

Os desembargadores destacaram a importância de manter a tradição do evento, mas determinaram que a Prefeitura fiscalizasse se há maus tratos.

A decisão não chegou ao conhecimento do público, e os animais continuam fora do cortejo.


   Jegue puxa carroça na Festa do Bonfim
   Foto: Marcel Gautherot (1950)

Os anos de participação levaram ao surgimento de uma expressão popular, em Salvador: quando alguém exagera no vestuário diz-se que está "mais enfeitado que jegue na Lavagem do Bonfim".



   A Colina Sagrada
   Foto: Valter Pontes/Agecom
 

Entre um anjo e um pecador

A igreja do Bonfim tem um projeto arquitetônico bastante comum ao início do século XVIII, que se repete em muitas matrizes e igrejas de irmandades, com nave única e corredores laterais superpostos por tribunas.

Os pórticos em arcada, das laterais, são uma transição dos avarandados do século XVII e os corredores do século XVIII. Em planta, a Basílica é uma típica igreja do século XVIII do nordeste brasileiro.

A igreja abriga obras de diversos artistas. O altar-mor é dedicado ao Senhor do Bonfim. A pintura do teto da nave foi feita por Franco Velasco, da Escola Baiana de Pintura.

Nos altares laterais há as imagens do século XVI de São Joaquim, Senhora Santana, Nossa Senhora, Santo Afonso e São José, além os painéis de Cristo na presença de Pilatos e de Cristo no Horto das Oliveiras e os entalhes de concepção neoclássica de Francisco de Matos Roseira.

Nas paredes da nave principal 34 telas narram a Paixão de Cristo e na sacristia estão mais cinco telas de grande valor executadas por José Teófilo de Jesus.

Doação de Fé – Na basílica há também as alfaias, que são objetos usados nos atos litúrgicos, como sacrários, crucifixos, castiçais e outros que foram incorporados à ambientação da igreja, como lustres de prata lavrada e os lustres dos altares laterais, todos oferecidos por devotos ao longo dos séculos.

Um sacrário de prata lavrada, por exemplo, foi oferecido pelo coronel Miguel José Maria Teive e Argolo, em 1680 e um crucifixo e castiçais das banquetas do Santíssimo Sacramento e de Nossa Senhora da Guia vieram de Portugal em 1791; os lustres dos altares laterais, também em prata lavrada, foram oferecidos pelo comendador José Freire de Carvalho, em 1813. De Portugal veio um coração trabalhado em ouro e prata, que é guardado como preciosa relíquia histórica.

O Justo está arrodeado de anjos e de um padre, já o Pecador, embora arrodeado de anjos, que tentam chegar até ele, está sendo influenciado pelo demônio, que o orienta para não aceitar a aproximação dos anjos.

Um dos maiores destaques do acervo são os quadros “A Morte do Justo” e “A Morte do Pecador”, que ficam um de cada lado, na entrada da igreja e são de autoria de Bento Capinam.

O Museu dos Ex-Votos - Museu Rubens Freire de Carvalho de Tourinho, funciona dentro da Basílica do Bonfim e tem objetos entregues à igreja por fiéis ao longo dos últimos 300 anos. Ali estão expostos os ex-votos, moldagens em cera, madeira e outros materiais, geralmente de pedaços do corpo humano.


   Museu dos Ex-Votos

   Foto: Turismo Salvador/Wikimedia Commons

Há também pinturas, retratos de diversas situações, cartas, bilhetes e radiografias. Pedaços de histórias da vida dos devotos, que a fé consagrou. A camisa autografada por todos os jogadores na conquista do tricampeonato do mundo na Copa de 1970 e uma moeda retorcida que aparou um tido desferido salvando a vida do senhor Donato Cecílio, em 1779, ao invocar o Senhor do Bonfim, são alguns dos destaques.

Azulejos
   Azulejos na Igreja do Bonfim
   Foto: Rita Barreto/Bahiatursa