Cinema

Coisa de Cinema: Panorama reflete sobre o brasileiro e as crises no País

O Leiamais.ba foi conferir não só as atrações, mas presenciar as discussões

Foto: D
Cena de "Breve Miragem do Sol"

Mito do brasileiro cordial, precarização do trabalho e os delírios de uma sociedade doente foram algumas das temáticas abordadas nas Competitivas Nacionais do Panorama Coisa de Cinema, no Espaço Glauber Rocha.

O Leiamais.ba foi conferir não só as atrações, mas presenciar as discussões acerca da situação político-econômica do país.

O relato como “jornalista metida a crítica de cinema” refere-se à tarde do domingo pós-feriadão (3 de novembro) com a exibição dos curtas “Aqui e Agora”, de Diogo Martins  e “Ronda”, de Maurício Battistuci e Francisco Miguez. Já “Breve Miragem do Sol” foi o longa metragem apresentado pelo realizador Eryk Rocha.

Os leitores com mais de 30 anos devem estar pensando que “Aqui e agora” faz referência ao telejornal do SBT, embrião dos noticiários sensacionalistas e pela voz grave do repórter Gil Gomes ao narrar com suspense os crimes da São Paulo dos anos 90.

Errado. O curta, na verdade, aborda não só o preconceito velado dos brasileiros contra os imigrantes haitianos, mas também a imagem que eles têm do novo país.

“O curta mostra como os haitianos devem se portar para ser bem-vindos aqui. Em contrapartida, aborda os preconceitos deles, como o machismo. A preocupação foi não tornar o enredo maniqueísta”, explica o diretor Diogo Martins.


Eryk Rocha e Alessandra Rocha - Fotos: Ieda Tourinho

A atriz Alessandra Rocha considera que o curta deixa muito claro que a recepção dos brasileiros com os negros haitianos retintos remete à escravidão.

“No fundo, é a hipocrisia que temos no dia de hoje que não temos racismo, de que os negros estão no mesmo patamar que a classe dominante. 

Mas quando se trata dele e, no caso do imigrante, os haitianos servem para os nossos serviços braçais considerados inferiores.

Quando se trata de imigrantes, a gente nem olha, simplesmente coloca para debaixo do tapete e acha que está ajudando com um prato de comida”, comenta.  

Já “Ronda” relata a obsessão do protagonista em trabalhar como segurança, além de debater sobre o mundo do trabalho e as relações precárias.

“O curta questiona o papel do emprego promotor da dignidade humana.

Na verdade, Ronda trabalha com realismo social e há um aspecto non-sense quando o protagonista tem alucinações sobre o desejo de estar empregado”, esclarece o realizador Maurício Battistuci.

O longa “Breve Miragem do Sol” é a relação do taxista Paulo (Fabrício Boliveira) com a cidade do Rio de Janeiro.

“Me interessava profundamente essa relação dessas pessoas com a cidade, como se misturam com a cidade, como são atravessadas com muitas energias e muitas forças sociais.

Um taxista é um narrador, um escutador do seu tempo, que vivencia essa síntese da sociedade à flor da pele”, destaca Eryk Rocha.

Uma das curiosidades é que o longa mostra a cidade do Rio de Janeiro tomada pela intervenção militar e o caos com as quais o carioca está acostumado.

Além disso, o realizador destaca que há uma sobreposição entre o individual (questões de Paulo) e o coletivo (caos da cidade do Rio “Através do personagem Paulo esse homem, essa indivualidade a gente consegue ver o coletivo dessa cidade, dessa forma (creio eu).

O individual e do coletivo se sobrepõem e não só em relação aos passageiros, mas essa cidade que está permeando o filme, invadindo o personagem.

Paulo tem a história dele, o drama dele, o filho, a correria dele, o sofrimento dele, mas ele está ligado com essa teia social brasileira do Rio de Janeiro, que é uma cidade extremamente complexa, caótica e que vive um certo terror também”, ressalta.

Mostra Glauber Rocha – Ontem (6) foi o dia de despedida da mostra Glauber Rocha, um dos homenageados da XV Panorama Coisa de Cinema , com a exibição do longa “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969)”. 

Esse é um dos filmes preferidos do organizador do Panorama, Cláudio Marques. “Glauber Rocha precisa ser visto e revisto sempre. Recomendo que o público veja esse filme pela atualidade do tema”, recomenda.

Perguntado sobre as possíveis semelhanças entre a obra do pai, Glauber Rocha, Eryk ressalta que o ponto de ligação entre linguagens, épocas e caminhos diferentes é a vontade de produzir o cinema em que se faz a radiografia da alma brasileira. 

“O que existe sim, meu pai, sem dúvida é uma referência no meu trabalho, pois abriu os caminhos do Cinema brasileiro e muita gente só faz cinema por conta dos caminhos que o Glauber, os conterrâneos e a geração dele do cinema novistas ou do cinema de invenção abriram pessoas abriram. Meu pai é referência para mim não só pelo cinema, mas pela atitude dele como artista, como pensador’, compara.