Bahia / Brasil

Brasil já tem uma santa (como foi a celebração em Roma e na Bahia)

É Santa Dulce dos Pobres

Santa Dulce em meio aos pobres

Eram 5h30 da manhã deste domingo (13 de outubro), quando o papa Francisco, na Praça São Pedro, em Roma, diante de 15 mil católicos brasileiros, anunciou: a baiana Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes , freira Irmã Dulce, é agora Santa Dulce dos Pobres, a primeira nascida no Brasil.

"Em honra da Santíssima Trindade, pela exaltação da fé católica e para incremento da vida cristã, com autoridade de nosso senhor Jesus Cristo, os santos apóstolos Pedro e Paulo, depois de haver refletido longamente, ter invocado a ajuda divina e escutado o parecer de muitos irmãos do episcopado, declaramos e definimos santos os beatos: John Henry Newman, Giuseppina Vannini, Mariam Thresia Chiramel, Dulce Lopes Pontes e Marguerite Bauys", declarou o papa Francisco, em latim.


A Praça do Vaticano lotada, para a cerimônia de canonização - Foto: Diego Mascarenhas


Papa Francisco celebra a missa de canonização - Foto: Diego Mascarenhas

A canonização ocorre nove anos após o colegiado de cardeais e bispos da Congregação para a Causa dos Santos, da Cúria Romana, atestar o primeiro milagre atribuído à Irmã Dulce descrito no processo de beatificação da religiosa iniciado pela Arquidiocese de São Salvador da Bahia. A decisão do colegiado é baseada em avaliação de peritos de saber científico (como médicos) e teólogos.

Junto com a santa brasileira, foram canonizados:
-- O beato John Henry Newman (1801-1880), cardeal, fundador do Oratório de São Filipe Néri na Inglaterra

-- Giuseppina Vannini, Madre Josefina (1859-1911), italiana, fundadora das Filhas de São Camilo

-- Maria Teresa Chiramel Mankidiyan (1876-1926), indiana, fundadora da Congregação das Irmãs da Sagrada Família

-- Margherita Bays (1815-1879), suíça, da Ordem Terceira de São Francisco de Assis

A cerimônia no Vaticano foi acompanhada pelo vice-presidente, Hamilton Mourão; pelo governador da Bahia, Rui Costa; o prefeito de Salvador, ACM Neto; e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre.


A cerimônia de canonização, no Vaticano - Foto: Diego Mascarenhas

No vídeo
Governador Rui Costa fala sobre a canonização de Irmã Dulce

"Nas minhas orações, pedi que ela continue guiando os nossos caminhos e olhando pelos que mais precisam”, disse o prefeito ACM Neto, na Praça São Pedro, após a cerimônia.

Em Salvador

No Santuário de Irmã Dulce, em Salvador, a partir de agora Santuário Santa Dulce dos Pobres, ficou aberto durante toda a noite de sábado (12) e a madrugada deste domingo para a vigília à espera das canonizações que o Papa Francisco presidiria no Vaticano.


O Santuário ficou lotado - Foto: Romildo de Jesus

Foi a partir da cerimônia no Vaticano, em Roma, que o nome de Santa Dulce dos Pobres ganhou o mundo, mas a freira baiana nunca saiu de Roma. É assim que se chama o bairro onde construiu sua obra de atendimento aos mais necessitados.

Um telão de 15 metros quadrados foi instalado no interior do santuário para os fiéis acompanharem em tempo real a  cerimônia presidida pelo papa Francisco.

Uma missa presidida pelo bispo auxiliar Dom Marco Eugênio Galrão Leite de Almeida, deu início à Vigília dos Jovens Adoradores, da Arquidiocese de Salvador . Durante a vigília, às 4h, padre Josuel Jesus, formador do Seminário São João Maria Vianney, conduziu  a adoração ao Santíssimo Sacramento. Às 5h uma alvorada  de fogos de artifício iniciou  a transmissão, ao vivo, da cerimônia de canonização. 

A transmissão da missa celebrada pelo papa Francisco começou cedo, eram 5h15 da manhã e as pessoas estavam vidradas no telão que foi instalado dentro do Santuário de Santa Dulce dos Pobres.

Os olhares orgulhosos estavam atentos ao momento em que seria confirmada a canonização do Anjo bom da Bahia. Desde às 22h da noite anterior, o Santuário já estava cheio para a celebração da missa em homenagem ao dia de Nossa Senhora de Aparecida e junto a isso, o início da vigília que culminaria no começo da transmissão da missa diretamente da Praça de São Pedro.

Cada menção feita à Irmã Dulce era celebrada efusivamente pelas pessoas que apesar de cansadas pela noite em claro, estavam felizes e orgulhosas pela canonização da baiana, nordestina, guerreira e mulher, a Santa Dulce dos Pobres. Muitas pessoas presentes no local tiveram contato direto com irmã Dulce e uma delas é dona Angélica.

Sentada no Café Dulce, ela conta com orgulho a experiência dela com a Santa Dulce. “Ela ia muito na nossa casa, lá na Federação, meu pai ajudava muito ela, eu tinha 7 anos”.

Dona Angélica estava no Vaticano há 15 dias e voltou para cumprir a promessa de estar presente no Santuário da Santa Dulce no dia da canonização. E fez questão de mostrar a foto das irmãs que foram prestigiar o momento de grande orgulho para ela. “É a realização da minha vida [...] daqui a 10 anos eu vou contar que vim aqui ver a santificação de Irmã Dulce e vão dizer: que velha mentirosa! Mas eu vivi tudo isso e estive na presença da nossa santa”, completou.


Dona Angélica: "vão dizer: que velha mentirosa!" - Foto: Flávio Mello


Dois momentos de fé: a alegria e a emoção pela canonização de Irmã Dulce - Fotos: Flávio Mello
 

A Paróquia Santa Dulce dos Pobres,localizada no bairro do Saboeiro, em Salvador, será a primeira paróquia do mundo dedicada à Santa Dulce dos Pobres. Formada por sete comunidades e a matriz paroquial será a atual Capela Santíssima Trindade (Rua Silveira Martins, n. 32, Saboeiro). 

O anúncio da criação da nova paróquia foi feito logo após a Missa de Canonização, que também foi presidida pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador,Dom Marco Eugênio Galrão Leite de Almeida.

O bispo auxiliar fez a leitura do Decreto de Criação no Santuário da Mãe dos Pobres. Localizado no Largo de Roma, na capital baiana, o templo, que era dedicado à Imaculada Conceição da Mãe de Deus, abriga restos mortais da santa.

Também será criado o primeiro Santuário do mundo dedicado à Santa Dulce dos Pobres. O bispo auxiliar fez a leitura do Decreto de Criação logo após o anúncio da canonização da santa.

Vigília

Muita emoção, oração e louvor fizeram parte da vigiília inicada na noite de sábado (12).

Para Neuza Andrade Melo, 67 anos, a  canonização de Irmã Dulce é uma vitória. "Eu a conheci em uma antiga distribuidora de filmes chamada Condor Filmes, no bairro do Comércio. Desde então, me identifiquei rapidamente com o carisma dela. Dulce era uma mulher única, para o trabalho que fazia não há descrição. Quem não acreditava, passou a acreditar. Ver uma mulher que eu tive a oportunidade de conhecer se tornar santa é uma sensação indescritível e inigualável", disse.


Neuza Andrade Melo - Foto: Morgana Montalvão

O artista plástico Adilson Guedes, 52 anos, conheceu a Santa Dulce do Pobres no Subúrbio Ferroviário, na década de 80, através de Dom Lucas Moreira Neves, para arrecadar donativos paras as Obras Sociais.

"Eu vou ficar até o final da vigília e assistir a missa, vai ser uma emoção única. Ela era uma pessoa inteiramente do bem, acolhia os mais necessitados. Ela ser proclamada santa é sacramentar o trabalho social dela", disse o artsta plástico, que planejava peregrinar até a Basílica do Senhor do Bonfim, junto com um amigo, segurando um estandarte, para louvar a Santa Dulce dos Pobres.

O bispo auxiliar Dom Marco Eugênio Galrão Leite de Almeida disse que Santa Dulce dos Pobres "encarnou com perfeição a graça de ser uma exímia serva de Cristo na Terra". 

"Santa Dulce dos Pobres é a personificação de que a santidade é real. Ela se faz uma intérprete perfeita de alguém que vivia a palavra do Evangelho do nosso  Senhor Jesus Cristo ao grau máximo, tinha amor pelos mais necessitados, por isso ela é santa. Uma mulher do século 20, que tinha amor pelos pobres, que muitos baianos tiveram a oportunidade de conhecer ser santificada, é fantástico."


Vigília para Irmã Dulce - Foto: Morgana Montalvão

O tamanho da obra deixada por Irmã Dulce pode ser medido em números:
-- 3,5 milhões de procedimentos ambulatoriais realizados por ano na Bahia, sendo 2,2 somente em salvador
-- 2 mil pessoas atendidas diariamente na sede das Obras, em Salvador
-- 954 leitos para o atendimento de patologias clínicas e cirúrgicas
-- 18 mil internamentos e 12 mil cirurgias realizadas anualmente em Salvador
-- Mais de 11,5 mil  atendimentos por mês para tratamento do câncer
-- 150 bebês com microcefalia são acompanhados hoje na OSID
-- 787 crianças e adolescentes, em situação de vulnerabilidade social, atendidos no Centro Educacional Santo Antônio
-- 1,7 milhão de refeições servidas por ano para nossos pacientes e 537 mil para nossos colaboradores
-- Mais de 4,3 mil profissionais atuam na organização, sendo mais de 2 mil no complexo das Obras

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Em Salvador, no Santuário Irmã Dulce, o momento em que a canonização é concluída

Para a pesquisadora baiana Thiaquelliny Teixeira Pereira, que escreveu tese de doutorado sobre a construção social da santidade, Irmã Dulce já é considerada santa pelos brasileiros e, em especial, pelos baianos. 

"População brasileira é pouco entendida na questão da liturgia, é um povo de muita fé e de pouco conhecimento teológico", observa. "[Há] Pessoas que são cultuadas pela população baiana à procura de milagres, de terem suas aflições respondidas", revela a pesquisadora.

Conforme o jornalista Graciliano Rocha, autor da biografia Irmã Dulce, a santa dos pobres, são comuns relatos de fieis, como Miralva Oliveira, descrevendo recuperação da saúde e o recebimento de outras graças após fazer orações e promessas à Irmã Dulce.

“Há um imenso mosaico de fé popular. A devoção à Irmã Dulce mobiliza todo o tipo de gente, de qualquer classe social”, descreve o biógrafo que realizou pesquisa por oito anos no Brasil, no Vaticano e até nos Estados Unidos. Segundo ele, nos vinte anos após a morte da beata (entre 1992 e 2012) mais de 10 mil relatos de graças foram descritos em cartas de fieis.

“É impossível não perceber beleza na devoção das pessoas”, observa o biógrafo após leitura de amostra dessas mensagens para escrever o livro. Há nas cartas “a inquietação genuína dos devotos”, principalmente de “causas ligadas à saúde”.


Irmã Dulce em enfermaria montada para receber os doentes

As obras sociais tiveram início no ano de 1949, quando Irmã Dulce ocupou um galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio para cuidar de 70 doentes. Onze anos depois, a futura santa cuidava de um hospital que dispunha de 160 leitos.

“Era um momento que não havia direito à saúde pública. As pessoas para serem atendidas em hospital público tinham que ter carteira de trabalho assinada. O hospital dela era o único que não rejeitava ninguém. Isso foi fundamental para que o colapso da cidade de Salvador não tenha sido pior na segunda metade do século 20. Isso é a base da santidade que ela tinha em vida”, avalia o biógrafo.

Sérgio Lopes, assessor corporativo das Osid, avalia que erguer a infraestrutura de atendimento hospitalar - e que também oferta ensino fundamental para 750 crianças e adolescentes, e fornece 1,7 milhão de refeições gratuitas por ano – “foi o primeiro milagre de Santa Dulce dos Pobres.”

O atendimento à saúde é feito graças a convênios com o Sistema Único de Saúde (SUS).  Em 2018, o dinheiro não foi suficiente, tendo sido registrado um déficit de R$ 11 milhões, coberto posteriormente por repasses do Ministério da Saúde e doações, que equivalem a 5% do orçamento anual.

No vídeo
O trabalho das Obras Sociais Irmã Dulce

Casamento no Santuário

Carina Santos, 29 anos e Luís Carlos Jesus, 28 anos, se casaram no mesmo dia da vigília dedicada à Santa Dulce dos Pobres. A data, que já estava marcada desde janeiro deste ano,  foi uma "abençoada coincidência".

"A data do nosso casamento já estava marcada desde o começo deste ano. A gente jamais imaginaria que coincidiria com a data da vigília para a santificação de Irmã Dulce. Meu casamento será abençoado, é muita emoção", disse Carina ao Leiamais.ba.

"Nós escolhemos a data de 12 de outubro porque queríamos casar no Dia da Padroeira do Brasil (Nossa Senhora Aparecida), mas não imaginaríamos que seria no dia da vigília à Irmã Dulce. É emocionante", completou o noivo Luís Carlos.

Eles se casaram às 19 horas, no Santuário da Mãe dos Pobres, antes de a vigília começar.


Os noivos Carina e Luís Carlos - Foto: Morgana Montalvão