Cidade

Morre o jornalista Francisco Viana

O corpo será cremado nesta segunda, 26, às 14h30min, no Jardim da Saudade

O jornalista Francisco Viana morreu em Salvador, neste domingo (25 de agosto), de parada cardíaca e terá o corpo cremado nesta segunda-feira (26), às 14h30min, no Jardim da Saudade.

Ele era um dos maiores especialistas em comunicação empresarial do País, e autor do livro "De cara com a mídia", em que abordava a nova problemática do relacionamento entre empresas, mídia, sociedade e poder público. Uma obra considerada indispensável pelos profissionais envolvidos na comunicação corporativa e estudantes da área.

Graduado pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, Mestre e Doutor em Filosofia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e especialista em Media Training e Gestão de Crises, Francisco Viana possuia vasta experiência nas áreas de Comunicação Estratégica, Pública, de Crise e Filosofia da Comunicação, que podia ser comprovada através de suas contribuições como escritor, professor, consultor de comunicação e colunista, palestrante e autor de diversos livros como "Hermes, a Divina Arte da Comunicação" e "Marx, o labirinto da utopia".

O pensamento de Chico Viana (como era chamado pelos amigos):

"O Brasil se tornou uma terra mediada pelo social mais do que pela economia, mais pelas forças políticas, com raízes na população, do que pelas abstrações críticas. É uma situação que lembra, guardadas as proporções, a antiga Grécia ao ser invadida pelos romanos. Famílias enlouqueciam e se perguntavam: como podemos ser dominados pelos bárbaros? Não era exatamente assim. Como não é agora. A novidade é que a comunicação de um tornou-se um ponto de vista sobre a comunicação do outro. Vai demorar algum tempo que para que os polos dissonantes se entendam e que se afirme a educação, em larga escala, para a democracia, assim como caberá ao comunicador reeducar-se para compreender essa nova sociedade que emerge das urnas."

"As reclamações da sociedade precisam ser ouvidas. Elas, as reclamações, devem ser as tecelãs das mudanças para melhor, devem significar evoluções, devem significar, sobretudo, atenção e cuidado com o cidadão. O gestor democrático, público ou privado, como o representante político, precisam ser referências. Paradigmas de conduta."

"O Brasil vive uma situação paradoxal: quanto maior a liberdade, maior a intolerância. É como se houvesse uma vontade incontida de fazer como que todos fossem duplo dos outros, cópias fieis, como pregavam as utopias sociais, conservadoras ou à esquerda, nos séculos XVI e XVII – De Morus a Campanella. É um erro. Sem a crítica, não há evolução, não há dialética. Nem do conhecimento, nem da prática. Comunicar é partilhar, dialogar, absorver as diferenças."

"Primeiro, e o mais importante, é ouvir e atender as demandas da sociedade. Em paralelo, é urgente uma mudança total de comportamento. A coisa pública existe e deve ser cuidada. O interesse público se encontra acima dos interesses individuais."

"Eu sou uma pessoa muito positiva, gosto de ver as coisas pelo lado da construção, não dos problemas, que são, sim, para serem resolvidos. Nós brasileiros muitas vezes temos o hábito, péssimo, aliás, de criticar mais do que realizar. Prefiro abraçar, sempre, o ângulo da realização."

O último texto de Chico Viana

Enviado para o Leiamais.ba, seu último texto falava de Salvador e Paris, duas de suas maiores paixões.

"Paris e Salvador. Paris é uma cidade feminina. É o núcleo da mitologia urbana moderna e pós moderna.  Mistura divina de Afrodite, Atenas e Artemis, filha de muitos tempos, a força guia e o farol para a difícil e misteriosa arte de amar. Paris convida a passear pelas ruas de braços dados, de mãos dadas, trocar beijos nas esquina, dançar ... comer no bistrô Paul Bert, tomar um taça de vinho no Café Les  Deux Magots e imaginar que Sartre e Simone de Beauvoir estão, na mesa ao lado, ao alcance dos olhos, conversando sobre existencialismo ... convida a se perder no Marrais e sua ruas cheias de gente, com pequenos pedaços da África incrustados como exóticas pedras preciosas... ver a torre Eiffel ao longe( ou de perto  ) envolta em névoas, dormir tarde, acordar tarde, comer sanduíche grego... Encontrar Diderrot, Danton, Robespierre e Napoleão no restaurante Le Procope (1686), na legendária rue de Ancienne Comèdie...

Não importam as multidões de chineses que parecem ubíquas nem os turistas seduzidos mais por tirar fotografias do que pela embriaguês da paisagem. É como abarcar o mundo com um único olhar, embora Paris também lembre uma esfiha ge sem olhos com suas histórias de rebeldia e morte da Comuna de Pária que horrorizou a Europa.

É como no Jogo das Amarelinhas, de Júlio Cortazar, você marca um encontro no Quartier Latin. Onde? O acaso dirá. O que importa é o prazer da busca, do encontro. E, em um instante de dúvida, faça como recomenda o romântico Baudelaire: embriague-se. De poesia, de vinho ou com a paisagem. 

“É preciso estar sempre embriagado...E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: É hora de embriagar-se!“

Não seja escravo do tempo, nem dos compromissos,  nem dos roteiros, nem... Embriague-se com a liberdade de ir e vir. Se perca nos labirintos da historia. E se reencontre. Sempre. Seja o senhor e a senhora do tempo. Vão, senhor e senhora do tempo, onde seus pés lhe levarem.

Sigam o curso do Sena. Vejam o casario elegante, as vitrines, os restaurantes, os teatros, os palácios, as livrarias, as galerias, a paisagem. Não tentem decifrar os mistérios da cidade , os ecos das antigas barricadas, nem conhecer as fadigas das longas solidões que devoram o sangue de milhões de seres anônimos.

Como no fino sonho de um espelho, entregue-se aos encantos da cidade. Imaginem: Benjamin e suas Passagen de Paris, a Prosa de Balzac e seus mitológicos Flaneurs, no didatismo de Eugène Sue com Os Mistérios de Paris, pense nos desejos humanos, na alegria e nas lutas sociais, no utopismo, a base para um sociedade bem regulada. 
Embriaguemo-se. Ouçam as vozes de Edith Piaf. 

Sonhem. Esse tempo é eterno. É o tempo idílico de sonhar. Esqueçam-se das lutas angustiantes pela sobrevivência. Esqueçam-se que foi em Paris que o jovem Marx inspirou-se no Vampiro para tecer suas teses revolucionárias condenando o capitalismo.  Lembre-se de Meia-noite em Paris, je t’aime...

Entreguem-se à cidade como alguém que se deixa seduzir por um buquê de rosas vermelhas, a rústica beleza de uma casinha de campo, uma taça de Champagne. Pensem em maio de 1968 e nos estudantes, mas não só nas passeatas, nos embates com a policia, e , sim,  nas noites de amor.

Noites sem fim. Noites que se bifurcam em outras e chegam de forma plural aos nossos dias. Embriaguemo-nos-se e acreditem,Paris é dos enamorados. Esse o seu maior segredo. Essa a fronteira que demarca os limites entre o sonho e a realidade."