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Flipelô quer abrir mais espaços para a Literatura Negra no País

O debate incluiu os modos de fazer a Literatura Negra ocupar cada vez mais espaços

Foto: Iven Vit/Leiamais.ba
Pelourinho
"Literatura Griot: o legado de Makota Valdina" foi debatida na Igreja do Rosário dos Pretos

A terceira edição da Flipelô-Festa Internacional Literária do Pelourinho (Flipelô) é mais do que as obras de “Castro Alves, “o poeta dos Escravos”.

A Literatura Negra é uma das temáticas mais trabalhadas, seja na programação infantil (com contação de histórias), seja em mesas redondas como a que aconteceu na Casa do Benin, com a participação dos autores baianos Cássia Valle (Calu, uma menina cheia de histórias), Marcos Cajé (Igbó e as Princesas) e Davi Nunes (Bucala, a princesa do Quilombo do Cabula).

O debate incluiu os modos de fazer a Literatura Negra ocupar cada vez mais espaços na escola e no mercado editorial, além de empoderar as crianças para a cidadania, mas para ter resistência em um mundo cada vez mais adoecido e racista. Peço licença ao leitor para destacar os pontos que me chamaram mais a atenção e aviso-lhe que são as observações de uma escriba que não pertence ao lugar de fala dessas inquietações.

Um dos pontos apresentados foi a ignorância persistente sobre a lei nº 11.645/2008, a qual estabelece as diretrizes e bases da educação nacional para a inclusão no currículo da rede de ensino obrigatoriedade de “História e Cultura afro-brasileira e indígena”.

Ao apontar que “as escolas só trabalham o negro no mês de novembro por conta do dia da Consciência Negra” e “um aluno, uma vez me perguntou, se havia princesas negras” me deixou perplexa com a lacuna entre lei e a aplicabilidade nas escolas e o quanto os professores precisam ter uma formação mais completa sobre a Literatura Negra.

O leitor mais atento deve estar pensando: “Ok. Mas essa impressão é tão clichê”. Entretanto, ainda não mencionei sobre o que há por trás dessa deficiência. Não se refere somente à bagagem do docente, mas também sobre a pouca menção da Literatura Negra currículos das licenciaturas nas universidades públicas locais.

O escritor Davi Nunes presenciou isso no curso de Letras “Durante minha graduação, o pouco conteúdo que houve sobre literatura africana foram os autores brancos do continente, que tinham, obviamente, uma perspectiva totalmente diferente. Não visualizava essa África que conheci com autores pretos”, ressaltou Davi.

“Não podemos esperar que a universidade mude. Temos que fazer o nosso trabalho de conquistar cada vez mais espaços. Não é porque não tive esse acalento que não devemos lutar”, complementou Cássia Valle ao revelar que, durante a formação intelectual dela, as escolas somente mencionavam obras de Monteiro de Lobato, que reforçavam os estereótipos, como o de Tia Anastácia (a negra como subalterna).

Após essa mesa redonda, me dei conta mais ainda de que os pais devem trabalhar a autoestima das crianças, essa busca pela luta contra o racismo estrutural bastante arraigado na cultura brasileira.

Lenda africana repaginada e no ciberespaço

O segundo dia da Flipelô foi um presente não só para o meu intelecto, mas também para os olhos e a minha imaginação. Houve o relançamento da “Lendas africanas dos orixás” um dos clássicos de autoria de Pierre Verger, com ilustrações de Carybé.

O evento ocorreu no Centro Cultural Solar Ferrão, com a presença de Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger, Solange Bernabó, filha de Carybé, Enéas Guerra (Editora Solisluna) e Vovó Cici.

Vovó Cici lê trechos de livro
Vovó Cici narra trechos de “Lendas Africanas dos Orixás” e conta sobre convivência com Pierre Verger - Foto: Ieda Tourinho

A primeira impressão ocorreu em 1985 e a versa atual conta com o prólogo do professor Emérito da Universidade de São Paulo, Reginaldo Prandi (A mitologia dos orixás).

O livro reproduz as histórias ouvidas por Pierre Verger que explicam o mundo, ditam as regras que organizam a sociedade e orientam a conduta de cada ser humano em todos os momentos de sua vida, de acordo com o candomblé.  Para quem já conhece a obra, sabe que a seguinte frase sintetiza a obra: “Um babalaô me contou”.

A roda de conversa parecia uma reunião de velhos amigos, que contavam sobre a convivência com Pierre Verger e com Carybé de uma maneira leve e muito bem-humorada.

Uma das curiosidades reveladas durante a conversa foi que as ilustrações do livro foram produzidas por Carybé em três dias. Além disso, a nova edição contará com uma inovação: o leitor poderá ouvir as lendas narradas por Vovó Cici por meio do QR Code, que pode ser baixado pelo smartphone.