Bahia / Música

Conheça o samba que nasceu nos canaviais do Recôncavo baiano

No ambiente da zona rural e dos afazeres domésticos nasceram os cantos de lamento

Foto: Kithi
Mulher dançando samba chula
A sambadeira Ana, do Recôncavo baiano

Dos canaviais e dos afazeres diversos do tempo da colonização, dentre outras manifestações, permanece o samba chula na voz de vários músicos e grupos que atuam na contemporaneidade, dentre eles Mestre João do Boi, Roberto Mendes, Recôncavo Experimental e Filhos de Oyó, que, através de projetos diversos, divulgam e ampliam o público para o samba chula, a raiz de onde todo o samba brasileiro se originou, conforme fala o músico, compositor e pesquisador Roberto Mendes.

O mestre declama um texto cantado, os tocadores aguardam o momento certo para entrar, o coro responde ao verso, os instrumentos soam a musicalidade que movimenta o corpo...

O samba chula é um ritual com regras bem definidas. Uma antiga tradição do Recôncavo baiano, local onde a nação brasileira começou oficialmente.

De um lado portugueses colonizadores com sua religião, musicalidade, ritos e ideais. Do outro lado índios e negros africanos com sua religião, musicalidade, ritos e feitos escravos para sustentar a ambição do projeto de colonização movido pela ganância humana.

Para todos uma nova realidade se instala na Bahia.

 
"A força magnética (do samba), compulsiva mesmo, vem do impulso (provocado pelo vazio rítmico) de se completar a ausência do tempo com a dinâmica do movimento no espaço, incitando o ouvinte a preencher o tempo vazio com a marcação corporal. Palmas, meneios , balanços, dança"
(Muniz Sodré)

O corpo aprisionado dos afrodescendentes se reinventam no canto de labor. As letras das canções refletem os afazeres e vivências do dia-a-dia, amenizando a dor provocada pela distância da vida de outrora, pela prisão imposta e pelo árduo trabalho sem descanso.

Essa forma de apreender a realidade e transformar em elemento estético de sociabilidade e de expressão da sua interioridade, da sua emoção, transcende a condição vivida pelos afrodescendentes e alimenta a mente com a força e a esperança para aguentar as violências diárias a que são submetidos.

Para João do Boi, Mestre de samba chula, o canto ajuda o tempo passar rapidamente durante as horas de trabalho: “Um canta daqui e o outro responde de lá”.

A base é o modelo “responsorial” de canto coletivo, como informa Carlos Sandroni no artigo “Samba de Roda, patrimônio imaterial da humanidade”.

No ambiente da zona rural, da lavoura da cana-de-açúcar, da criação do gado, dos afazeres domésticos, nasceram os cantos de lamento.

Negros oriundos de várias regiões da África criaram, no cotidiano do Recôncavo, formas de expressão que se fez arte e transgrediu a condição desumana de trabalho, incorporando na lida diária aspectos da beleza para nela encontrar força para a resistência e sobrevivência.

Da área destinada ao trabalho o canto seguia para as senzalas, onde o batuque acontecia avançando até tarde da noite, como é descrito pelos viajantes que pelo Brasil andaram no século XVIII.

Em alguns momentos, geralmente após a liturgia católica, a casa grande permitia que os “folguedos” acontecessem na presença dos senhores de engenhos.

Nesse ambiente de encontro entre culturas a mescla aconteceu: o batuque africano, o pandeiro árabe, a viola portuguesa, a sensibilidade musical dos sudaneses e o canto de lamento se converteram no samba chula, um dos símbolos do Recôncavo desde o século XIX. 

 
"Nas mãos de um africano, mesmo que árabe, a viola portuguesa jamais poderia criar uma outra música, que não fosse genuinamente africana. Isto valeria tanto para as plantações de cana-de-açúcar no Recôncavo Baiano, quanto para as plantações de algodão nos Estados Unidos ou em qualquer outro ponto do planeta"
(Waldomiro Júnior/Roberto Mendes)

O samba chula é um canto que fala do cotidiano, da mulher, do gozo, da dor, do espiritual, da reverência a ancestralidade e do fortalecimento da fé. É a mistura do que somos hoje. É nossa história diária narrada de forma melódica.

O samba chula é um ritual com tempo determinado para cada ato, até chegar o momento que é tocado o “corrido” onde todos podem sambar. 

Dispostos em forma de roda estão os músicos com seus instrumentos: a viola, o violão, a marcação, os pandeiros, as congas, as tabuinhas...  Hoje, pode haver variação de grupo para grupo. Os filhos de Oyó incluem o cavaquinho. Há outros que incluem atabaque, maraca e rebolo.

Mestre Plínio diz: “o violão faz bordão para a viola, se o samba for de viola; ou para o cavaco se o samba for de cavaco”.

O mestre grita a chula. Logo após a declamação os instrumentos entram dando vida ao samba. A chula sempre tem alguém que faz a segunda voz para o mestre e outra dupla que responde ao canto.

Ao finalizar a cantoria uma mulher, somente uma de cada vez, entra na roda para sambar e reverenciam os tocadores. Nesse momento não há presença do canto, somente se ouve a melodia dos instrumentos que ditam o ritmo dos passos das sambadeiras.

Após a parte litúrgica, as mulheres são o centro das atenções, mas elas seguem o comando do Mestre, o puxador da chula.  Ao sair, ela da uma umbigada na outra que espera uma nova chula ser cantada. Ao terminar ela entra para sambar sozinha ao som dos instrumentos e assim sucessivamente até chegar o samba corrido, onde todos podem entrar na roda e dançar juntos.

Na Bahia as dançarinas de samba são chamadas de “sambadeiras” e os homens “sambadores”, diferente de outros estados brasileiros.

Um mestre respeitado por todos

João do Boi é o Mestre, Roberto Mendes é a tradução, Recôncavo Experimental a inovação e Samba Chula Filhos de Oyó a continuidade. Todos trazem uma mesma história em comum: a reverência ao Mestre João do Boi.

João do Boi é detentor da sabedoria do samba chula. Aprendeu com os mais velhos e com a sua mãe. Na casa dele a chula tem lugar sagrado. “É melhor do que tudo na vida”, diz João, que canta incansavelmente a pedido de quem chega.


O mestre João do Boi - Foto: Kithi

Morador de São Braz, distrito de Santo Amaro, João tem o hábito de acordar cedo para tirar o leite que muda a cor do café e fortalece o corpo. A lida com o gado está sempre presente.

Ele conta que canta chula desde os 12 anos. Aprendeu com os mais velhos e com a sua mãe que cantava ao lavar roupa e arrumar a casa. Conta que a maioria dos cantadores de chula, os seus mestres, já morreram e diz: “mas eu ainda estou aqui”.

No livro Chula: comportamento traduzido em canção, escrito junto com o jornalista Waldomiro Júnior, Roberto Mendes conta a história desse gênero e diz: “imagina o negro escravo sem conhecimento clássico da música cantada em 6º grau. Isso não existe. Precisa de um conhecimento de música. Sexto grau é grau de Chopin. E de repente nós encontramos esse cantar em algumas chulas tocadas em dois acordes. A chula é uma música erudita com versos perfeitos”.

Roberto Mendes, o tradutor da tradição

Orgulhoso do saber ancestral presente no dia-a-dia da população da sua sua terra natal, Santo Amaro, Roberto Mendes é músico, compositor, pesquisador e agradecido de ser santamarense, lugar onde vive até hoje. 

Defensor ardoroso da cultura do Recôncavo, Roberto Mendes vibra quando outras pessoas conseguem entender a importância de sua cidade para a construção da identidade da cultura brasileira. Para ele é certo que o samba nasceu na Bahia.


O compositor Roberto Mendes - Foto: Edvaldo Passos

Do encontro com Nelson Sargento, presidente de honra da Mangueira e autor de mais de 400 sambas, Roberto vibra feliz com a fala do compositor que participou do evento Chulas na Feira em Santo Amaro.

Roberto, quando mais jovem, deixou Santo Amaro para correr mundo. Foi depois do encontro com o professor, compositor e maestro Lindemberg Cardoso que ele passou a ver e ouvir as tradições do seu lugar de outra maneira, de forma mais atenta do que de costume, descobrido a preciosidade dos ritmos e cantos que embalaram seus sonhos de criança e adolescente.

A música da sua cidade tomou posse do seu querer artístico e Roberto se banhou com a água da fonte cristalina para encontrar o seu toque, o seu jeito, o seu molejo de re-criar a criação.

Junto com Jorge Portugal, poeta e letrista santamarense que traz a sonoridade perfeita dos versos e as variantes da chula, a tradução da tradição aconteceu. 

De forma própria e única, o samba chula do Recôncavo da Bahia é representado e divulgado mundo afora pelo cantor que afirma: "eu toco de um jeito único. Mas seria absurdo dizer que eu criei uma forma de tocar. É cópia. Eu copiei todas essas pessoas", se referindo aos mestres de samba chula do Recôncavo: João do Boi, Clarindo, Zé de Lelinha, Zezinho de Campinas, Alumínio, Tuni, Tavinho de Itapema e muitos outros.

O tambor de corda da Recôncavo Experimental

O som da banda Recôncavo Experimental tem um sotaque composto por novas texturas e distorções sem perder o referencial principal: o samba chula do Recôncavo.

No vídeo
Recôncavo Experimental

Com composições construídas a partir do estudo das técnicas desenvolvidas por Gustavo Caribé ao tocar o samba chula no contrabaixo, eles denominam o estilo como "tambor de corda".

Inspirados nos grandes mestres como Roberto Mendes, João do Boi, Alumínio,  Bob Marley, Gilberto Gil,  Riachão, Raimundo Sodré... a Recôncavo Experimental criou uma mistura de ritmos com diálogos musicais diferenciados e conectados com a essência ancestral, que também se valeu da mescla de cadências e instrumentos variados para criar o samba chula. 

Músicos tocando violão
João do Boi, Plínio e Plínio Filho - Foto: Kithi

Idealizada pelo baixista Gustavo Caribé, somada a experiência de João Mendes, a banda está inserida no novo contexto da música popular brasileira, construída a partir da pesquisa e influencias de vários estilos musicais, experimentando as variantes sonoras sem perder as referências dos estilos que fazem parte da vivência dos seus integrantes.

Samba Chula Filhos de Oyó

Tradicionalmente o samba chula é um movimento que nasce no grupo familiar e se estende entre a vizinhança. Geralmente todos da família participam da tradição, cada um ocupando um lugar no samba, seja o de mestre, o de tocador, o de segunda voz, o de sambador, o de sambadeira... 

No vídeo
Sambadeira com o Samba Chula Filhos de Oyó

Assim, desta mesma forma tradicional nasce o Samba Chula Filhos de Oyó. Plínio, Mestre violeiro, em 2013, funda o grupo junto com a sua família e começa a trabalhar com a intenção de manter viva a tradição. A casa deles era o lugar onde tudo acontecia. 

Aos poucos e com fé em Oyá foram construindo as oficinas de samba de roda, de canto, de pandeiro, de dança... fazendo shows e realizando projetos, dentre eles o "Samba Tabuleiro", já na quarta edição; "Samba na Praça Maria Eulina", que acontece desde abril de 2018 e o projeto "Samba Chula nas Praças" que roda as praças de Camaçari. 

A família divide o samba com outros afazeres que geram renda para o sustento diário como a venda do acarajé e a produção de pandeiros.


Pandeiros do Recôncavo - Foto: Kithi

O Projeto Samba Chula nas Praças acontece todo segundo domingo do mês das 13 às 17h. Cada mês em uma praça. Agosto na Praça dos 46, setembro na Praça Abrantes, outubro na Praça Limoeiro, novembro na Praça Ficam, dezembro na Praça do Phoc e em janeiro de 2020 na Praça de Parafuso.