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Embarque Imediato coloca em cena pai e filho, Antonio e Rocco Pitanga

A montagem teatral celebra 80 anos de vida de Pitanga e promove debate sobre identidade e diáspora africana

Foto: Divulgação

Um encontro entre um homem mais velho africano e um jovem pesquisador brasileiro ou entre a África e a diáspora.

Ou entre pai e filho em cena.

É disso tudo e um pouco mais que trata o espetáculo Embarque Imediato, texto inédito do dramaturgo Aldri Anunciação, com encenação de Márcio Meirelles.

A montagem coloca pela primeira vez em cena Antônio Pitanga e seu filho, o ator Rocco Pitanga, vivendo estes dois personagens que se encontram num aeroporto internacional e estabelecem um diálogo sobre a História.

A estreia para o grande público será no dia 30 de maio, às 20h, na Sala do Coro do Teatro Castro Alves e a montagem segue em cartaz até o dia 16 de junho, de quinta a domingo.

O espetáculo tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda, Centro de Culturas Populares e Identitárias e Secretaria de Cultura da Bahia, conta com patrocínio da Bahiagás e produção da Maré Produções Culturais.

Embarque Imediato é também a celebração dos 80 anos de Antônio Pitanga, um artista fundamental do cinema, teatro e TV brasileira, além de uma importante voz na defesa dos direitos de negros e negras no país.

E esta comemoração se estendeu ao encontro artístico com o filho, Rocco Pitanga e a presença virtual de Camila Pitanga, que dá voz aos textos em off da montagem e aparições em vídeo.

A atriz autorizou a exibição do documentário Pitanga, ao qual assinou a direção e que terá exibições no foyer da Sala do Coro, antes das apresentações da peça, permitindo que o público possa ver trechos do filme e conhecer melhor a trajetória do artista.  

“É motivador trabalhar com uma pessoa pela qual eu tenho admiração. E que essa pessoa pela qual eu admiro o talento e o caminho de vida é meu pai.

Meu pai e eu moramos em extremos opostos, estávamos morando distantes e esse ano estou indo morar com ele, estamos trabalhando juntos.

Passamos texto em casa, mesmo com as agendas corridas e isso está sendo muito bom” revela Rocco, que acredita que o teatro é um espaço de generosidade e criação coletiva, colaborativa.

Embarque Imediato é uma obra que promove um debate, seguindo uma poética presente na escrita de Aldri Anunciaçao em que a cena é configurada de modo a apresentar diferentes pontos de vista e permitir que o espectador chegue às suas conclusões, a partir das reflexões e argumentações tecidas ao longo da cena.

Marcio Meirelles se encantou pela dramaturgia desde 2016, quando dirigiu uma leitura dramática dentro do Festival Nova Dramaturgia da Melanina Acentuada, já com Pitanga.

O diretor incentivou o dramaturgo a finalizar a obra para montar um espetáculo, trazendo para o palco as provocações sobre identidade, política, história e o tempo.

“Para mim enquanto diretor, é uma emoção muito grande fazer parte desse projeto tão afetuoso e cercado de emoção. É um encontro de família, onde cada ensaio é regado a muitas conversas e aprendizados.

Ver Pitanga em cena é um prazer e um privilégio. Ele traz muito conhecimento para cena, muita energia ativa, força, memória presente. E vê-lo diante de Rocco, seu filho, um excelente ator, me dá muito orgulho” compartilha Meirelles.

“A peça debate muitos assuntos que estão na ordem do dia, como origem, diáspora, consequências da história. É um texto maduro e toda encenação é pensada para tornar mais evidente essa relação entre os dois personagens e como a política afeta suas experiências, suas histórias e identidades” pontua o diretor.

“Sempre tive um carinho muito grande pela família Pitanga. Por anos fui colega na graduação de Camila, estive em inúmeros testes com Rocco e sempre que pude, convidei Pitanga para ler meus textos.

Embarque Imediato é a realização de uma vontade antiga de ter Antônio em cena numa obra minha” explica Aldri, que também contará com a presença virtual do diretor Aderbal Freire Filho num dos textos em off, reproduzidos dentro do espetáculo.

Embarque Imediato conta ainda com a direção musical de Jarbas Bittencourt. Cenografia assinada por Erick Saboya e iluminação de Irma Vidal.

A concepção dos figurinos é de Chico Perez, com uma das peças da estilista Goya Lopes. Todo esse conjunto de criadores se alia para colaborar numa obra que se propõe a ser arena de debate.

“O teatro retoma seu lugar de importância nesse momento do país. Noto que as pessoas estão marcando sua presença nos teatros, assistindo as obras, frequentando esse espaço. Pela importância do encontro e urgência em compartilha vivencias de modo presencial. Noto que há um desejo de preservar o teatro e reconhecer a sua necessidade” afirma Meirelles.

Texto – Embarque Imediato faz parte da trilogia teatral iniciada pelo espetáculo NAMÍBIA, NÃO! (direção de Lázaro Ramos) e seguido pelo espetáculo O CAMPO DE BATALHA (direção de Márcio Meirelles e Fernando Philbert).

Os espetáculos da trilogia não compõem uma mesma narrativa temática, mas têm em comum a linguagem articulada na "dramaturgia do debate do sujeito múltiplo" (pesquisa poética de autoria do autor no curso de Doutoramento em Dramaturgia no PPGAC-UFBA). Nestas obras o tema da condição dos descendentes da diáspora africana é abordado.

Dessa vez, a situação dramática é o encontro em um aeroporto internacional, entre um jovem doutorando negro brasileiro e um senhor africano, descendente dos Agudás (africanos escravizados no Brasil que retornaram ao país de origem após alforria quase sempre comprada).

No personagem do jovem afro-americano, a perspectiva ocidentalizada e a defesa de que houve aspectos positivos na diáspora forçada dos africanos, que aqui na América foram escravizados em diálogo com o velho senhor descendente de agudás questiona essas supostas vantagens.

Ambos personagens estão confinados numa sala, por terem perdido seus passaportes durante uma conexão de voo.

Em cena, o debate sobre história, identidade e cultura. De acordo com o dramaturgo, “o encontro entre o personagem jovem e o personagem velho desenha-se de modo a extrapolar a ideia de conflito entre duas subjetividades. Propõe-se nesta situação dramática, mais um embate de forças.

A personagem, ainda que identificada na unicidade da forma do sujeito, condensa em si diversos matizes como que um grande mosaico representativo de vozes múltiplas e de uma memória coletiva. Trabalha-se nessa peça a hipótese de que o sujeito diaspórico condensa na sua subjetividade uma multiplicidade de vozes oriundas da encruzilhada a qual ele foi inserido na história”.

Ambos personagens têm as idades dos atores, apontando também as diferenças geracionais na discussão sobre identidade que a peça apresenta. “É uma discussão extremamente real, tanto pela separação de idade, entre mais jovens e mais velhos. O desencontro entre a juventude e a maturidade.

O meu personagem, assim como eu, tem uma ansiedade do presente, do agora. O personagem dele que é mais velho tem um entendimento do tempo e da subjetividade” acrescenta Rocco.

Para Aldri, em Embarque Imediato o desejo é “ofertar ao público uma dramaturgia que traz para o centro da cena, o conflito identitário do sujeito múltiplo e as consequências (positivas e negativas) dos trânsitos diaspóricos de séculos passados, assim como os deslocamentos estáticos em tempos de conectividade de redes virtuais, se mostra oportuna se considerarmos a malha cultural ao qual os povos de diversos blocos continentais têm se articulado” conclui o autor.