Cidade / Música

Músicas para ouvir enquanto estiver lendo sobre Santa Bárbara

E outras coisas que você não encontra na internet

Foto: Romildo de Jesus
Dia 4 de dezembro; a Bahia se veste de vermelho em homenagem a Santa Bárbara
Dia 4 de dezembro; a Bahia se veste de vermelho em homenagem a Santa Bárbara

Eu gostaria de pedir a você que começasse a ler esta postagem clicando logo aí abaixo,  no vídeo com a canção “As Ayabás”, e deixasse a música tocar, usando-a como trilha sonora.

A música é de Gilberto Gil e Caetano Veloso e foi gravada por Maria Bethânia num dos melhores discos da sua brilhante carreira, “Pássaro Proibido”, de 1976,  que deu a ela o primeiro disco de ouro.

Começo este texto com “As Ayabás” (Iabá, Yabá ou Iyabá, significa Mãe Rainha. Termo dado aos orixás femininos Yemanjá e Oxum, mas que no Brasil é utilizado para definir todos os orixás femininos), porque quero voltar ao momento em que, aos meus 14 anos, fui impactada pela interpretação de Bethânia, tomei contato através da música com a força das divindades femininas do candomblé e ouvi conscientemente , pela primeira vez, o sofisticado batuque que chegou à nossa terra pelas mãos dos africanos, misturado ao som de violinos e outros instrumentos musicais que chegaram ao Brasil pelas mãos dos europeus.

Na época eu fiquei impressionada. Até hoje fico e me arrepio. Por isso acabo de colocar de novo a música, para continuar a escrever.

Em honra de todas as ayabás. E danço com elas...

Mas a ideia hoje aqui é falar um pouco, porque há muito o que falar, da presença da Bahia mística na Música Popular Brasileira, primeira das publicações da série de reportagens do leiamais.ba que celebram nossas festas populares. E as donas da festa hoje são Santa Bárbara e Iansã.

Na internet googlei e numa pesquisa simples descobri 189 vídeos com músicas em louvor a Iansã e/ou Santa Bárbara. Gravações relacionadas à Igreja Católica, ao Candomblé e à Umbanda. Ou simplesmente MPB.

A Fundação Gregório de Mattos, aqui de Salvador, editou uma série de CDs onde gravou a Novena de Santa Bárbara e pontos para Iansã, estes de quatro nações diferentes. A coletânea é formada por 12 volumes que retratam a cultura baiana, através das músicas de santo, pop e erudita de Salvador. Mas hoje a festa é de Santa Bárbara e de Iansã. Então...

Download da Coletânea de Cds Trilhas Urbanas

Volume 4 – Cantigas de Iansã

Volume 5 – Louvando Santa Bárbara no Rosário dos Pretos

Descobri o trabalho consistente de Reginaldo Prandi, pesquisador pela USP e pelo CNPq, que indica 761 letras com referências a Orixás e outros elementos das religiões afro-brasileiras, no período de 1902 a 2000. Tenha acesso a quase 500 páginas com letras de músicas brasileiras.

Mas o que eu queria saber não se encontra na internet. Então fui buscar a informação com o etnomusicólogo Perfilino Neto, que tem 400 livros sobre música brasileira e milhares de discos e uma memória fabulosa. Ele sabe tudo...

(Perfilino Neto está com uma rádio web - www.eradoradio.com - que em cinco meses já conquistou 30.590 visitantes, de várias partes do mundo).

E ele me contou, entusiasmado como sempre, que a presença da Bahia,  e na grannnde maioria das vezes desta Bahia mística, na música brasileira, começa nos anos 20 do século 20 com Antônio Lopes, o “Duque”, autor do samba-maxixe “Cristo Nasceu na Bahia”

Ouça o samba-maxixe

Tenho dito! Cristo nasceu na Bahia. E isso é decretado num samba maxixe! Só aqui mesmo...

Mas os encantos da nossa terra, continua a dizer Pefilino, enfeitiçaram muitos outros compositores brasileiros : Almirante, Senhor, Donga, Ataúlfo Alves, Ary Barroso. Ouça “Faixa de Cetim”, de Ary Barroso, na voz de Caetano Veloso.

E até Luiz Gonzaga e Noel Rosa, que nem eram chegados neste tipo de música, cantaram nossa terra....

Ouça só a música de Noel Rosa – se chama “Na Bahia”

Claro que a gente pensa logo em Assis Valente e Dorival Caymmi, mas mesmo antes dos nossos mestres a Bahia já estava lá. Bastou inaugurarem o processo de gravação mecânica dos discos e o gramofone passar a tocar nas casas que a Bahia estava lá, cantada em verso e prosa, conta Perfilino.

E a Bahia se manteve por mais de 50 anos como fonte de inspiração musical de muitos dos grandes nomes da nossa música. E vira e mexe...

Isso aconteceu lá atrás também porque Tia Ciata, e todas as baianas importantíssimas que se mudaram para o Rio de Janeiro no final do século 19, fundaram na capital carioca seus terreiros e ela, que era filha de João Alabá, pai de santo da Barroquinha, recebia em casa alguns dos mais geniais músicos da época, como João da Baiana, Donga e Pixinguinha. Eles tocavam chorinho numa sala da casa dela, em outra faziam samba e na terceira participavam do candomblé com seus batuques.

Aí depois disso veio muita gente boa e eu convoco agora para o papo Carlos Barros, que é intérprete , cantor, professor, historiador, iniciado no candomblé e pesquisador das relações entre música popular, história e sociedade baiana/ brasileira . Confira !

Como os batuques dos terreiros foram parar na música popular brasileira? Quem contribuiu para isso de forma importante ? 

Ah! Os batuques são parte da música brasileira desde os maxixes lá no início do século XX... Juliana Ribeiro estuda isso muito bem, viu? A sonoridade dos terreiros fascina os músicos (muitos também integrantes de Casas de Axé), há bastante tempo. As divisões, os fraseados do samba, do samba-reggae, dos sambas do Ilê são todos muito tributários das sonoridades das religiões afro-brasileiras.

O seis por oito, por exemplo é uma célula rítmica que tem presença marcante em muitos arranjos na música brasileira como um todo e quando ocorre, parece querer apontar uma pertença africana ou africanizada da peça onde está presente. Os ijexás são quase uma marca da musicalidade baiana desde a década de oitenta, quando a Axé Music começou a se industrializar. Essa pergunta daria uma tese! rsrs 

De que maneira nossa música reverencia Santa Bárbara e Iansã? 

Muitas! Os Tincoãs, Maria Bethânia, Roque Ferreira, Cara Nunes são artistas com canções que tratam do universo do sagrado com muita nobreza! Hoje, na cena de Salvador, alguns artistas trazem isso para seu trabalho de forma natural. Eu, mesmo, compus e gravei algumas canções que tratam desse tema religioso mais amplamente e “Minha Mulher” (composição minha) é uma homenagem a Iansã.

Vejo a música brasileira como uma tela importante para o tratamento de nossas maneiras de ser. A fé, uma delas. Roque Ferreira teve uma canção – “Santa Bárbara” - gravada dez anos atrás por Bethânia, que é uma definição do que é a devoção à Bárbara /Oyá na Bahia.

Em tempos de mulheres lutando bravamente por liberdade e poder, o que Santa Bárbara e Iansã significam ?

Elas são o próprio empoderamento feminino em si mesmas. Bárbara morre pela fé e o céu corta de raios contra a injustiça. Oyá luta bravamente como uma Senhora dos Mercados e da atividade feminina para seu auto sustento.

As quituteiras lá pelo século XIX já prenunciavam as baianas de acarajé que se mantém como gestoras de suas vidas pela venda da comida sagrada de Oyá. E digo mais, Iansã é - também - a protetora das mulheres trans e dos gays, sobretudo os mais afeminados, aqueles apontados por quem não tem vergonha de ser homofóbicos. Oyá e Bárbara são as representantes de uma mulher dona de si no mundo!

Só me resta agora chamar você para a festa ! Aperte o play novamente pois agora nós vamos de “4 de Dezembro”, de Tião Motorista, na voz, mais uma vez, de Maria Bethânia.