Alex Ferraz

Sobre pontes, viadutos e negligência pública


Foto: Pixabay/Creative Commons

Já disse aqui e repito: no Brasil, as obras públicas, que nada mais são do que uma obrigação de governantes pagos - e muitíssimo bem pagos, aliás- pela sociedade, são entregues com muito alarde, e discursos que querem nos fazer crer que aquele equipamento é uma benesse, uma dádiva dos "deuses" que nos governam.

Pois é.  O teatro é tanto que, acabada a peça e cerradas as cortinas, tais obras são esquecidas.

Um exemplo atual é o caso do viaduto da Marginal Pinheiros, em São Paulo.

Simplesmente caiu. Não desabou totalmente, mas caiu. Cedeu dois metros. Muita coisa!

A partir daí, como costuma acontecer, a mídia voltou olhos e ouvidos para o tema e levantou dezenas de viadutos em situação de alto risco na capital paulista, e, por efeito dominó, em várias outras partes do país. Porém, assim que passa a comoção inicial, as pautas são engavetadas.

A realidade cruel é que a incompetência do poder público em nosso país não respeita sequer os que vivem e circulam na maior e mais rica cidade, aquela que "não pode parar".

A coisa é de tal maneira grave que, ainda no caso do viaduto paulistano, construído na década de 1970, não conseguiram sequer achar o projeto original!

Outro aspecto é a inexplicável falta de questionamento objetivo da mídia sobre a causa do desabamento. Ora, num país sem terremotos, o que pode explicar a falência de uma estrutura de concreto senão falha na construção e/ou total ausência de manutenção? Mas  o jornalismo viciado em "fontes oficiais" salta do fato em si, a queda do viaduto, diretamente para sucessivas e cansativas falas oficiais de prefeito, secretários etc., todos ocupando cargos por interesses políticos e que, portanto, quase nunca entendem patavina da situação técnica.

Bem, essa apatia midiática, a falta de abordagem profunda e definitiva dos temas (como, aliás, ocorreu em toda a campanha eleitoral e segue agora na composição do futuro governo nacional), acaba por tornar uma "banalidade" inexorável as conseqüências da irresponsabilidade e incompetência do poder público.

É, por exemplo, o que ocorre com a violência. Mais de 50 mil mortes por ano transformam -se em meros números de ibope a serem disputados por quem mostrar mais sangue, mais tragédias familiares. Discutir a questão com a profundidade necessária? Jamais.

E vamos seguindo de mal a pior.