Alex Ferraz

Só para lembrar que o rock sempre criticou políticos no mundo inteiro

Ao longo de toda a história do rock, bandas e artistas individuais sempre se pautaram pelo protesto político


Roger Waters - oto: Adam Jones/Flickr/Creative Commons

Ouço Pink Floyd desde os 14 anos de idade. Naquele tempo, os discos da magnífica banda estavam lado a lado em minha estante com Bob Dylan, Rolling Stones, Beatles, Raul Seixas, Mutantes, Chico Buarque, Caetano Veloso e tantos outros que compuseram e compõem notáveis músicas de protesto mundo afora.

Também não faltava Luiz Gonzaga: 

"Seu doutô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão."

Mas voltemos ao rock. Aliás, antes, devo lembrar aqui a patética e reles observação do ministro da "Cultura", Sérgio Sá Leitão, que disse, em primoroso linguajar, estar de "saco cheio" dos protestos de Roger Waters nos shows no  Brasil, ignorando que o protesto contra o autoritarismo sempre foi marca registrada do magistral roqueiro, em TODO o mundo.

Houve ainda uma meia dúzia de oligofrênicos que sequer sabem porque são fãs (sic) das músicas do Pink Floyd aconselhando (?) Waters a "esquecer" a política e tocar.

Vamos aos fatos. Ao longo de toda a história do rock, bandas e artistas individuais sempre se pautaram pelo protesto político, entremeando temas existenciais e românticos.

Não poderia deixar de começar por um mestre,  Bob Dylan, com a canção "The Times They Are A-Changin" (Os Tempos estão mudando"):

"Venham senadores, deputados, por favor escutem o chamado
Não fiquem parados no vão da porta, não congestionem o corredor
Pois aquele que se machuca será aquele que nos impediu
Há uma batalha lá fora, e ela não vai parar

E logo ela irá balançar suas janelas e fazer ruir suas paredes
Pois os tempos estão mudando

Venham mães e pais de todos os lugares
E não critiquem o que vocês não conseguem entender
Seus filhos e filhas estão além de seu comando
Seu velho caminho está rapidamente envelhecendo."

Veja Bob Dylan cantando "The Times They Are A-Changin"

E para aqueles que só enxergam os Beatles como uma banda "romântica", vejamos alguns exemplos, inclusive com músicas da fase "inocente" dos fantásticos garotos de Liverpool:

Being for the Benefit of Mr. Kite! - Analisa a crítica realmente pensante: "De início, você pode pensar que a canção de Lennon/McCartney fala, simplesmente, sobre um espetáculo circense. Mas essa alegoria, na realidade, é uma crítica às festas da elite burguesa, que mais parecem apresentações de circo, com direito a shows de acrobacias e 'cavalos' a dançar valsas. 'Está garantido um ótimo espetáculo para todos e, esta noite, o Sr. Kite será o astro principal'. Pegou o trocadilho?"

Piggies - “Em sua pocilga com todos os seus fundos, eles não se importam com o que está rolando(…) Em todo lugar há muitos porquinhos vivendo a vida porca. Você pode vê-los jantando fora de casa, com suas esposas porquinhas, agarrando garfos e facas para comerem seus bacons”, diz letra da música também escrita por George Harrison que, depois de John Lennon, foi o beatle que mais produziu canções de protesto.

Blackbird - Análise de um critico: "O sucesso escrito por Paul McCartney, creditado à dupla Lennon/McCartney, é uma das canções mais famosas do Quarteto de Liverpool. Todo mundo sabe cantá-la! Há quem a cante, contudo, pensando que ela é apenas uma canção romântica, sobre um pássaro da espécie Melro. Salvo engano. O Melro da letra, na verdade, é uma metáfora. Blackbird protesta contra os conflitos raciais na América, principalmente os que aconteceram entre os anos 60 e 70. Nessa época, a segregação aos negros era algo (ainda mais) revoltante. As mulheres negras, por serem a minoria da minoria, sofriam ainda mais! “Pássaro preto, pegue essas asas quebradas e comece a voar". 

Aliás, aqui faço um adendo: na sua primeira apresentação, em turnê, nos Estados Unidos, em meados dos anos 1960, os Beatles, na última hora, disseram que só iriam ao palco se fossem eliminadas as restrições aos negros nos locais dos shows. O pavoroso racismo norte-americano de então teve que ceder. Aqui no Brasil, ministros da "Cultura" ficariam e saco cheio com essa "política".


Os Beatles em sua turnê nos Estados Unidos

Baby You’re a Rich Man“Você guarda todo o seu dinheiro em uma mala marrom, dentro de um zoológico. Que coisa estranha a se fazer!”. Dinheiro na mala… Hmmm… Essa história não soa familiar?

Taxman “Se você dirigir um carro, vou tributar a rua(…) Se você sentir muito frio, vou tributar o calor. Se você for dar uma caminhada, vou tributar os seus passos”, diz parte do refrão da música escrita por George Harrison, que faz parte do álbum Revolver, de 1966. Na letra, o músico, sempre muito irônico, tira uma onda com a cara do “homem dos impostos” (em inglês, “taxman”). Na época, o Reino Unido sofria com as altíssimas tributações estipuladas pelo governo trabalhista de Harold Wilson. Uma letra dos anos 60, mas que traduz exatamente a realidade.

Corta agora para os Rolling Stones. Vejamos este trecho de Street Fighting Man (Lutador de Rua):

"Disseram que o meu nome é Distúrbio
Eu gritarei e me esgoelarei
Matarei o rei
E incomodarei todos os seus servos." 

Veja os Rolling Stones cantando Street Fighting Man em uma apresentação de 1969

Raul Seixas

Krig-ha, bandolo! (1973) foi o primeiro LP solo de Raul (lembro-me de ter economizado dinheiro da merenda, quando estudava no Ginásio de São Bento, para comprar o disco na Tok, no edificio Fundação Politécnica). Na faixa de abertura, "Mosca na Sopa", Raul inventou um inseto-terrorista disposto a se tornar, como o próprio compositor, uma encrenca para os generais. “E não adianta vir me dedetizar/ pois nem o DDT pode assim me exterminar / porque cê mata uma e vem outra em meu lugar."

Raul e seu parceiro, Paulo Coelho, foram chamados ao DOI-CODI, onde um policial lhe perguntou o que significava "Krig-ha, bandolo". E Coelho respondeu, de pronto: "Cuidado com o inimigo!"

Mais recentemente, o Legião Urbana cantou:  "Nas favelas, no Senado/Sujeira pra todo lado/Ninguém respeita a Constituição/Mas todos acreditam no futuro da nação". E pergunta que país é esse...

Corta para a época do mensalão, em 2005, quando o Titãs apresentou esta faixa inédita escrita por Paulo Miklos, Tony Bellotto e Charles Gavin: "Estão nas mangas dos senhores ministros / Nas capas dos senhores magistrados / Nas golas dos senhores deputados / Nos fundilhos dos senhores vereadores", vociferava Miklos antes de chegar para o refrão, em que chama de "ladrão" e "filho da p***" figuras importantes envolvidas em escândalos.

Em 2012, o Capital lançava "Saquear Brasília", um tema anárquico em que Dinho conclama para reunir todas as pessoas -- "amigos", "pais, "filhos" e "filhas"-- e "tomar o que é nosso" em Brasília. 

Como se vê, senhor ministro Sérgio Leitão, nem só Roger Waters, nem só agora, pois.