Alex Ferraz

Língua Solta
Saiba quanto você está pagando para sustentar um político no País

E veja a comparação com o que acontece na Suécia


Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

Cerca de cinco anos atrás fui encarregado de fazer uma reportagem sobre os salários e mordomias dos políticos brasileiros.

Garimpando dados, fui tomado por aquela sensação de espanto que assola a todos nós quando conhecemos os números bilionários envolvendo gastos do Estado nacional para manter a classe política, principalmente se cotejados com a média nacional dos salários do trabalhador, e, claro, com o raquitismo crônico do salário mínimo.

Neste momento de euforia e mesmo radicalismos perigosos, véspera de mais uma eleição, que inclui deputado federal, resolvi, à guisa de exemplo, atualizar alguns dados em relação àqueles por mim coletados à época da referida reportagem.

Dados referentes a 2017 dão conta de que, "consideradas as principais verbas a que têm direito, cada parlamentar pode receber sozinho até R$ 83.628,53 por mês. Somado à verba para custear os funcionários de seu gabinete, o político pode custar mensalmente até R$ 180.744,66 aos cofres públicos brasileiros, valor que no ano chega a R$ 2.168.935,92 por cadeira."

Ou seja, em termos de Congresso, temos aí quase 2,2 milhões  de reais por ano para CADA parlamentar.

Bem, isto posto não resisto em mostrar o contraste e lembro Claudia Wallin, jornalista brasileira radicada na Suécia, autora de um livro sobre os políticos suecos,  “Um País Sem Excelências e Mordomias” (Geração Editorial).

Abaixo, um trecho que retrata, em detalhes, a cultura escandinava, conforme reproduzido no blog Diário do Centro do Mundo e utilizado por mim na referida matéria:

"A Suécia não oferece luxo aos seus políticos: nesta sociedade essencialmente igualitária, a classe política não tem o status de uma elite bajulada e nem os privilégios de uma nobreza encastelada no poder. Sem direito a imunidade, políticos suecos podem ser processados e condenados como qualquer cidadão. Sem carros oficiais e motoristas particulares, deputados se acotovelam em ônibus e trens, como a maioria dos cidadãos que representam.

Sem salários vitalícios, não ganham aposentadoria após alguns poucos anos de trabalho pelo bem do povo. Sem secretária particular na porta, banheiro privativo ou copa com cafezinho, os gabinetes parlamentares são espartanos e diminutos como a sala de um funcionário de repartição pública. Sem verbas indenizatórias para alugar escritório nas bases eleitorais, deputados suecos usam a própria casa, a sede local do partido ou a biblioteca pública para trabalhar quando estão em suas regiões."

Notar que estamos falando de um dos mais desenvolvidos países do mundo, berço, por exemplo, da Volvo, fábrica de automóveis, caminhões e aviões, além de ter um dos mais justos salários do mundo, para não falar do nível altamente satisfatório de vida, com resposta imediata e primorosa nos serviços públicos.

Voltemos a Claudia Wallin: "Ainda lembro da estranha sensação de estar presenciando um fenônemo extraterreno quando encontrei, pela primeira vez, o ex-primeiro-ministro Carl Bildt empurrando seu carrinho de compras no supermercado que frequento em Estocolmo. E o prefeito de Estocolmo, Sten Nordin, na fila do ônibus. E o presidente do Parlamento, Per Westerberg, em um vagão do metrô."

A jornalista prossegue narrando a invejável situação sueca: "Sem desesquilíbrios sociais monstruosos, este é sem dúvida um país mais seguro e menos violento, onde provavelmente os únicos carros blindados que circulam pelas ruas são guiados pelas forças de segurança. Mas mais que isso, esta é uma sociedade que elege políticos mais próximos da realidade e das dores do cidadão comum. Políticos que em geral não colocam a vaidade ou os interesses próprios na frente dos bois, em uma sociedade que mostra que o exercício da função política pode ser digno.

Vereadores suecos não ganham sequer salários, e também não têm direito a gabinete – trabalham de casa."

E como é praxe no bom jornalismo, Wallin recorre ao testemunho do povo: "Sou eu que pago os políticos', resumiu o cidadão sueco Joakim Holm, durante entrevista gravada em uma rua de Estocolmo para reportagem do Jornal da Band. 'Não vejo razão alguma para dar a eles uma vida de luxo'.

'Os políticos são eleitos para trabalhar para mim e para todos os outros cidadãos que pagam impostos. Aqui ninguém acha que os políticos são uma classe superior com direito a privilégios', disse outro entrevistado, Mikael Forslund."

Pois bem. Publicada a reportagem, que teve grande repercussão, não tardou uma reação de diversos políticos, que, em uníssono, afirmavam que eu "não poderia" comparar realidades tão díspares como Suécia e Brasil.

Têm razão. O abismo social que divide a imensidão da pobreza da casta dos privilegiados no Brasil é impensável na Suécia. É não só lá, como também em boa parte parte dos países onde o ser humano é respeitado.

E a reação dos parlamentares à reportagem nada mais fez do que reforçar o que a matéria questionou, ou seja, como é possível que numa realidade social como a nossa possam haver absurdos privilégios para aqueles que são eleitos teoricamente para defender os interesses da população?

Ou será que nossa situação social é exatamente o  reflexo de tais privilégios?