Alex Ferraz

Língua Solta
Fake news são um retrato do caráter nacional

A questão central é o célebre "gosto de levar vantagem em tudo"


Foto:pxhere/Creative Commons

Talvez já tenha acontecido com alguns de  vocês (comigo, já): num dia normal, ao entrar numa agência bancária e deparar-se com uma fila, perceber que o cliente que vem logo atrás de você apressa o passo e chega na sua frente, embora pela ordem normal e civilidade o lugar fosse seu.

Isso me incomoda. Não necessariamente pelo fato de ter mais um à minha frente, e sim porque a atitude do "espertinho" revela o desprezo pela educação e, por que não dizer, uma porção de mau caráter.

Há exemplos tenebrosos. Por exemplo, um fato ocorrido há alguns anos, não sei precisar, mas do qual fui testemunha indireta, por asim dizer, já que fui o responsável por editar a matéria na redação.

Um cidadão de meia idade fazia sua corrida entre o Farol e o Porto da Barra quando sofreu um infarto e caiu na calçada

Certa manhã, um cidadão de meia idade fazia sua corrida entre o Farol e o Porto da Barra quando sofreu um infarto e caiu na calçada. Antes que qualquer pessoa pudesse chegar até ele para tentar ajudá-lo, três sujeitos correram e o saquearam, levando relógio, carteira e celular. O homem morreu.

Toda essa introdução foi uma tentativa de dar uma definição do caráter nacional, da incivilidade que domina as mentes deseducadas de grande parte da população brasileira, inclusive de muitas pessoas da chamada classe A. E aí,  chego à enxurrada de fake news que entopem nossos zaps neste período de selvagem campanha política.

Comecemos por aqueles que produzem os fakes. Eles não se limitam a ações individuais de alguns pilantras, mas estendem-se a verdadeiras redes criadas pelas próprias campanhas. 

Quanto aos que recebem essas "notícias" falsas, devemos ver dois lados. O primeiro, um grupo de desinformados e subletrados que não tem capacidade de notar os erros grotescos na escrita, muito menos a absoluta falta de lógica, como, por exemplo, no caso recente da montagem das capas das três principais revistas semanais do país, mostrando relevante "denúncia" de fraude  nas urnas eletrônicas.

Não que eu duvide da possibilidade de fraude. No entanto, houvesse um mínimo de discernimento entre os que recebem e repassam cegamente mensages deste tipo, veriam logo que uma denúncia de tal porte teria explodido em toda a mídia.

O segundo, são aqueles que conscientemente repassam tais "notícias".

A questão central é o célebre "gosto de levar vantagem em tudo", que torna a maioria das pessoas alucinada na defesa dos seus interesses, suas opiniões, a ponto de atropelarem, inclusive propositadamente, a realidade.

É este o caráter Macunaíma nacional.

Por que vou ficar atrás daquele sujeito que entrou primeiro que eu no banco?

Por que vou me preocupar em divulgar falsas "notícias", se elas atacam adversários do meu candidato?

E, ainda pior, por que não criar fake news se cabos eleitorais de adversários fazem o mesmo e a ignorância de grande parte do eleitorado vai engolir a isca?

Prezados, vamos a analisar isso a partir do pensamento seguinte:

 
A maior necessidade do mundo é a de homens - homens que não se compram nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o erro pelo seu nome; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que aconteça tudo errado
-- Ellen Gould  Smith