Alex Ferraz

Língua Solta
Candidatos prometem o céu e eleitos jogam migalhas ao povo

Finda a apuração dos votos, os eleitos se despem do figurino povão


Abertas as urnas, guardam-se as máscaras - Foto: pxhere/Creative Commons

Certa vez trabalhei como redator no núcleo de marketing de campanha para importante prefeitura da Bahia.

 
Quero um plano de governo pronto em 24 horas, com fotos, croquis e gráficos

Faltando cerca de 30 dias para a eleição, o chefe do grupo entrou esbaforido na sala e sentenciou a um dos redatores: "Quero um plano de governo pronto em 24 horas, com fotos, croquis e gráficos."

Assim, enquanto o candidato afagava criancinhas pobres nas ruas, almoçava com correligionários numa churrascaria e tentava cooptar indecisos com promessas de robustos contratos de obras caso fosse eleito, um redator elaborava seu "plano de governo" numa sala, elucubrando promessas.

O candidato não venceu.

Mas eu saí dali vitorioso, posto que aprendera um pouco mais sobre o que acontece nos bastidores de uma campanha.

O candidato, salvo raríssimas exceções, é um  ator, no mais da vezes ruim, que encena textos dos chamados marqueteiros.

E a cada eleição as promessas e "metas" ficam  mais dissonantes quando cotejadas com a real situação do país.

Como para bom eleitor meia palavra basta, creio que vocês estão identificado esta situação na atual campanha. Do candidato a deputado estadual aos concorrentes à presidência, os discursos fazem parecer que, qualquer que seja o eleito, estamos à porta do Eden.

E, ao lado das promessas, os postulantes se incubem de atirar pedras nos telhados uns dos outros, esquecendo que todos são de vidro.

Assim, enquanto as promessas levam a maioria dos eleitores a acreditar que todos os candidatos são verdadeiros salvadores da pátria, as denúncias e xingamentos mútuos apontam um quadro de mar de lama, onde todos se lambuzam.

Se é verdade que a campanha pelas redes sociais derrama uma enxurrada de fake news, não é menos verdadeiro que o fake também está embutido no marketing, que constrói personagens, apenas personagens.

Finda a apuração dos votos, os eleitos se despem do figurino povão, trancam-se em seus gabinetes e passam a fazer o de sempre: governar para os poderosos e para seus próprios interesses, enquanto deixam, vez por outra, cair um migalha para o povo.

Encerro com duas frases:

 
Esta é a última seca que assola o Nordeste
-- Juscelino Kubitschek, em 1956
 
Os políticos em qualquer parte são os mesmos. Eles prometem construir pontes, mesmo quando não há rios
-- Nikita Kruschev