Alex Ferraz

Língua Solta
O Brasil é mesmo o país da impunidade geral

Mata-se por um celular, um relógio, uma briga no trânsito ou o som alto de um vizinho


Foto: pxhere/Creative Commons

Aqueles que me lêem neste momento certamente já viram em jornais impressos e na TV, ou ouviram no rádio, o clássico final de notícia sobre um crime de morte: "A polícia está investigando o homicídio."

Vocês também devem ter notado que na maioria absoluta dos casos não se tem mais qualquer notícia sobre a "apuração" desses crimes, salvo em raríssimos casos que são sorteados pela mídia para uma cobrança sistemática, seja pela "importância" social da vitima ou por alguma característica mais emocional do caso.

Porém, o assassinato de uma "pessoa qualquer" (entenda-se aí pobres, negros, morador de rua etc.) jamais tem investigação concluída, se é que houve alguma.

É mais um retrato do absurdo ranking da importância da  vida consolidado no Brasil, classificando aqueles cuja morte matada podem ter o privilégio de ter seu direito à vida considerado e cuja morte mereça ser apurada.

Mata-se por um celular, um relógio, uma briga no trânsito ou o som alto de um vizinho

A consequência disso, obviamente, é uma impunidade brutal, que faz do ato de matar uma atitude banal. Mata-se por um celular, um relógio, uma briga no trânsito ou o som alto de um vizinho. Por que não, se vai dar em nada?

Aliás, uma digressão: costumo dizer que estamos, sim, muito bem representados pela classe política, quando o assunto é impunidade. Há uma vista grossa escandalosa entre nós, cidadãos ditos comuns, em relação à apuração e punição de crimes.

A propósito, em um dos períodos em que trabalhei em rádios de Salvador, entrevistava um deputado federal no estúdio, ao vivo, e o tema era a redução da idade penal. Ele mostrou-se radicalmente contra, com argumentos capazes de emocionar uma estátua. Porém, no intervalo comercial, confidenciou: "Alex, eu tenho filho de 16 anos e jamais gostaria que ele fosse parar numa prisão brasileira..."

Mas voltemos ao tema básico inicial. Vejam este trecho de reportagem recente da Super Interessante online, sobre o percentual de crimes em geral solucionados no Brasil: 

 
Somente 6% dos homicídios dolosos (com intenção de matar) são solucionados no país
-- Revista Super Interessante

"Por incrível que pareça, não há um banco de dados centralizado que possa fornecer esse número. Além disso, ele não representaria a realidade, porque muitas vítimas não registram boletim de ocorrência. Mas, considerando apenas os assassinatos (em que os inquéritos de investigação são abertos compulsoriamente), as estatísticas são muito mais favoráveis aos bandidos do que à Justiça. Conforme dados oficiais da Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública, somente 6% dos homicídios dolosos (com intenção de matar) são solucionados no país."

Ah, sim. Vamos encerrar com um comparativo da situação brasileira e de alguns outros países em relação ao percentual de solução dos crimes de morte: Reino Unido, 90%; França, 80%, e o violento Estados Unidos, 65%.

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