Alex Ferraz

Língua Solta
Por que os brasileiros se sentem como se fossem vira-latas


Foto: Pixabay/Creative Commons

Em 1950, quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai, em pleno e superlotado Maracanã, o respeitável jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, um apaixonado pelo futebol, cunhou a expressão "complexo de vira-lata", para rotular a onda de baixa estima que tomou conta de grande parte da população, que era, então, de cerca de 53 milhões.

Todavia, Nelson expandiu o conceito de "vira-latismo", como também é conhecido, para muito além do Maracanã decepcionado. Em suas palavras: "Por 'complexo de vira-lata' entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima."

 
O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem
-- Nelson Rodrigues

Isto posto, retornemos ao Brasil do século XXI, hoje com quase 210 milhões de habitantes "servidos" por estruturas básicas que não evoluíram nem de longe na mesma proporção. 

Vejamos estas informações publicadas há poucos dias pelo portal de notícias G1:

"Em 2016, 83,3% da população era abastecida com água potável, o que quer dizer que os outros 16,7%, ou 35 milhões de brasileiros, ainda não tinham acesso ao serviço. Em 2011, o índice de atendimento era de 82,4%. A evolução foi de 0,9 ponto percentual.

Quanto à coleta de esgoto, 51,9% da população tinha acesso ao serviço em 2016. Já 48,1%, ou mais de 100 milhões de pessoas, utilizavam medidas alternativas para lidar com os dejetos – seja através de uma fossa, seja jogando o esgoto diretamente em rios. Em 2011, o percentual de atendimento era de 48,1% — um avanço de 3,8 pontos percentuais.de pessoas."

Portanto, dentro do Brasil moderno (sic) há uma população maior que a de vários outros países sem saneamento básico."

Outra notícia recente dá conta, conforme levantamento do IBGE, que há cerca de um milhão de brasileiros sem QUALQUER tipo de transporte público. Isso engloba dezenas, quiçá mais uma centena de municípios e localidades onde, para se transportar, as pessoas não contam com ônibus nem trem. Ou seja, ou têm carro próprio ou se deslocam a pé, talvez também a cavalo ou jegue. Como na sua quase totalidade são pessoas pobres, e mesmo miseráveis, óbvio  se torna que não têm veículos próprios.

Uma curiosidade: um dos Estados que registram o maior número de localidades em tais condições é o supostamente muito desenvolvido Paraná.

A propósito do interior brasileiro, há hoje, com especial ênfase na Bahia, dezenas de cidades sem agências bancárias, vez que a(s) que existia(m) foram explodidas por quadrilhas que conseguem dinamite como se compram bananas numa feira.

Mais uma notícia dos dias recentes: em meio a informações sobre pesquisas a respeito dos efeitos da dengue sobre o feto, passa quase despercebida a informação subliminar de que entre 2006 e 2012 vieram à luz no Brasil nada menos que 16 milhões de bebês!

Prezados, isso representa mais que a população de muitos países da Europa. Por exemplo Portugal (10,3 milhões), Bélgica (11,2 milhões), Holanda (17 milhões) e Dinamarca (5,6 milhões), para citar alguns.

Como é possível que um país cuja população cresce com tamanha rapidez possa oferecer vida digna aos seus cidadãos?

Ora, como é possível que um país cuja população cresce com tamanha rapidez possa oferecer vida digna aos seus cidadãos?

Pode-se argumentar que temos uma imensidão continental, e, portanto, cabe todo mundo e ainda mais. Verdade. Mas a questão não é a extensão territorial, e sim as estruturas básicas, impossíveis de progredir num país onde a maioria dos parlamentares e governantes, dos municipais aos federais, nada mais faz do que  locupletar-se à  custa do dinheiro público e de propinas. 

Somos uma nação (somos mesmo?) onde governantes fazem festa para entregar uma ponte ou uma escola novas, no mais das vezes com obras superfaturadas, tornando um verdadeiro "acontecimento" aquilo que seria sua pura e simples obrigação sistemática, já que supostamente são eleitos para tal.

Portanto, caro Nelson Rodrigues, nada mais compreensível do que o nosso complexo de vira-lata, com todo respeito por esses animais que, como significativa parte da população brasileira, reviram latas de lixo em busca de  comida.