Alex Ferraz

Língua Solta
Sobre uma época em que se dava valor à vida

O corpo estendido no chão já não comove


Foto: pxhere/Creative Commons

Lembro-me muito bem da cena: década de 1960, eu então criança em férias escolares, como sempre passadas na pequena cidade de Itambé, sudoeste da Bahia.

Era uma Quarta-Feira de Cinzas. Da sacada da enorme casa de minha tia, onde parte da família costumava ficar hospedada, seguiamos com olhar contrito o cortejo fúnebre.

Era aquela uma das principais ruas da cidade, uma ladeira, e dezenas de pessoas caminhavam num silêncio tão profundo que podíamos ouvir nitidamente o ruído dos seus passos sobre o paralelepípedo.

Morrera alguém. Uma moça que sofrera um ataque cardíaco no último dia do Carnaval. Havia solenidade no ar. Afinal, era uma vida que se fora.

Uma vida, única, sem retorno.

Comungavam-se todos com a dor profunda dos pais, tios, irmãos, primos e amigos da morta.

Sabia-se, enfim, o quanto era importante a vida, mesmo de uma cidadã simples. Não era uma artista famosa, mas uma pessoa comum. Mas as pessoas comuns, as Marias e Josés, têm pais, irmãos, primos, tios, amigos. E a estes atinge de forma profunda a dor da perda de um ente querido.

 
As mortes de Marias e Josés viraram uma banalidade

Décadas se passaram. Hoje, tanto nos grandes centros urbanos como na pequena Itambé, as mortes de Marias e Josés viraram uma banalidade. O corpo estendido no chão já não comove, a não ser pelo medo gerado pela possibilidade de um de nós ser o próximo.

Os  mortos pela  violência sem fim viraram números, estatísticas e não raro um estorvo para os sobreviventes da guerra urbana.

O cidadão comum virou um percentual.

Tantos por cento das vítimas da violência são isso ou aquilo. Apenas X por cento dos crimes de morte são investigados e solucionados.

Nos velórios, alguns parentes pedem a Deus uma justiça que não acreditam mais poder emanar dos homens.

Morrer de morte matada, dantes, era um acontecimento extraordinário, comovia a todos, era destaque nos jornais.

Hoje, a grande maioria dos jornais sequer noticiam mais, quem sabe por falta de espaço diante da carnificina diária. Na TV, somente as mortes "mais cruéis" são, aí sim, exploradas à exaustão para alimentar o pavor dos telespectadores.

É o medo que rege a audiência, e não o respeito pela vida.

Uma pessoa comum assassinada pela polícia ou pelo ladrão é como uma formiga esmagada sem que aquele que pisou nela tenha percebido.

Houvesse respeito pela vida, e os crimes seriam apurados até o fim.

Mas em um país com mais de 200 milhões de habitantes, a maioria esmagadora deles sobrevivendo sob tenebrosas condições, um cidadão a menos nada representa. Inclusive para aqueles que fazem da multidão anônima e resignada o adubo para colher votos e fiéis.