Política

Eleições 2018: como foi o primeiro debate entre os presidenciáveis

O debate foi promovido pela TV Band

Foto: Reprodução

8 candidatos ao Palácio do Planalto participaram do debate promovido pela TV Band nesta quinta-feira (9/8), acompanhado por quase 390 mil pessoas simultaneamente, no YouTube, um recorde, 60% delas pelo celular: Álvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Ciro Gomes (PDT), Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL), Henrique Meirelles (MDB), Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (Rede).

Segundo a ferramenta Google Trends, o nível de curiosidade e de interesse das pessoas, em torno dos candidatos, que não devem ser interpretados como intenção de voto, era o seguinte, 2 horas antes de iniciado o debate:

O maior interesse por Jair Bolsonaro vinha de estados como Amazonas, Roraima, Mato Grosso, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.

Ciro Gomes despertava interesse em Roraima, Ceará e Paraíba; Geraldo Alckmin, apenas em São Paulo e Marina Silva no Acre.

As principais dúvidas dos eleitores eram sobre o que pode e não pode na campanha eleitoral 2018 e a respeito da data para o segundo turno. "Lula vai ser candidato nas eleições 2018?" era o quinto tópico entre as dúvidas.

O tema que mais gerava o interesse era educação, sendo quase uma unanimidade, no País.

Carta de Lula

O candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, divulgou em suas redes sociais uma carta na qual lamentava seu não comparecimento ao debate.

O PT programou um debate paralelo, reunindo o candidato a vice, Fernando Haddad, a deputada Manuela D'Ávila (PCdoB) - escolhida para ser vice na chapa após a Justiça Eleitoral definir a situação de Lula na disputa -, a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, e o coordenador da campanha, José Sergio Gabrielli.

A primeira pergunta do debate foi sobre medidas de combate ao desemprego, a ser respondida pelo senador Álvaro Dias (Podemos), que utilizou o tempo disponível para se apresentar e não respondeu à pergunta.

Geraldo Alckmin (PSDB) defendeu o aumento do investimento, a redução de despesas e a simplificação tributária, capazes de destravar a economia.l 

Marina Silva (Rede) preferiu destacar o compromisso em fazer o País crescer e Jair Bolsonaro  (PSL) disse que o País "precisa voltar a fazer comércio com o mundo todo, sem viés ideológico" lembrando o que tem ouvido de empresários: "o trabalhador precisa decidir entre menos direitos e mais emprego ou em todos os direitos e nenhum emprego".

Ciro Gomes (PDT) prometeu gerar 2 milhões de empregos no primeiro ano de governo, uma vez eleito, recuperando a capacidade de consumo das famílias.

Primeiras acusações - Guilherme Boulos (Psol) acusou o candidato Jair Bolsonaro de homofóbico e racista, de ter uma funcionária fantasma e de enriquecimento ilícito. "O senhor não tem vergonha?", perguntou. Bolsonaro respondeu que vergonha é "invadir a casa dos outros".

Interesse pelos candidatos desde o início do ano

O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, esperava que o candidato Geraldo Alckmin (PSDB), a quem apoia, fosse o maior alvo entre os presidenciáveis. "Alckmin deve ser alvo de todos, porque tem mais chance de crescer. Ele é o que tem maior capilaridade de candidatura. Só não cresce se outro crescer", avaliou Freire. Mas na primeira parte do debate, que durou 50 minutos, Bolsonaro dividiu com Alckmin a atenção dos adversários.

Marina Silva criticou a aliança feita por Alckmin com o Centrão - "que apoia o presidente Temer". Isso indicaria, segundo ela, a impossibilidade de mudança se o candidato do PSDB fosse eleito. "Aqueles que criaram o problema não irão resolvê-lo", disse. "A candidata Marina saiu do PV, afirmando que era incompatível, fundou outro partido e se coligou com o PV", respondeu o ex-governador de São Paulo.

Aumento do interesse nos primeiros 50 minutos do debate

O candidato Jair Bolsonaro não aparece entre os 5 primeiros porque o interesse por seu nome já era o mais elevado.

Álvaro Dias acusou o candidato Henrique Meirelles de haver ampliado a dívida pública do País, quando era presidente do Banco Central. As informações são falsas, segundo a Agência Lupa, de checagem dos fatos. "A dívida pública caiu com relação ao PIB brasileiro. Em dezembro de 2002, último mês antes de Meirelles assumir o cargo, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) estava em 76,1% do PIB. Em dezembro de 2010, quando Meirelles deixou o BC, a dívida pública estava em 62,4% do PIB."

Segurança pública e aborto

No segundo bloco do debate, as perguntas foram feitas por jornalistas do grupo Band. Marina Silva respondeu sobre o déficit fiscal do País e criticou o que chamou de "congelamento dos investimentos públicos" em áreas como saúde, educação e segurança pública, feito pelo governo Michel Temer. Por sua vez, Henrique Meirelles (MDB) acusou a candidata do Solidariedade de desconhecimento.

Geraldo Alckmin foi chamado a falar sobre a segurança pública e a respeito de medidas voltadas para a redução da criminalidade. Ele prometeu apoiar os estados e trabalhar junto a prefeitos e governadores, integrando a inteligência e ampliando a tecnologia contra o crime organizado. Bolsonaro condenou o desarmamento e defendeu que "o cidadão possa comprar arma de fogo para sua defesa"

“Quatro anos atrás foi anunciado que as mortes violentas eram de 59 mil pessoas por ano. Agora, temos 63 mil assassinados”, disse Marina Silva.

De acordo com dados da Agência Lupa, "o 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2014, mostrava 53.646 mortes violentas. Na 12ª edição do anuário, publicada nesta semana, esse número cresceu para 63.880".

Sobre a liberação do aborto, Guilherme Boulos disse que "ninguém é favorável", mas defendeu "o direito das mulheres de decidir". Ele prometeu tratar o aborto como tema do SUS, em lugar do Direito Penal.

Marina Silva destacou a complexidade do tema, que envolve discussões "de natureza filosófica, religiosa e de saúde pública", propondo um plebiscito para que a população brasileira possa decidir.

Corrupção e educação

O confronto direto entre os candidatos voltou no terceiro bloco do debate. Álvaro Dias iniciou, destacando o tema corrupção e anunciando que convidaria o juiz Sérgio Moro para ser o seu ministro da Justiça.

Alckmin propôs a reforma das instituições, começando pela política, com o voto distrital misto e a redução do número de partidos, aprimorando os sistemas de controle e apoiando o Ministério Público.

Mais de 2 horas depois de iniciado o confronto entre os presidenciáveis, embora o tema educação permanecesse como o de maior interesse entre os brasileiros, em suas buscas na Internet, continuava de fora da preocupação dos candidatos (para os moradores de São Paulo, Santa Catarina e Rio de Janeiro o emprego era a prioridade, naquele momento, e saúde para os do Rio Grande do Sul).

Até então, Ciro Gomes havia tangenciado o assunto, afirmando que 77 das 100 melhores escolas básicas no Brasil estão no Ceará.

De acordo com a Agência Lupa, no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2015, último disponível, o Ceará emplacou 77 escolas municipais na lista das 100 melhores do país, mas apenas na categoria “anos iniciais”, que vai do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental.

"Nos anos finais desse mesmo segmento, ou seja do sexto ao nono, o Ceará teve 35 unidades no ranking das 100 melhores escolas, um número inferior ao citado por Ciro. Dessas, uma é federal e 34 são municipais". Os dados estão disponíveis para consulta no site do Inep-Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira.

Foi Geraldo Alckmin que chamou a atenção para as deficiências da educação brasileira, perguntando a Marina Silva quais suas propostas.

A candidata prometeu trabalhar a qualidade, em vez da quantidade, assumindo o compromisso de que toda criança até os 7 anos esteja alfabetizada e melhorando a remuneração dos professores.

"Queremos fazer da educação uma prioridade, para que ninguém tenha que entrar por uma fresta", disse Marina Silva, citando que 14% dos estudantes que saem do 9º ano "não sabem fazer operações simples de matemática”.

De acordo com um levantamento da ONG Todos Pela Educação, citado pela Agência Lupa,  a partir da Prova Brasil, aplicada, pelo Inep pela última vez em 2015, na verdade, apenas 14% dos alunos do 9º ano da rede pública de ensino sabem fazer operações matemáticas

Guilherme Boulos voltou ao tema do aumento de juros, ressaltando o lucro do setor bancário, ao se dirigir ao candidato do MDB, Henrique Meirelles, a quem chamou de "candidato dos banqueiros".

Meirelles, que fez parte dos governos Lula e Temer, disse ser um presidenciável que conhece o sistema e, portanto, teria mais condições de resolver a questão.

No quarto bloco do debate promovido pela TV Band, os jornalistas do grupo voltaram a fazer perguntas aos candidatos. E a corrupção foi de novo citada em pergunta a Álvaro Dias, que já havia se referido ao tema.

Cabo Daciolo acusou o Congresso Nacional de abrigar "uma quadrilha" e garantiu: "Vou acabar com eles".

Sobre a iniciativa de ministros do Supremo Federal de reivindicar reajuste de salário, Ciro Gomes considerou uma "atitude acintosa", diante do número de desempregados no País (cerca de 13 milhões de pessoas).

"Anarquisaram a administração pública brasileira", reforçou Álvaro Dias, defendendo a redução do tamanho do Estado e do Congresso.

Em referência a Geraldo Alckmin, Marina Silva duvidou que se possa ter critérios na composição de governo aliando-se "com quem não tem compromisso com a ética". E ouviu do candidato do PSDB: "nunca fui do PT e nunca trabalhei no governo do PT". Marina Slva foi filiada ao Partido dos Trabalhadores e ministra do Meio Ambiente no governo Lula entre 2003 e 2008.

Ao fim do quarto debate, as propostas do candidato Jair Bolsonaro eram as que mais despertavam o interesse dos usuários do Google. E o Twitter registrava mais de 1,5 milhão de postagens sobre o encontro desde o início da transmissão.

No quinto e último bloco os presidenciáveis fizeram suas considerações finais.

Ciro Gomes desculpou-se por ter afirmado, erroneamente, que a mulher do juiz Sérgio Moro (advogada) recebe auxílio-moradia (benefício oferecido a juízes). Sérgio Boulos falou de um "projeto novo" e Marina Silva disse admirar as exceções, como "pessoas que conseguem passar em um concurso público apesar do péssimo ensino".

Jair Bolsonaro disse ser o único, entre os que estão à frente das intenções de voto, capaz de resolver os problemas do País, e que o Brasil precisa de um presidente "que não separa hetero e homossexuais, brancos e negros".

Álvaro Dias lembrou sua atuação na área pública e Cabo Daciolo destacou a importância da educação e se dirigiu aos evangélicos, citando a Bíblia.

O candidato Geraldo Alckmin prometeu montar uma equipe capaz de apresentar "as melhores propostas para o País" e falou sobre crescimento de São Paulo durante seu governo, enquanto Henrique Meirelles disse que o importante é olhar o que cada um dos postulantes já fez.

O debate se encerrou à 1h13 desta sexta-feira (10/8).