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Igatu: onde se puxa fogo e rala o bucho para celebrar São João

Nesta época o povoado está todo enfeitado de bandeirolas plásticas e flores de papel crepom

Foto: Kithi
O lugarejo é construído com pedras e traz nas vias e casas a marca do trabalho escravo
O lugarejo é construído com pedras e traz nas vias e casas a marca do trabalho escravo

O São João é um festejo de agradecimento à fartura da colheita, para Fábio Eloy, vaqueiro e agricultor familiar. Ou um momento de experimentar as cidades do interior, para quem mora na capital.

É uma festa rica de comidas e bebidas típicas, de alegria, danças e vestimentas tradicionais, de cidades enfeitadas, fogueiras, fogos de artifício e celebração.

E para as pessoas mais velhas o São João só presta "puxando fogo", ou seja, tomando muito licor e quentão, bebidas típicas da festa.

Existem muitas histórias em torno de São João. Do imaginário popular a criações religiosas o santo é uma referência pontual para a população do interior. Não é comum se orar ou ter imagens do santo em casa. Nem pedir milagres, nem proteção.

É um santo com data marcada: 24 de junho é o seu dia, mas a parte melhor acontece na véspera, quando as fogueiras são acesas, as crianças tocam fogos, a mesa está repleta de iguarias, o forró toca, a bebida esquenta, o arrasta pé acontece e as pessoas e as bandeirolas dançam ao sabor da música e do vento.

O licor caseiro feito de frutas diversas há para todos os gostos: azedinho, feito com o tamarindo e o limão; excêntrico, com cajá, cupuaçu, mangaba, figo; chique, com laranja, morangos, frutas vermelhas e uvas; e aqueles encontrados em todos os lugares, feitos com o jenipapo e o maracujá. 

Fazer um bom licor é uma arte, mas como é feito em casa, cada um encontra um jeito muito próprio de colocar aquele ingrediente misterioso que faz toda a diferença. Pode estar no tempo de infusão das frutas, na forma de coar, na quantidade e tipo de adoçante utilizado ou no tipo de cachaça utilizada, que também pode ser o álcool de cereais.

Canjica, mungunzá, milho verde e assado, lelê... iguarias feitas com milho. Amendoim cozido é obrigatoriedade em todas as casas. Mas, na Chapada o São João é encontrado mais nas ruas do que nas residências. Encontra-se tudo à venda nas praças e cantos do lugar.

É assim em Igatu, distrito de Andaraí, localizado numa das extremidades do Parque da Chapada Diamantina, e que viveu da exploração dos diamantes.

O lugarejo é construído com pedras, artigo comum à região, e traz nas vias e casas a marca do trabalho escravo.

A noite é fria, chegando a uma sensação térmica de 10°C e o dia suficientemente quente para um mergulho na Madalena, poço de água corrente e escura, banhos de cachoeiras, caminhadas, visita a museus locais como a Galeria Arte e Memória do artista plástico Marcos Zecariades, ou simplesmente sentir o calor do sol sem nada fazer. Internet só nas pousadas e casas através de antenas locais. Não há sinal para celulares.


Bandeirolas e flores de papel crepom enfeitam as casas - Foto: Kithi

Nesta época o povoado está todo enfeitado de bandeirolas plásticas e flores de papel crepom. As portas cheias de artesanatos locais, algumas pequenas barracas feitas com palha de palmeiras para venda de comidas e bebidas do São João. As cores invadem e transformam o espaço vivido num imenso salão de festa.

Para Seu Guina, comerciante local com 80 anos de vida, o “São João é uma coisa boa demais”. Ele só não gosta das bombas.


Seu Guina, 80 anos de vida - Foto: Kithi

A sua filha Rita, junto com outras pessoas da comunidade, de uns tempos para cá, é quem cuida da decoração. Parte financiada pela prefeitura, que também é encarregada da contratação dos tocadores para animar o arrasta pé, expressão utilizada para designar a dança típica do momento.

Os principais instrumentos da música raiz ou antiga são a sanfona, o triângulo e a zabumba. Os ritmos são: o baião, o xote, o xaxado e o forró. Presentes de forma tradicional ou inovados com variações que trafegam desde a inclusão do pandeiro por Jakson do Pandeiro, até a incrementação com guitarras, baixo, baterias e teclados. Seja com música antiga ou com as novas versões, o rala bucho (dançar agarradinho) é bom demais!

O diferencial deste São João é o tamanho pequenino do lugar, a não conexão com o exterior, a recepção das pessoas da terra. Um lugar que exige alma festiva para enxergar, como disse Jorge Amado: “temos olhos de ver e olhos de não ver, depende do estado do coração”.