Robson do Val

Coluna do Sudoeste
Lerdo por conveniência

Quem é brasileiro sabe: é prática comum entre os gestores públicos brasileiros retardar a conclusão de uma obra pra inauguração coincidir com ano de eleição.

Quando cheguei a Vitória da Conquista, em 2014, estava no início a novela da interdição do Centro de Cultura da cidade, equipamento administrado pela Secretaria de Cultura do Estado. Foi fechado porque, de acordo com laudo técnico do CREA, não cumpria as normas básicas de segurança.

Quatro anos se passaram, entre licitações mal fadadas e troca de empreiteiras contratadas, serviços de reforma mal feitos e anúncios de prazos não cumpridos, e o Centro de Cultura da terceira maior cidade da Bahia continua fechado.

Agora, que estamos em um ano eleitoral, como qualquer eleitor com um mínimo de malícia poderia prever, foi anunciada a data de inauguração. Reza a nova lenda que o evento tão aguardado ocorrerá no mês de julho.

Outros prazos foram anunciados e descumpridas sem que nos fosse dada a menor satisfação. Mas, como tem eleição este ano e interessa mais aos gestores ficar bem na fita do que atender às demandas da população, há um indício fortíssimo de que a tal inauguração finalmente será realizada.

A essa altura um deputado sabichão já associou uma verba qualquer no seu nome ao feito que, de mera obrigação do poder público, foi elevado à categoria de ato heróico.

No caso do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, ao qual estamos nos referindo, o uso eleitoreiro de uma obra pública atingiu os limites do absurdo, quando permitiram a pintura de um grafite na parede da entrada do anfiteatro, onde se lê umas das frases mais pronunciadas no país nos últimos tempos: “Fora Temer!”

Não estou entre os irrisórios 3% da população que na última pesquisa de opinião consideraram o governo Temer bom ou ótimo. Queria um comando bem melhor pro meu país que, infelizmente, nenhum nome disponível nas urnas seria capaz de realizar. Acho legítima a dinâmica democrática de poder exigir publicamente a troca do governante que não atende às expectativas da imensa maioria da população.

O que considero inadequado é usar um espaço construído com dinheiro público e administrado pelo governo, para fazer panfletagem partidária. Afinal, o dinheiro daqueles 3% da população que sabe-se lá porque privação de entendimento aprovam Temer, também foi usado na construção do Centro de Cultura.

Esse tipo de atitude, pelo contrário, acaba enfraquecendo a própria causa do “Fora Temer”, causando a impressão de que quem quer vê-lo fora do governo revela, na baixeza do seu proceder, que é tão despreparado quanto ele para dirigir os destinos do povo. Será que é?