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Exposição mostra prostitutas e seus espaços de vida em Salvador

A exposição apresenta um ensaio inédito, realizado no verão de 1966, originalmente para um livro

Foto: Flávio Damm
A mostra reúne fotografias feitas nas ruas do baixo meretrício
A mostra reúne fotografias feitas nas ruas do baixo meretrício

As memórias da antiga “zona” de Salvador são a matéria da exposição "Mulher-Dama", do fotógrafo Flávio Damm, que será inaugurada no próximo dia 9 de janeiro, a partir das 18h, no Museu da Cultura Afro-Brasileira – MUNCAB, com visitação até 10 de março.

A exposição apresenta um ensaio inédito sobre prostitutas e seus espaços de vida, realizado no verão de 1966, originalmente para um livro com o mesmo título que Flávio publicaria com o amigo Jorge Amado, projeto que foi abortado por conta do AI-5.

Com curadoria de Silvana Olivieri e produção da Giro Planejamento Cultural, a exposição reúne fotografias feitas nas ruas do baixo meretrício, sobretudo no Maciel, e no “castelo” Meia-Três da Ladeira da Montanha, na época o bordel mais famoso de Salvador, que só pôde ser fotografado graças à intermediação de Jorge e Carybé, amigos de China, a proprietária.

O casarão que abrigou o Meia-Três foi um dos diversos imóveis demolidos pela prefeitura em maio de 2015. Na ocasião, foi destruído em apenas três dias um patrimônio secular tombado e desalojadas dezenas de pessoas - muitas das quais prostitutas, levantando suspeitas principalmente pela coincidência com o anúncio da “revitalização” da região por empresários do setor hoteleiro e imobiliário.

A exposição e o conjunto de atividades que integram o projeto - mostra de documentários, oficinas, ações artísticas, etc - se apresentam como uma resposta a essa intervenção, propondo um outro olhar sobre esses espaços, tão estigmatizados quanto sua população, agindo para que não sejam apagados nem esquecidos.

O projeto da exposição “Mulher-Dama” conta com o apoio afetivo da Associação de Prostitutas da Bahia - APROSBA e o apoio financeiro do Fundo de Cultura do Estado da Bahia, através do Edital Setorial de Artes Visuais da Fundação Cultural. 

Flávio Damm começou na fotografia como auxiliar de laboratório do alemão Ed Keffel, refugiado do nazismo em Porto Alegre, passando a fotografar para a Revista do Globo em 1946.

Obteve a consagração profissional no ano seguinte, ao realizar as primeiras fotografias de Getúlio Vargas em sua fazenda após seu afastamento da presidência da República, o que lhe valeu um convite para integrar a equipe da revista O Cruzeiro, no Rio de Janeiro. Trabalhando nesta publicação durante uma década, celebrizou-se como um dos mais importantes fotojornalistas brasileiros, realizando, ao longo desse período, reportagens históricas ao redor do mundo.

Suas fotografias retratavam um grande escopo de assuntos e situações, que iam desde os modos de vida de comunidades isoladas no interior de um Brasil ainda pouco conhecido, até a coroação da Rainha Elizabeth II na Inglaterra.

Em 1962 fundou, junto a José Medeiros e Yedo Mendonça, uma das primeiras agências de fotografia do país, a Image. Damm, no entanto, nunca saía para trabalhar sem a sua Leica, câmera que lhe permitia explorar a linguagem fotográfica para além dos preceitos jornalísticos, produzindo, assim, um grande acervo de imagens que buscam extrair das cenas urbanas a poesia de seu caráter trivial.

Fiel à fotografia analógica em preto e branco, sem cortes nem cenas orquestradas, até hoje, prestes a fazer 90 anos, segue munido de sua Leica pelas ruas do mundo, à procura de instantes decisivos.

Em setembro de 2017, foi o fotógrafo homenageado na 13a edição do Paraty em Foco, um dos festivais de fotografia mais importantes da América Latina.

A exposição “Mulher-Dama” será sua primeira individual em Salvador, cidade que tanto fotografou.

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