Alex Ferraz

Em Tempo - Coluna do dia 19/08/2016

Mais um grande espetáculo midiático
 

Está definido: o julgamento final da presidente afastada Dilma Rousseff começará às 9 horas do próximo dia 25. A sessão já será aberta pelo presidente do STF, ministro Ricardo Lewandowski, e terá intervalos das 13 às 14 horas e depois das 18 às 19 horas. Porém,  como presidente do processo de impeachment, Lewandowski pode interromper sempre que entender necessário.

Neste dia, serão apresentadas as questões de ordem pela acusação, defesa ou senadores. Cada um poderá falar por cinco minutos. As questões serão decididas por Lewandowski.

Nos dias 26 e 27, respectivamente sexta e sábado, haverá audição de testemunhas. Já 29 será o grande dia, com o “gran finale” : é a segunda fase. Dilma vai ao Senado e falará por 30 minutos, podendo ter seu tempo prorrogado pelo presidente do STF, a seu critério. Em seguida, os senadores, acusação e defesa poderão fazer perguntas. Cada um poderá falar por cinco minutos. Mas ela tem direito a ficar calada, embora já tenha dito que responderá.

Eis aí, caros leitores, o quadro perfeito da sua programação televisiva pós-Olimpíada. Em vez de atletas, medalhas, pódio etc., voltaremos a ver na telinha parlamentares, mais especificamente senadores, fazendo todo o possível para aparecer o máximo possível, o que é muito importante para eles, notadamente em tempo de campanha eleitoral, pois com isso alguns podem ganhar mais força na defesa de seus candidatos municipais.

Tido como certo, o afastamento definitivo de Dilma vem esquentando a cabeça de políticos em todos os níveis, inclusive dos seus partidos. Quem é da dita esquerda e defende a presidente, certamente tenderá a radicalizar ainda mais no discurso, visando reforçar (ou até mesmo conquistar) mais eleitores para outubro. No entanto, é bom lembrar a esse pessoal que diante de alguns desdobramentos recentes, nos quais o PT, quase que oficialmente, isolou-se de Dilma e põe nos seus ombros a culpa de tudo do que vem sendo acusado o partido e sua cúpula, e do próprio “mea culpa” da presidente, é provável que nos meios petistas e ditos de esquerda de um modo geral a tendência a radicalizar a favor de Dilma tenha arrefecido um bocado, após aquele triste espetáculo da Câmara.

Vem daí, provavelmente, a dúvida sheakesperiana de muitos que até pouco tempo defendiam a presidente com unhas e dentes: ser ou não ser a favor dela.

Do lado das oposições, é um prato feito para verberar contra Dilma e o PT, acredita-se que com  um pouco mais de compostura do que foi visto naquela célebre sessão da Câmara, onde muitos vomitaram impropérios quase impublicáveis contra os petistas, alguns babaram microfones com urros pró-Dilma e houve até cusparada, naquele festival de ruídos e fluidos humanos.

Não sou marqueteiro político, mas pelo pouco que já vi nesses 40 anos de jornalismo, suponho que os senadores devem ir com cuidado. Sim, porque da sessão da Câmara até os dias atuais, muita água enlameada rolou sob a ponte e não são poucas as figuras de destaque do Senado que foram arranhadas com acusações de corrupção, de recebimento de propinas tais e quais àquelas que, segundo investigações, o PT teria recebido.

Assim, creio que o telespectador estará bastante dividido. Haverá, claro, a claque dos pró-Dilma, radicais, cegos diante de evidências, assim como a plateia que quer que ela saia de vez para abrir espaço para que as oposições se consolidem no poder, pelo qual certamente se engalfinharão em futuro muito próximo. Mas com certeza deverá existir uma ampla maioria desconfiada, com o saco cheio de discursos vazios e demagógicos, que visam tão somente a ganhar o máximo de tempo na TV, saturada também de ver os mesmos fazendo as mesmas coisas e dizendo que estão “mudando” a política e coisas que tais.

Enfim, será um grande “show” com a maior parte dos seus protagonistas, seja de que lado for, vista com absoluta desconfiança pela opinião pública.

Portanto, é conveniente que os senhores parlamentares – toda vez que uso esse termo lembro-me de uma piada corrente lá pelos anos 1980, que dizia: você sabe o que é um parlamentável?  São dois deputados juntos – tenha parcimônia e, mais do que isso, elegância e um  mínimo de ética nas suas interferências.

Vamos esquecer homenagens às famílias e muito menos, jamais, voltar a louvar torturadores. Vamos questionar, repito, de forma civilizada. E guardar a saliva unicamente para lubrificar as palavras. E seja o que Lewandowski quiser...

P.S. – Não posso deixar passar esta: toda vez que ouço notícias sobre a prevaricação sexual do pastor Marco Feliciano, recordo-me de uma célebre frase de Pitigrilli: “Deem-me mil moralistas e abrirei um bordel.” Hehehe...