Entretenimento

Existe um cinema de arte?

1.)-Até os anos 60, os grandes críticos e ensaístas de cinema somente se punham a escrever sobre certos realizadores que se encontravam numa espécie de Olimpo: Serguei Eisensten, Orson Welles, Roberto Rossellini, Ingmar Bergman, Charles Chaplin, Robert Bresson, Federico Fellini, Fritz Lang, Alain Resnais, Michelangelo Antonioni, entre muitos outros. Se se vai verificar os dois caudalosos volumes de críticas de Paulo Emílio Salles Gomes, por exemplo, não se encontra nenhum artigo a respeito de Vincent Minnelli, Frank Tashlin, Howard Hawks, Robert Wise, Robert Aldrich, Anthony Mann, Billy Wilder, entre outros notáveis do cinema americano. Mesmo o genial Alfred Hitchcock é visto com reservas tanto por Paulo Emílio quanto por Walter da Silveira em “Fronteiras do Cinema”.

2.)-O grande cinema, para Paulo Emílio, Walter da Silveira, Francisco Luiz de Almeida Salles, Georges Sadoul (vejam o seu dicionário de filmes), etc, parecia se circunscrever ao cinema europeu. Há exceções, como a de Antonio Moniz Vianna no “Correio da Manhã” e sua admiração religiosa a John Ford. Foi preciso que os jovens críticos da revista francesa “Cahiers du Cinema” (François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Claude Chabrol, Jean Doniel Valcroze...) descobrissem que o cinema americano tinha grandes cineastas com a chamada “Politique des Auteurs”.

3.)-Interessante observar que seria quase um “anátema” se Walter da Silveira exibisse, por exemplo, a notável comédia “Se meu apartamento falasse! (“The aparment”, 1960), de Billy Wilder, em seu Clube de Cinema da Bahia, que considero um dos melhores filmes que já vi na minha trajetória de cinéfilo. O Clube se reservava aos cineastas do “podium”. Naquela época, o “cinema de arte” era uma coisa e outra os filmes de “divertissement”, as fitas para entretenimento, confundindo-se, com isso, alhos com bugalhos. Se Quentin Tarantino tivesse se formado cinematograficamente apenas a ver os realizadores do Olimpo não teria feito “Bastardos inglórios”, pois a sua inspiração vem mais de filmes considerados, pela crítica rabugenta, de segunda linha, como é o caso de Enzo G. Castellari.

4.)-E, afinal de contas, o que é “cinema de arte?” Há um “cinema de arte”? Na verdade, existem os bons e os maus filmes. O “cinema de arte” não existe, pois da própria indústria cultural surgem excelentes obras cinematográficas, a exemplo de “Bastardos inglórios”, “Gran Torino”, de Clint Eastwood, “Sangue negro”, de Paul-Thomas Anderson, etc. Um filme é bom ou não o é, quer venha de autores consagrados, quer oriundo da indústria consolidada. Mas para a maioria das pessoas, “cinema de arte” é aquele que se distancia do modelo narrativo hollywoodiano, com filmes mais reflexivos, tomadas demoradas, que trata de “coisas nobres” (e que “coisas nobres” seriam estas?).

5.)-O termo “cinema de arte” começou a ser empregado nos anos 50, quando começaram a surgir os filmes de Ingmar Bergman, Michelangelo Antonioni, Alain Resnais, obras que se diferenciavam da estrutura narrativa tradicional do cinema americano. E, por incrível que possa parecer, foram os próprios exibidores que instituíram a expressão para designar os filmes “diferentes”, antípodas do modelo americano. Os exibidores começaram, então, a chamar os filmes de Bergman, Antonioni, e congêneres, de “filmes de arte”, de “cinema de arte”.

6.)-Há pessoas que desprezam o filme que tem uma estrutura linear, uma narrativa com começo, meio e fim, e somente se interessam pelas obras que “invertem” a narrativa ou que propõem “fórmulas” diferentes de narrar. Nada mais equivocado. Um bom filme se revela pela maneira que o realizador articula os elementos da linguagem cinematográfica. Um filme linear pode ser tão bom como um que “desestruture” a narrativa. A questão se resume ao talento do cineasta. Recusar o filme linear significa jogar no lixo John Ford, Anthony Mann, Hawks, entre muitos. Há realizadores que procuram copiar os mestres e se tornam chatos, pachorrentos. Nunca esqueço o que ouvi de Costa-Gavras em Salvador: “O cinema é, antes de tudo, um espetáculo”.

7.)-Se Glauber Rocha pode ser considerado um grande realizador cinematográfico, as suas “viúvas” são insuportáveis, além de extremamente incompetentes. Conversar com uma “viúva” de Glauber é papo para “encher o saco” de mesmices e repetições. Mas o cinema brasileiro, em detrimento de produções mais arrojadas, está cheio dessas “viúvas carpideiras.”

8.)-Um Douglas Sirk essencial é lançado em DVD em cópia boa e luminosa: “Imitação da vida” (“Imitation of life”, 1959), obra reverenciada pelo “Cahiers du Cinema” e pelos críticos do mundo inteiro. Aliás, a bem da verdade, a maioria dos filmes desse austríaco, que trabalhou em Hollywood, é essencial. Um retrato da sociedade americana nos anos 50, racista e preconceituosa, que apresenta a essência da década nos EUA, principalmente no quesito racismo. Mas “Imitação da vida”, sobre ser uma obra analítica de um “way of life”, é um melodrama belíssimo de uma insuperável eficiência nos “golpes dramáticos”, na fotografia colorida deslumbrante, na “mise-en-scène” de um mestre do cinema, que encerra, com este filme, sua carreira magistralmente.