Opinião

Esther Largman e as ?Polacas?

Quando crianças, jamais imaginamos o que seremos na idade adulta. Claro que sonhamos com muitas possibilidades de sucesso; o que é normal, especialmente, porque na ditosa fase, a vida nos parece "um mar de rosas".

Tive muitas ambições na infância. Criei muitas fantasias, incluindo-me em miríades de sonhos inalcançáveis. Com o passar dos anos, fui caindo "na real" e percebendo o quanto são imprevisíveis os dias que virão.

Imaginava que algumas amigas, dotadas de evidentes aptidões artísticas, seriam concertistas de fama internacional. Assim julgava sobre Myriam Grossmann e Sara Vaimberg, vizinhas e companheiras.

Envolvida no meu universo limitado, encarava a existência como se a visse do alto da montanha, de cujo local seria fácil delinear e esculpir o formato da minha vida. Pretensiosa, sem ser nenhuma beldade, sonhava em ser atriz de cinema. Do cinema hollywoodiano ou italiano, jamais do nacional. Naquela época só existiam as "chanchadas da Atlântida", que eram umas drogas enlatadas, ou o dramalhão O Ébrio, protagonizado por Vicente Celestino que, por incrível que pareça, fazia um sucesso extraordinário. Sempre amei a Sétima Arte, sendo uma assídua frequentadora das casas de exibição de Salvador. Gostava tanto que chegava a colecionar retratos, em preto e branco, dos meus ídolos. Possuía inúmeras fotografias que, àquele tempo, eram muito comercializas, sendo em maior quantidade as da expressiva e bela sueca Ingrid Bergman.

Do bom tempo do Desterro guardo muitas lembranças. Lembranças que se misturam com saudades de uma época particularmente feliz. Das saudades, doem mais as precoces partidas de Sara Vaimberg, Senhora Leão Rozemberg, que se foi, há muitos anos, em companhia do marido, da filha caçula, Soninha, e de uma garota norte-americana, hóspede do casal, num trágico acidente na Bahia-Feira. Guardo, também, na memória, a morte de meu tio materno, tenente-aviador Wilson Montanha, desaparecido aos 26 anos de idade, em trágico acidente aéreo. Dele jamais me esqueço, apesar de ter morrido em 1943. Outra presença da infância, mas ausente há poucos anos, é a de Israel Portnoi, um amigo de Pedro, meu irmão, e de toda a família, que não saía da nossa casa.

Mas, até este ponto, só me referi aos amigos que se encontram na Eternidade. É sempre assim com quem escreve, uma coisa leva a outra.

Programei-me, porém, para recordar uma amiga muito atuante no mundo das letras, a escritora, Esther Regina Palatnik, mais tarde Largman. Sobre ela sempre foram muito positivas as expectativas, porque, além de muito aplicada e dada às leituras, já demonstrava pendores para a escrita.

Pois bem, nesta monótona tarde de domingo, dia 26 de abril de 2009, alcanço na minha estante o seu romance: "Jovens Polacas", publicado, em segunda edição, pela Editora Rosa dos Ventos (1993). A obra mereceu elogioso prefácio do escritor gaúcho, membro da Academia Brasileira de Letras, Moacyr Scliar.

Diplomada em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia da Bahia, em 1955, Esther transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde se casou, teve filhos e permanece até hoje. Seu livro, objeto deste comentário, é como ela própria escreve a título de advertência, "baseado em fatos reais". Não se trata de pura ficção. Daí, para mim, o seu maior mérito.

"As Jovens Polacas" não nasceu de um devaneio, nem foi tramado nas teias da inverossimilhança. É uma narrativa real e corajosa, que deve ter incomodado muitos "guardadores do silêncio".

Trata-se da exposição em carne viva de uma chaga irremovível na memória do povo judaico. Concebido para ser uma denúncia de acontecimentos dolorosos, o livro traz à tona determinado momento da vida europeia e seu desdobramento traumático na América do Sul, paraíso do tráfico de mulheres, ontem como hoje. O objetivo da autora foi revelar o drama vivido por aquelas mulheres que, para escapar das agruras da política europeia, ingenuamente aceitavam propostas de casamento e de emprego na América do Sul, onde passavam a ser exploradas por finórios proxenetas.

A obra traduz, com fidelidade, a vida das polacas, vítimas desses "profissionais" travestidos em sedutores "noivos", ou "agentes de trabalho feminino", no Novo Mundo.

Este episódio tristíssimo sempre foi mantido em segredo, a fim de não contrariar a sentença do Deuteronômio, segundo a qual, "Não haverá rameira entre as filhas de Israel".

Tema para um filme ou minissérie, estranha que, até hoje, não haja sido aproveitado por uma dessas redes de televisão brasileira, que produzem novelas "a torto e a direito, utilizando assuntos inverossímeis, destituídos de mensagem positiva ou coisas que tais. Enfim, tudo é possível neste País dos absurdos".

A romancista conhece em profundidade o drama das prostitutas judias que, fugindo dos problemas ocasionados pela Primeira Guerra Mundial-1914-1918, viram-se na contingência de imigrar para a Argentina, o Uruguai e o Brasil, seduzidas por promessas de uma existência digna. É, pois, um relato verdadeiro e forte, capaz de sensibilizar os autores das minisséries que, em lugar de tratar de temas brasileiros, escrevem sobre assuntos inverossímeis ou, ainda, aqueloutros que escapam ao nosso interesse histórico.