Robson do Val

“Cãodomínio” de luxo
Fez muito sucesso, em um tempo não muito distante, o Rock da Cachorra, música do cantor e compositor brasileiro, Eduardo Duzek, em que ele sugeria sem meias palavras: “Troque seu cachorro por uma criança pobre”.  Mais adiante, em tom debochado, na letra da mesma canção, ele afirmava: “Tem muita gente por aí que está querendo ser um pastor alemão”.

Exagero de Dusek? A nossa experiência diária nas cidades brasileiras comprova que não. Em vitória da Conquista, no sudoeste baiano, há uma situação em pleno andamento, que deixa bem claro que, algumas vezes, a vida de cachorro pode ser mais favorecida que a vida dos humanos.

Com a chegada do inverno, estação em que a temperatura muitas vezes fica abaixo dos 10 graus no planalto conquistense, entidades protetoras dos animais se mobilizaram, construindo casas de madeira para abrigar os cães sem dono que perambulam pelas ruas da cidade.

A menos de 200 metros do local onde foi construída uma dessas confortáveis estruturas para abrigar os cachorros, está morando, debaixo de uma lona plástica, uma família que, até agora, não recebeu apoio de ninguém.  São pessoas em situação de miséria total, morando na calçada de uma das ruas mais movimentadas da cidade, passando frio e fome, sem que ninguém se compadeça.

Não queremos aqui defender a tese de que os protetores dos animais deveriam abandonar a causa que abraçaram, para cuidar dos moradores de rua. O problema dos animais abandonados em Vitória da Conquista é muito grave. A estimativa é de que existam pelo menos 8.000 deles soltos pelas ruas, entre cães, gatos e animais de montaria.

Ao contrário de cidades menores, como Itabuna e Jequié, Vitória da Conquista, estranhamente, ainda não tem um Centro de Zoonoses para fazer frente a essa situação, que acaba colocando em risco também a saúde das pessoas. Sendo assim, os protetores dos animais estão preenchendo com suas ações, mais uma das inúmeras lacunas deixadas pelo poder público.

O que percebemos, e certamente as autoridades públicas também já devem ter notado, é que, nos últimos meses, talvez por conta da crise econômica que ainda atravessamos, e que fulminou muitas empresas da cidade, a quantidade de gente perambulando pelas ruas, pedindo comida nas portas dos restaurantes, se oferecendo para tomar conta dos carros ou abordando os motoristas nos sinais, tem crescido consideravelmente.

Todos nós sabemos que a miséria, por si mesma, é uma condição que impõe sacrifícios extremos às suas vítimas. Nas cidades como Vitória da Conquista, onde o inverno costuma produzir noites muito frias, ela se torna ainda mais penosa. Não vai nos causar surpresa, por exemplo, se amanhã ou depois, está família que está morando debaixo da lona plástica, resolver ocupar a casinha aconchegante construída pra os cães, que fica logo depois da esquina. Mesmo porque, os cachorros parecem não ter entendido que aquela estrutura foi feita para abrigá-los, e até agora não deram a menor bola pra ela.

Será que alguém vai reclamar se isso acontecer? Eduardo Dusek diria, ainda no Rock da Cachorra: “Seja mais humano. Seja menos canino. Dê guarida pro cachorro, mas também dê pro menino”.

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