SertÃo Baiano

Histórias de vida

Vestida com uma simples calça jeans, blusa clara florida e chapéu de palha, Angelina Souza Santana, 74 anos, contagia o ambiente por onde passa com o seu bom humor. Seus pés rachados, calçados em uma sandália rasteira desgastada, representam o chão de sua terra castigado pelo calor do sol.

Ela é uma daquelas senhoras que não passa despercebida. Quem visita sua banca de frutas, na feira de Coração de Maria, é contagiado pelo bom humor. Apesar de sua idade, a agricultora dança como uma adolescente. Dos 11 irmãos, ela é a mais velha e aprendeu a arte de cultivar milho, mandioca, feijão e hortaliças através dos ensinamentos rigorosos de seu pai.

Angelina ficou viúva aos 27 anos e, a partir daí, não se casou com mais ninguém. No total, 5 filhos, todos criados sem pai, foram sustentados pelo fruto que vem da terra, lugar onde ela começou a desempenhar funções pesadas desde os 12 anos.

Apesar das dificuldades, dona Angelina mantém o sorriso no rosto. Sua pele manchada pelo sol e as rugas que marcam a expressão facial, indicam a chegada da velhice. Ela diz que jamais sairia de sua cidade natal para qualquer outro lugar que lhe proporcionasse todo o conforto do mundo.

Orgulha-se por ser chamada sertaneja e mesmo com as adversidades enfrentadas, afirma: “minha alegria é essa”, referindo-se ao modo simples de viver. Para ela, uma mulher do sertão é bonita na forma de proceder, no caráter e no exemplo de superação.

EQUIPE
Angela Nunes
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@angelaquinho
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Beatriz Brito
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@biassbrito
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Elaine Silva
silva_0230@outlook.com
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Mari Santana
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Escolha (clicando na imagem) quem responderá à pergunta
"O que é ser sertaneja?"

 
“As mulheres daqui são tudo lutadeira,
trabalhadora e anda na linha!”

Angelina Santana, agricultora de Coração de Maria

 

Ao lado de Angelina estava sua neta Jamile Silva dos Anjos, 16 anos. Diferente da avó, a adolescente não se considera sertaneja e não pretende dar continuidade à tradição familiar de viver da agricultura. Nascida em Feira de Santana, cidade intitulada como a “Princesinha do Sertão”, Jamile sonha em ser policial.

Ela demonstra uma visão diferente da maior parte das mulheres da região. “Não sou sertaneja. Para mim, a mulher sertaneja é a que vive na roça e eu fico mais na cidade”, diz. E acrescenta: “A mulher da roça é muito sofrida, porque ela só pensa 24h em plantar, colher e conseguir o alimento para dentro de casa”.

Outras nativas da cidade também não se consideram sertanejas. É o caso da baiana de acarajé Aline Nery Bonfim, 36 anos. Ela somente assume a identidade como baiana, entretanto, afirma ter características das moradoras do sertão, pois é batalhadora, independente e corajosa. Quando questionada sobre sua sertanidade, diz: “Não sei, só sei que eu não me acho sertaneja.”

Para o cientista social Danilo de Santana Cardoso, essa dificuldade de aceitação da mulher enquanto sertaneja perpassa por dois fatores: a liberdade de se entender da maneira que achar conveniente e a ideia negativa e estereotipada de que ser do Sertão é uma coisa ruim. “Muitas delas podem não estar enveredando por este discurso (de sertanidade) porque não se sentem contempladas. Elas podem ter uma imagem negativa ou também ter o direito de não se sentirem sertanejas”, afirma.

Caroline Pacheco, 11 anos, filha de Aline, pensa como a mãe. A garota justifica que, diferente das sertanejas, ela não trabalha na roça e tem acesso à tecnologia. Sua familiaridade com o celular e intimidade com as redes sociais a fazem sentir atualizada e com hábitos idênticos ao das adolescentes nas grandes metrópoles.

Mãe e filha classificam a sertaneja a partir de rótulos que a sociedade constrói no imaginário popular e colocam a figura feminina do sertão como uma mulher sofrida, rústica, sem etiqueta e descuidada esteticamente. Segundo Cardoso, os meios de comunicação seguem normas burguesas de representação das mulheres que moram no Sertão, reforçando o que está no senso comum. Entretanto, o sociólogo ainda defende uma remodelação tanto na literatura quanto no pensamento social.

“A gente tem a formação da literatura brasileira marcada e estereotipada por uma criação do homem sertanejo, por consequência da mulher sertaneja. Essa mulher passa a ser representada como uma coadjuvante de uma realidade social, onde o homem aparece em primeiro lugar como o grande trabalhador. Só que a gente tem visto uma nova leitura e representação imagética para com essa mulher. Atualmente, a mulher sertaneja está enquadrada em uma lógica na qual ela, além de ser forte e representar um lugar, tem direito a fala e ocupa um papel central”.

Para a maioria das mulheres de Coração de Maria, ser sertaneja é um orgulho. Elas se denominam guerreiras, fortes e afirmam cuidar da beleza para manter o charme feminino.

 

 


Danilo Cardoso, cientista social

 
 

A cidade de Coração de Maria

 
 

Coração de Maria faz parte do Território de Identidade Portal do Sertão, portanto, geograficamente é uma cidade sertaneja. De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia, a região é formada por ampla diversidade climática, embora boa parte integre a região semi-árida do estado.

A cidade está localizada cerca de 110km de Salvador e abriga mulheres que refletem uma imagem idealizada, no imaginário de muitas pessoas, sobre o que é ser uma sertaneja. Para a maioria das entrevistadas a força de vontade, a coragem, o apreço pelo trabalho, a fé e a generosidade são características que as definem.

As principais atividades econômicas do município são a agricultura e a pecuária, sendo estes dois setores atuados por mulheres que também se destacam no artesanato, criando peças de bordado, tricô, crochê, pinturas e esculpindo bonecas de barro e gesso.

Próximo da Paróquia Imaculado Coração de Maria, localizada no centro da cidade, são encontradas feirantes vendendo uma variedade de produtos comestíveis como farinha, beiju, mel, rapadura e bolachinha de goma.

Uma delas é Raimunda Ribeiro Silva, 48 anos, professora aposentada do ensino fundamental, atualmente produtora e vendedora de sequilhos na feira.

Para Raimunda, as pessoas enxergam a sertaneja como uma mulher inculta, mas ela não se sente assim. Educadora do ensino fundamental durante 25 anos, a feirante conta que as vendas de sequilho são uma maneira de ajudar na renda familiar e um auxílio nas despesas da faculdade de sua filha que está cursando Nutrição em Feira de Santana. Pela falta de oportunidade de trabalho em Coração de Maria, a filha de Raimunda pretende ir morar em Salvador.

 


Paróquia Imaculado Coração de Maria

 
 


Imagens cedidas pelo fotografo Kaio Pacheco retratam a seca vivenciada em 2016 na cidade de Coração de Maria

 

“A seca machuca, mas não fere a honestidade!”
Matheus Boa Sorte, o matuto poeta

 

 

Segundo José Maurílio Silva Santana, 52 anos, Secretário de Agricultura de Coração de Maria, cerca de 70% da população concentra-se na área rural. A cidade possui dois distritos: São Simão e Retiro e dois povoados: Sítio e Paciência. A área de 378,421 km² comporta dois biomas: Caatinga e Mata Atlântica, sendo o primeiro predominante.

Ao adentrar regiões isoladas do município, encontra-se o verde acentuado na vegetação rasteira junto com flores e cactos. Cenário muito diferente do presenciado em 2016, quando houve uma grande seca que devastou boa parte das lavouras. A renda dos marienses, que sobretudo vivem da agricultura e pecuária, foi afetada drasticamente.

Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade está parcialmente incluída no Polígono das Secas e os períodos chuvosos são entre os meses de abril a julho. A produção de frutas como o abacaxi, laranja banana, caju, coco-da-baía e mamão destacam-se na agricultura. Em relação aos grãos, está o milho, o amendoim e o feijão.

Para o secretário, as marienses desempenham funções que exigem grande esforço físico. Ele ressalta que, apesar de tamanha dureza, elas conservam a sensibilidade. “As mulheres de Coração de Maria procuram progresso coletivo, tomando conta da casa e às vezes sendo pai e mãe, com muita dedicação. Cada uma tem sua beleza singular, busca independência e ocupar seu espaço, que lhe é de direito, tanto as da cidade como da zona rural”, afirma Maurílio.

Além do secretário José Maurílio, quase todas as mulheres entrevistadas na cidade destacaram a palavra coragem como o principal segredo para enfrentar os obstáculos constantes na rotina de uma sertaneja. É necessário prover o pão de cada dia, plantar sem ter garantia de colher e ter esperança que virão dias melhores, em meio à dura realidade. Resistir parece obrigação quando tudo está desfavorável e a ajuda prometida pelos órgãos competentes demora a chegar.


José Maurílio, secretário de agricultura

 
 

As adversidades da vida parecem lapidar a autoconfiança de Marisete da Cruz de Jesus, mais conhecida como “Quinha”, de 50 anos, que afirma enfrentar as lutas, os períodos de seca e tudo o que vem pela frente de cabeça erguida. “Sou uma mulher forte e corajosa, viver no sertão é muito difícil, mas o que vem pela frente a gente passa por cima. Não me abato com qualquer coisa”.

Quinha é um exemplo de superação. Abandonada pelo ex-marido, ela cria 4 filhos, um deles, paraplégico de nascença, o que torna os desafios de sobrevivência ainda maiores, já que o local onde mora, afastado do centro da cidade, não disponibiliza a estrutura necessária de locomoção. Ela é agricultora, mas conta, com orgulho, que fez trabalhos de pedreira ao construir sua própria casa. “Essa casa minha fui eu que construí. Planto feijão, milho, abóbora e aipim para meu consumo. Também comercializo quando o tempo colabora”, diz.

 
 
 


Cordelista Luciano Ferreira declama versos em homenagem às marienses

 
 

Beleza e inspiração

Segundo o açougueiro José Wilson, a qualidade mais prevalente da mulher sertaneja é a autonomia. “É o tipo de mulher que não gosta de depender de homem, não fica esperando e corre atrás dos objetivos dela”, diz.

Questionado sobre a preferência entre a mulher do sertão ou a da beira do mar, José Wilson responde sorridente: “Prefiro a mulher sertaneja, ela é mais direita do que a da cidade, trabalhadeira, bonita e com certeza mais atraente”, afirmou. Ele acha que a sertaneja é cabra-macho mesmo, mas o homem sabe conter essa expressão de valentia: “na hora H o sertanejo tem aquele jeitinho de dominar a sertaneja”, argumenta.

Os homens sertanejos não se privam de exaltar a figura feminina. Para o cordelista Luciano Ferreira as sertanejas de Coração de Maria são fontes de inspiração. Os encantos do povo do Sertão também envolvem o jornalista Matheus Boa Sorte. Em seu programa de TV Dendê na Mochila, o apresentador conhecido como "Matuto Poeta", visita o sertão da Bahia mostrando suas belezas e agonias.

 

 

 

 

 

 

Ouça entrevista com "O Matuto Poeta" Matheus Boa Sorte.

 
 


Entrevista com a atriz Regina Casé, em 17 de outubro de 2017, na Unijorge

 
 

A arte imita a vida

Seu nome é Regina Casé e ela é uma atriz. Considerada a segunda celebridade mais querida do Brasil, Casé apresenta o programa “Esquenta”, na Rede Globo. Ela recebeu o Prêmio de Melhor Atriz 2001 no Festival de Cartagena e o Prêmio de Melhor Atriz 2015 no Festival Sandance de Cinema. A atriz atuou em algumas novelas da Rede Globo e comandou programas como “Brasil Legal”, “Muvuca” e “Um pé de que?”.

Acompanhada do filho Roque, 4 anos, que espalhava alegria pelo ambiente, Casé chegou no Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge), no dia 17 de outubro, para ministrar palestra sobre diversidade. Antes disso, porém, em ambiente intismista de uma sala exclusiva, ela dialogou sobre a mulher sertaneja.

Com sorriso largo e descontração a atriz falou sobre a percepção que tem quanto às mulheres do Sertão. Para ela, a sertaneja é uma heroína. “É muito difícil você ver uma diferenciação de papéis de trabalho no sertão. Uma mulher trabalha na roça, lida com o gado, com a cabra e também cuida dos filhos. Se na cidade a gente fala de dupla jornada, lá é tripla, quádrupla”, destaca.

Segundo Regina, a mulher sertaneja ainda tem um longo caminho a percorrer no sentido de não se submeter, de não estar sendo explorada, de não estar ganhando menos e de não estar acumulando funções. Apesar disso, ela diz que todas as dificuldades tornam a sertaneja uma mulher mais forte. “Como tudo tem dois lados, tem um lado também que transforma a sertaneja em uma mulher muito forte, com uma experiência de vida impressionante. A gente tem muito a aprender com essa mulher".

Como Regina Casé nunca fez laboratório para viver as personagens Darlene e Val, dos filmes “Eu, tu, eles” e “Que horas ela volta?”, todas as premiações da atriz são demonstração de um talento nato. Sua experiência veio das viagens que fez pelo Brasil desde pequena. Carioca da gema, mas também cidadã soteropolitana desde 2012, a atriz diz que gostaria de homenagear todas as sertanejas a partir da interpretação de suas personagens.

“Eu queria encaixar todos os gestos, queria encaixar todos os termos, mas não fiz laboratório nenhum. Ao contrário, eu achava que era pouco tempo para colocar tudo que eu tinha guardado em uma trouxa nesse tempo todo de viagem que eu fui catando pelo caminho”.

 

 

 

 

 


Regina Casé em palestra na Unijorge

 
 

A sina da migração

O censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010 fez investigações sobre o fluxo migratório entre os estados. O Nordeste ainda se destacou como o principal local de saída dos migrantes. Todos os estados da Região Nordeste, com exceção do Maranhão, tinham São Paulo como a principal Unidade da Federação de moradia de seus naturais ausentes, sendo 1,7 milhões de pessoas naturais da Bahia.

Assim como esses milhões de migrantes baianos, Ednalva Nunes da Cruz, 50 anos, tomou uma atitude radical que mudou o curso de sua vida. No auge da juventude, com 23 anos, a menina nata do sertão de Santo Estevão mergulhou no universo dinâmico da grande São Paulo.

Sem pensar nas consequências, ao chegar à terra da garoa, se deparou com uma realidade jamais esperada. Após um romance passageiro, logo engravidou, se tornando mãe solteira, já que seu companheiro desapareceu ao saber da notícia.

Depois de ter dado à luz, trouxe o filho Wesley Gledson para a cidade de Santo Estevão, com apenas cinco meses de vida para ser criado pelos avós. Enfrentando uma viagem de dois dias, no embalo do ônibus, semelhante ao balanço do colo maternal, o menino chega ao sertão baiano e com um forte soluço suspira como se sentisse o adeus de sua mãe.

 

 

 

 

 


Ednalva e Wesley Gledson

 
“Deixar o meu filho foi muito difícil, mas eu tinha que
trabalhar para dar uma vida melhor para ele e dar os estudos”

Ednalva Nunes da Cruz, empregada doméstica

 


Depoimento de Ednalva Nunes da Cruz

 
 

Com o coração apertado, regressou para a grande São Paulo e lutou por um propósito ainda maior: vencer não somente por ela, mas também pelo seu filho. Ela diz que se tivesse criado o menino, faria diferente de seus pais. “A gente se dá bem, mas o meu filho é muito diferente do meu jeito de ser pela criação que meus pais passaram para ele. E porque não acompanhei a infância e adolescência dele de perto não temos muita coisa em comum”, pontua.

Assim como Ednalva, muitos nordestinos migram para o sudeste em busca de uma nova perspectiva de vida. Segundo o IBGE, o estoque de migrantes das grandes regiões ao longo do tempo resultou em uma população de 17,8 milhões de pessoas residindo em uma região diferente daquela em que nasceram.

A maior parte era composta de nordestinos, com 9,5 milhões de indivíduos, que corresponde a mais da metade (53,6%) do total dos não naturais vivendo em outras regiões. O Sudeste foi a principal região de residência desses indivíduos, onde habitam 66,6% dos nordestinos que viviam fora do Nordeste.

Ao chegar na grande São Paulo, Ednalva trabalhou como empregada doméstica. Ela diz que o seu sotaque nordestino nunca foi motivo de discriminação. “Nenhum paulistano foi preconceituoso comigo, pelo contrário, fui muito bem acolhida aqui”, destaca.

Para Ednalva, a principal qualidade de uma mulher sertaneja é a garra. Lutar pelos sonhos em meio à escassez é um exemplo. Ela ressalta que não importa se a mulher vive na roça ou na cidade: “se tem sangue sertanejo ela batalha e dá o melhor de si para sua família”. Além disso, afirma que estas mulheres não esquecem suas raízes e nunca deixam que mudem seus valores.

 

 

 

 


Wesley Gledson, atualmente com 21 anos

 
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Linda Sertaneja

Em uma manhã ensolarada de quarta-feira, o olhar sereno e o sorriso nos lábios são como adereços da hospitalidade da doutora em Comunicação Lindinalva Silva Oliveira Rubim, 60 anos, que assina seu nome “de guerra”, como ela mesmo diz, Linda Rubim. Ela decidiu abrir o coração e falar sobre a mulher sertaneja.

Da varanda de sua casa, que mais parece um celeiro cultural, o diálogo fluiu e Linda contou sobre a sua trajetória acadêmica. Pesquisadora na área comunicacional com ênfase em cinema, televisão, gênero e representações, ela abordou assuntos como o conceito de sertanidade, os estereótipos da mulher do sertão e a representação da figura feminina sertaneja no cinema, sendo o último tema, especialidade de Rubim. “Frequentei a Universidade na década de 70, época que a Bahia vivia um momento intenso no cinema”, relata.

Aos 14 anos, migrou do Sertão de Juazeiro para a capital baiana em busca de condições melhores de educação. Antes de adentrar no universo da comunicação, a pesquisadora cursou Direito. “Sempre fui boa em redação, tinha uma imaginação incrível. Para desgosto de meus pais, abandonei o curso de direito e acabei fazendo comunicação”, revela.

Com o passar dos anos, descobriu que estudar a identidade da mulher sertaneja era aprender um pouco mais sobre ela mesma. Segundo a pesquisadora, a sertanidade é fluida e imprecisa, possuindo peculiaridades que implicam em múltiplas visões indefinidas e simbolizam a nação brasileira, fruto da miscigenação de diversos povos.

Segundo Rubim, o cangaço é usado como fonte de fortalecimento do senso comum da sociedade acerca das mulheres sertanejas. Para ela, essas mulheres são retratadas na mídia de forma genérica e repleta de estereótipos, como “muito rudes, brabas, e sofridas”, diz.

 

 

 

 

 


Linda Rubim, em sua biblioteca particular

 
 


Linda Rubim fala sobre a sua trajetória como pesquisadora das mulheres sertanejas

 
 

Bata de feijão, alegria da colheita

A “bata de feijão” é uma tradição da zona rural em Coração de Maria. Depois de colhido, o feijão seco é batido, geralmente pelos homens, para que os grãos saiam da vagem.

Normalmente, as mulheres ficam com a tarefa da “biatagem”, atividade de catar os grãos e retirar a sujeira usando uma grande peneira ou arupemba. Quando todo processo termina o feijão está pronto para ser consumido e vendido.

Apesar de ser um trabalho, a “bata de feijão” também é uma celebração regada pelo canto dos sertanejos e sertanejas da região.

Partitura
BATA DE FEIJÃO
“Ô Bata de Feijão
Se acaba aquela já
Os homi pra bater
As mulé pra biatar”
O RIO TÁ CHEIO
“O Rio tá cheio eu não posso passar
Mamãe tá presa do lado de lá
Não me importo que o peixe me coma
O amor de mamãe eu não posso deixar”
A BARQUINHA DE NOÉ
“A barquinha de Noé, ô Noé!
Por onde tu andou, ô Noé!
Três dias que saiu
Até hoje não chegou
Deu um tombo, ela gemeu
Do gemido que ela deu
Chegou na pedra parou, ô Noé!”

Cante com as sertanejas as canções que embalam a tradição.


Mixado por Netinho Stúdio

Mixado por Netinho Stúdio
 
 


Depoimento de Eunice Maria Virgem de Brito

 
 

Forte no trabalho e na fé

Aos 80 anos, Eunice Maria Virgem de Brito é uma inspiração diária. A cada diálogo é possível aprender algo novo, daqueles ensinamentos que nenhuma faculdade consegue dar. O riso frouxo é marca registrada dessa pequena grande mulher que, com um metro e meio de altura, esbanja simpatia durante a prosa. A voz firme não passa despercebida e indica vitalidade na fase mais avançada da vida.

Companheira desde cedo da enxada, Eunice morou durante muitos anos na zona rural de Elísio Medrado, distrito de Amargosa, a 240km da capital baiana. Ela escolheu plantar sementes de esperança e amor na expectativa de uma colheita farta. Mesmo com a falta da chuva para regar a plantação, tinha fé que os frutos brotariam. E eles nasceram. Ao todo, foram oito filhos.

Mesmo sob a pobreza e precariedade de uma vida na roça, Eunice sempre estava disposta a partilhar o pouco que tinha. Para ela, a mulher sertaneja tem um grande coração, é corajosa e sabe enfrentar a vida. Eunice diz não ter medo de nada, segundo ela, diferente das mulheres da cidade, a sertaneja é assim.

Para diminuir o fardo de viver sob condições tão precárias, casou-se aos 16 anos com Balbino Domingos de Brito, já falecido. Naquela época, quando soube que estava grávida de gêmeos, quis homenagear São Cosme e Damião, batizando os filhos com os nomes dos santos. Na hora do parto, foi surpreendida ao descobrir que um dos bebês era menina. Mesmo assim, não quebrou o voto. Batizou os filhos como Cosme e Damiana.

Hoje, Eunice se orgulha da garra e da fé que possui. Para ela, essas são características indispensáveis para a formação de uma família forte e feliz.

 

 

 

 


Terço da Capela de Nossa Senhora da Conceição de Bento Gonçalves, local onde nasceu a cidade de Coração de Maria

 
 


Poesia em homenagem as mulheres de Coração de Maria. Escrita por Elaine Silva e narrada pelo Matuto Poeta Matheus Boa Sorte