Batekoo: Especial de dois anos

Bate o quê?

Por Aline Paim

Já era um pouco tarde e a luz da lua deixava tudo mais vibrante naquela noite. Era a minha primeira vez na Batekoo e estava muito ansiosa para estar na festa, principalmente naquela edição que comemorava dois anos. Logo que cheguei e vi a fila enorme que estava formada, minha ansiedade só aumentou. Antes mesmo do portão abrir eu entrei para conhecer o local. Nunca tinha estado na Residência Universitária da UFBA. Na verdade não costumo frequentar o Corredor da Vitória, então era tudo novo para mim.

Lembro da minha primeira reação sobre a Batekoo. Assim que uma amiga me falou sobre a festa fiquei curiosa. O nome era tão diferente que causou estranheza. E era para causar mesmo. Pesquisei no Google e a primeira matéria que abri foi do Estadão (jornal Estado de S. Paulo) e fiquei fascinada. A diversidade de cores nas fotos me chamou a atenção de cara.

A Batekoo surgiu sem intenção de ser o que ela é hoje. Depois de conversar com algumas pessoas que frequentam a festa, percebi que todas falavam sobre a necessidade que sentiam de um evento como este em Salvador. Eu não entendia essa necessidade, até porque os ambientes que costumo frequentar são totalmente diferentes da Batekoo. As festas? Pink, Zero, Skull... essas baladinhas que a maior parte dos jovens héteros estão, onde a maioria das mulheres usam salto alto, saia e vestido justo no corpo, os meninos vão de tênis, calça e camisas que variam das básicas às sociais. 

 

publico3Já na Batekoo todo mundo vai do jeito que se sente bem. Não existe um padrão nem um traje específico. Ninguém faz tipinho nem julgamento. As pessoas se misturam, se comunicam através da dança e respeitam uns aos outros. 

Foi só depois de conversar com as pessoas e estar ali que comecei a ver como este é um local em que quem vai se sente tão à vontade que nem quer ir embora.

Em uma conversa com Maurício Sacramento, um dos fundadores e produtores do evento, consegui compreender mais da proposta, intenção e qual a representação desse ambiente que eles criaram para os jovens negros e periféricos.

Tudo começou de repente quando o DJ, produtor e jornalista Wesley Miranda foi morar em São Paulo e, junto com Maurício, resolveu fazer uma festa de despedida e aniversário. A ideia era fazer da celebração uma festa onde além de se divertirem, poderiam se expressar e consumir mais da cultura e músicas negras, já que para eles não existiam “festas alternativas pretas” em Salvador.

"Uma festa negra foi o que sempre faltou e a Batekoo veio para suprir essa ausência de um projeto que representasse os pretos e abordasse ritmos negros como Rap, Hip Hop, Funk, ritmos periféricos e Kuduro. Eu e muitos jovens negros não conseguíamos encontrar formas de consumi-los em Salvador", me explica Maurício Sacramento, que acredita que é difícil para a sociedade aceitar os negros, principalmente periféricos, por classificar o preto como “sujo e abusado”.

Foi então que os amigos resolveram transformar a festa privada em um evento aberto e nomeá-la inicialmente de “É Treta”. Logo na primeira edição já era possível ver como a festa conquistou seu público-alvo, que acabou abraçando não só os negros e periféricos, como também as mulheres e o grupo LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros).

Essa diversidade do público foi outra coisa que me fez gostar da Batekoo, mesmo tendo um pouco de receio por nunca ter frequentado um lugar com um grande número de gays e lésbicas.

BEIJO

Qualquer tipo de preconceito que tinha foi totalmente desconstruído dentro da Batekoo. Nunca fui a uma festa onde me senti tão respeitada pelos homens e mulheres presentes.

Sabe aquele estigma de que as lésbicas e bissexuais não respeitam, puxam e beijam mesmo sem nem querer perguntar se você está ou não afim? Em nenhum momento eu vi isso acontecer, muito menos por parte do sexo masculino. 

Eu via como as pessoas entendiam que, apesar do evento ser uma diversão, também há toda uma construção de pensamento da luta pela igualdade de raça e gênero, respeito e feminismo. Então quebrar esse discurso nem passa pela cabeça de quem a frequenta.

Cada vez que o evento se repetia os organizadores enxergavam como os jovens estavam se sentindo representados e encontraram na festa uma forma de se expressar e expor a sua revolta pelas sequelas socioculturais e econômicas deixadas pelo período da escravidão. Esse foi o ponto chave para o diferencial da Batekoo: representação.

Eu tenho amigos que hoje afirmam o quanto foram influenciados pela Batekoo, como a festa os ajudou e como é positivo para eles ver o negro em destaque, o que ainda é muito difícil nos dias atuais. Também sou negra e sei como a gente ainda luta para conquistar espaço na sociedade.

Ainda em conversa, Maurício me contou que na segunda edição os organizadores gravaram um vídeo de divulgação que bombou na internet. A partir daí eles ganharam muita repercussão no mundo online e muita gente ficava chocada com o nome e ao mesmo tempo admirada pela quebra de tabu que é ir para uma festa nomeada Batekoo.

A intenção dos produtores era dar um nome à festa a festa com algo que eles gostavam de fazer, que nesse caso foi bater as nádegas no chão, então surgiu o nome Batekoo.

A estranheza proposital deu certo. Foi com a divulgação feitas nas redes sociais que surgiram os pedidos de pessoas negras de outros estados para levar a festa para as cidades deles. 

Hoje a Batekoo é feita em São Paulo e Rio de Janeiro, também está se fixando em Brasília e sendo realiza edições em Goiânia, Belo Horizonte e agora em Recife. Ainda sim muita gente ainda não conhece a Batekoo ou já ouviu falar, mas não sabe do que se trata.

A Batekoo é uma festa voltada para o público feminino, negro e LGBTT, e é considerada pelos organizadores e público um ambiente de libertação e representação das minorias através da dança, música, corpo e estilo. Não é à toa que a festa se tornou marca nacional de valorização da cultura jovem afro, periférica e LGBTT no Brasil.

Mesmo sendo um evento forte em Salvador, onde nasceu e mais aconteceu, a realização da Batekoo, como conta Maurício Sacramento, ainda possui dificuldades para encontrar locais para sediar as edições baianas, diferente de São Paulo e Rio de Janeiro, onde os organizadores conseguem fazer a festa rolar nas ruas, o que é impossível na noite soteropolitana.

"Nossa proposta ainda é enxergada mal por órgãos maiores, como a prefeitura, e a cidade não é tão rica em relação a cultura noturna e underground, o que nos impossibilita de fazer coisas maiores", desabafa Maurício.

Participante da batekooPara a organização da festa é muito importante valorizar e dar visibilidade aos artistas que são invisibilizados pela sociedade e pelo mercado musical no geral, aos ritmos negros e periféricos que são marginalizados.

O Rap no EUA, por exemplo, ainda é visto como som de preto em um tom ruim, no pejorativo, é como o funk aqui no Brasil que ainda é muito marginalizado, visto como “putaria”, música de baderna, mesmo sabendo que o funk é um ato de resistência, de liberdade, do pessoal da periferia, que consome e deposita a arte em suas músicas.

Diversos artistas como Nicki Minaj, Beyoncé, Carol Conka e Marcelo D2 batem no peito para afirmar sua negritude e lutam em prol da causa do feminismo, da representatividade da mulher negra no Rap, no Hip Hop e outras questões que vemos inseridas na Batekoo, como a luta LGBT.

Ainda em conversa com Maurício percebo como todas essas ações afirmativas de fazer música refletem muito bem na festa, pois o público quer pessoas que digam o quanto é bom ser preto, o quanto é bom ter cabelo crespo, uma boca grande, o quanto sofrem por isso, o quanto isso é visto como algo errado e o quanto eles vão continuar lutando para serem tratados com igualdade e respeito.

E não só nas músicas é possível ver essa luta e resistência. A cada minuto que estive na Batekoo percebi como cada detalhe é importante. Desde a escolha do local ao modo em que as pessoas se vestem, tudo é muito simbólico e representativo.

Nunca tinha estado em um lugar com tanta gente se afirmando, reafirmando e se libertando. Só presencialmente consegui entender o poder da Batekoo, que não é só a festa, não é só bater as nádegas no chão. É muito mais que isso. É poder ser quem quiser, como quiser e ainda assim ser bonito.

Sinta a sensação de estar na Batekoo


EQUIPE

Alana de Oliveira Almeida
alanaalmeeida11@gmail.com
IG: @alanaalmeeida

Aline Araújo Paim Sousa
alinepaimcomunicacao@gmail.com
IG: @linepaim
Bárbara Maria Santos Silva
baa.jornalismo@gmail.com
IG: @baah_maria
 
“Ver as fotos das edições, com tanta gente linda,
negra e poderosa, sempre me deixava pensando
sobre me libertar ”

Ashley, em seu blog Ashismo
 

Me aceite, se aceite

Nesses mesmos dois anos em que a Batekoo nasceu e se estabeleceu em Salvador, a estudante de Jornalismo do Centro Universitário Jorge Amado e blogueira Ashley Hawthorne, 20 anos, aceitou suas raízes negras. Ela que, descobriu a festa através de amigos, me contou que a Batekoo foi o primeiro evento com um discurso ideológico negro a que teve acesso.

Isso fez com que a festa virasse não só um espaço onde ela começou a se sentir pertencida como também um influenciador para aceitar sua herança cultural negra e liberdade estética. Mulher, negra e periférica, Ashley explica que, desde as primeiras edições da Batekoo tinha vontade de frequentar a festa, mas faltava coragem. Era medo de ser julgada pela família, pela sociedade e até por ela mesma.

Nessa época ela ainda estava descobrindo e adquirindo consciência sobre raça e gênero. Através dos posts nas redes sociais da Batekoo e do compartilhamento das fotos de cada edição produzida pelo evento, a jovem começou a pensar em se “libertar das tentativas de se encaixar no padrão eurocêntrico”, como li em seu blog Ashismos, num post antigo sobre suas referências no movimento negro.


Em depoimento, ouvir Ashely falar da sua experiência com a Batekoo foi encantador. Apesar de ter sido bem diferente da minha, a sensação de felicidade foi tão visível que por um minuto me coloquei no seu lugar, tentei imaginar tudo que passou até chegar aqui, se descobrir essa nova mulher, quanta força ela teve que ter para desconstruir o padrão que ela mesma se impôs por toda a vida.

Não só ela guarda essa alegria. Em uma entrevista especial ao Estadão, Maurício conta ao repórter Murilo Busolin que um dos destaques de toda a jornada da Batekoo foi quando “uma menina chegou em mim durante uma festa e me agradeceu bastante emocionada, dizendo que foi por conta da Batekoo que ela foi ler e procurar entender o que era o racismo, além de ter deixado o seu cabelo encrespar e conseguir desconstruir alguns preconceitos”.

Desde então Ashley passou a frequentar a festa, falar da sua negritude e incentivar outras pessoas a conhecerem a Batekoo por achar o evento muito importante como um movimento de expressão do povo negro, periférico, LGBTT e das mulheres. Hoje ela também é uma influenciadora negra dentro do evento.

“Eu fiquei muito feliz ao ser convidada para participar da roda de conversa especial de dois anos falando sobre a série Desta White People, que trata o cotidiano Sam White e outros jovens negros que estudam na Faculdade Winchester, formada por uma maioria de brancos. Eu não sabia que estava sendo notada nesse meio até receber o convite e isso foi muito importante para mim”, comemora.

Além de Ashley, outros jovens também foram ajudados pela Batekoo, como o outro estudante de Jornalismo da Unijorge, Andrey Oliveira, 22, que há dois anos também não sabia sobre raça e não se considerava negro. Apesar de sermos amigos, eu não sabia dessa sua história até na saída de um evento falarmos dentro do carro sobre Batekoo.

Para mim foi surpreendente ouvir toda uma história de resistência após encontrar sua identidade. Eu mesma nunca imaginaria que ele já passou por preconceito dentro de caso por conta do seu tom de pele, como o mesmo desabafou, relembrando as atitudes racistas de sua avó.

A Batekoo também foi referência nesse processo de construção de negritude para Andrey, que hoje também troca experiência com amigos negros, inclusive com Ashley. Ambos já se aceitaram, mas ainda estão em processo de aceitação na sociedade, principalmente Andrey, que também é gay, visto um elemento a mais para sofrer ataques verbais, pois a intolerância para esses grupos é sempre maior.

Ashley
 
 

 
 

Vestidos de si mesmos

Por Bárbara Maria

Assim que cheguei e vi a diversidade de pessoas e estilos na Batekoo fiquei encantada. Nunca vi um ambiente tão colorido por pretos. Para a maioria aquela cena era normal, mas para mim era uma novidade, mesmo já sabendo pelas fotos das redes sociais da festa e outras matérias que era isso que iria encontrar. Acho que quando a gente está lá tudo se torna mais real.

Desde peças mais simples às mais ousadas, as vestimentas que compõe a Batekoo são de total liberdade do consumidor.

A festa não impõe o que deve ser vestido, ela te deixa à vontade para usar o que quiser e se sentir bem, e eu particularmente adorei isso, pois até mesmo na hora de me arrumar para ir me senti confortável para usar um shortinho mais solto, uma blusinha mais simples e um tênis.

Nada de pensar em salto ou vestido colado, como é de costume para frequentar outras festas.

Estilo do públicoE foi o que realmente vi naquele ambiente. Tinha gente de roupa básica como shorts, regatas, blusinhas, croppeds, tênis e sandálias, assim como também vi muitas pessoas com os look mais trabalhados, como combinar uma calça destroyed com uma meia calça arrastão, camisas com frases empoderadas, bodys estampados, coletes jeans e bermudas, vestidos combinados com colete, jaqueta e tênis. 

Com isso, não pude deixar de reparar numa mulher que apareceu vestida com um body da mulher maravilha, meia arrastão por baixo da peça, bota preta e uma tiara de coroa de princesa na cabeça. Suas pulseiras douradas, uma em cada pulso, representavam os braceletes da mulher maravilha.

Não era carnaval nem festa a fantasia, mas o discurso pregado por ela ao usar aquela roupa estava claro: ela quis falar sobre igualdade de gênero, sobre como as mulheres também podem ser tão poderosas quanto os homens e não precisam aceitar só o que é imposto pela sociedade.

Outra coisa que notei foi a forte influência da moda de rua dos anos 90. O jeans estava presente em boa parte dos looks, assim como as roupas de cintura alta e transparência, tênis Adidas/Nike, cropped, chinelo slide, gola de camisa social masculina em vestidos e blusas, sobreposição de vestido em cima de camisa, tons mais claros como rosa pastel, penteados como maria-chiquinha alta ou com coque em cabelos cacheados e crespos, além das tranças. A referência dos looks de rappers americanos e do hip hop também faziam parte de algumas produções.

O que mais me fascinou é como cada produção dizia algo sobre a pessoa que a vestia. Elas reafirmavam sua cultura e características próprias através de suas roupas.

As peças sozinhas são normais, juntas elas formam um casamento de ideias, personalidade e empoderamento.

Foi então que comecei a perceber como a Batekoo refletia toda a identidade exibida em seus estilos, porque ali ninguém tem vergonha de se vestir de si mesmo.

É por causa dessa aceitação e liberdade que os organizadores conseguiram manter essa mistura do público-alvo e unir tanta gente em prol de suas causas negras, feministas e de gênero.

As cores são outro ponto forte nesse quesito de representação. Os tons neutros estavam presentes, como de costume em outros ambientes em que, geralmente, quando eu vejo alguém ousar na peça por ela já ser diferente, a pessoa prefere não ousar na cor. 

Mas também havia muita combinação do neutro com o colorido e as roupas mais ousadas, como também as cores mais claras, como o rosa pastel e o azul bebê, que eu não via ser tão usadas por negros, mas que passou a ser investido desde a repercussão de Karol Conka na mídia, o crescimento de influenciadores digitais negros como Magá Moura e a explosão da Afropunk.

O mesmo aconteceu com os tons vibrantes, como amarelo, laranja e vermelho. E as cores não estão apenas nos panos das roupas, mas hoje já tomam conta dos cabelos, seja qual for seu tipo, desde alisados à crespos e trançados.

As maquiagens também não ficam de fora. O que vi por muito tempo foi as pessoas ousarem nas sombras, sempre usando a maior diversidade possível de cor. Mas agora isso também é feito nos batons, nos rímeis, lápis de olho e até mesmo blush, o que acaba chocando quando usado por um negro que sempre ouviu que aquilo não combinava com seu tom de pele.

Acessórios também estão vindo cada vez mais coloridos e chamativos. Brincos com tamanhos grandes, formatos diferentes como rostos, frutas e pompons, estão sendo os queridinhos da vez.

Gargantilhas, anéis com pedras, pulseiras com bastantes pingentes, lenços coloridos, xuxas de cabelo, pochete e adesivos de unhas com estampas de bichos são outros itens que complementam as produções desses jovens negros.

No decorrer da festa só ficava mais claro a importância de um evento como esse na construção da identidade negra contemporânea.

Tantos jovens com estilos diferentes em um único local só mostrava e ressaltava naquele momento que não existe nada mais belo do que a autoaceitação.

Passar uma noite ali já permite que qualquer pessoa se sinta à vontade para sair da sua zona de conforto, ou desconforto, que é imposta diariamente pela mídia e pela sociedade.

Isso é muito bom porque durante muito tempo deixamos de sermos nós mesmos para nos encaixar nos padrões impostos pelo homem branco como cabelo bom só ser o alisado, nariz bonito só o fino, boca bonita é pequena não a carnuda. 

Então nos libertar não é só um alívio como também uma vitória. Quebrar esses discursos do belo e mostrar na prática que a diversidade existe, deve ser respeita e é bonita sim, é feliz, emocionante e encantador.

Nessa construção a rapper Karol Conka se tornou grande referência estética e musical dentro da Batekoo como também uma grande personagem para a geração tombamento - o grupo de jovens negros que utiliza das características físicas negras e das suas vestimentas para quebrar padrões de discursos empregados sobre o belo, buscar por igualdade racial e de gênero, respeito e proporcionar a si mesmo maneiras de romper as estruturas racistas, sexistas e homofóbicas que são ditadas por um sistema opressor.

O nome “tombamento” é a definição certa para representar os jovens com estilos tão diferentes que estavam naquela festa. Porque causar, tombar e chamar bastante atenção é a melhor forma de definir essa nova geração de pessoas estilosas, com uma vibe única e supercolorida. Geração essa que passou anos ouvindo que preto não pode ter cabelo colorido, como o loiro, que cabelo crespo é ruim, que os lábios são grandes demais, o "nariz de batata" é feio e que roupas com cores fortes e vibrantes não combinavam com seu tom de pele.

De festa a movimento

Esse formato de festa a movimento social negro veio surgindo ao longo das edições a partir do crescimento da Batekoo e da necessidade do seu público em ter voz e vez.

Por ser um ambiente democrático e de liberdade, os organizadores e os jovens que frequentam a festa viram na Batekoo a oportunidade de compartilhar suas vivências e mostrar ao povo branco e de classe média e alta que eles podem sim ocupar o lugar que quiserem dentro da sociedade, pois o tom da pele não dita seu potencial muito menos o faz diferente dos demais.

Só de a festa ser itinerante já é interessante para os organizadores. Eu acredito que, mesmo sendo melhor ter um espaço físico fixo, o deslocamento da Batekoo exerce um papel democrático e de auto aceitação muito importante para os que a integram.

Foi o caso de promover o evento na Residência Universitária da UFBA, no Corredor da Vitória, um espaço que comporta bastantes pessoas, o que automaticamente deixa menos gente do lado de fora, e, principalmente, pelo local estar localizado em um bairro dominado por uma maioria branca e de poder aquisitivo mais alto.

Por mostrar na prática que o preto e LGBTT’s podem estar onde quiserem eu acho um avanço e tanto.  Hoje, estar em alguns lugares é mais difícil, principalmente quando é em um bairro considerado nobre, onde o custo é alto, ainda mais para nós jovens com pouca condições financeiras.

Outra coisa que eu achei bem legal foi saber, em conversa com Jack Nascimento, DJ e atual produtor da Batekoo em Salvador, que quando eles trouxeram a festa para o Rio Vermelho foi abrindo espaço para outras festas com o mesmo propósito acontecerem lá. Tanto que a noite do Rio Vermelho é lotada de jovens, já que é possível se divertir gastando pouco e encontrar lugares alternativos, até mesmo paredão.

Além disso, reparei um grande diferencial nas redes sociais na disseminação e propagação de conteúdo e ações. A Batekoo não usa o facebook apenas para falar dos eventos que serão feitos, postar fotos e vídeos.

Eles compartilham links úteis para o fortalecimento do movimento negro como matérias que saem em jornais e revistas sobre a negritude. Vídeos que reforçam a vivência das minorias também são encontrados na página.

Outra coisa bem bacana são as festas voltadas para ajudar essa minoria. Em maio de 2017, junto com a festa Quebrança, a Batekoo realizou uma festa beneficente para ajudar jovens negros a pagarem o valor da taxa de inscrição do Enem, que antes era de R$68 e agora passou a ser R$82. Fora que, para ter isenção, não basta mais só ter o ensino médio feito em colégio público, também é preciso comprovar a renda familiar. Assim, é necessário apresentar o Número de Identificação Social (NIS), que permite identificar aqueles que estão cadastrados em programas sociais.

A Batekoo também tenta trazer sempre rodas de conversas para a festa, onde as pessoas possam compartilhar suas histórias. Nem sempre é possível, por conta de nem todo espaço comportar esse formato, mas os organizadores tentam sempre abrir esse espaço para apresentar pautas que permitam que o próprio público comece a entender mais do seu papel social, fale da sua luta diária e até mesmo passe a reivindicar cada vez mais os seus direitos.

Em Salvador, a Batekoo deu lugar, pela primeira vez, na edição especial de dois anos, que aconteceu no mês de julho de 2017, para o próprio público empreender dentro da festa.

Apesar de não poder ser algo frequente, já que o evento se mantém através dos ingressos da festa e das bebidas vendidas, foi muito bacana ver as pessoas trazendo seus trabalhos.

E, para mim, mais um ponto positivo é o valor acessível da festa. Sabemos que festa sempre tem um custo e dependendo do lugar, como Pituba e Barra, é um pouco mais alto.

Manter os ingressos numa variável de R$ 10 a R$ 20 acaba dando oportunidade de mais pessoas conseguirem ir, porque sabemos que há todo um gasto para chegar no local e comprar comida ou bebida.

Lutar pela mesma causa, fortalecer o movimento, abrir espaço com liberdade e abraçar a diversidade composta pelo público, é sem dúvidas o diferencial da Batekoo. Claro que vemos que a festa ainda está amadurecendo, ainda mais por estar ganhando proporção ainda maiores. Mas já é bom ver que novos espaços vêm nascendo com a Batekoo para que nosso povo negro, periférico e LGBTT tenha cada vez mais acesso ao que é oferecido na cidade.

 
Uma festa negra foi o que sempre faltou
em todos os lugares
e a Batekoo veio para suprir essa ausência

Maurício Sacramento, produtor e organizador da Batekoo
 

Nos batuques dos negros

Por Alana Almeida

E se é para tombar, a Batekoo tomba. Não só na estética marcante como também nas músicas que possuem letras fortes, empoderadas e de valorização do povo negro, periférico e das mulheres. É bem como diz a rapper Karol Conka em sua canção “Tombei”, hit bastante tocado na Batekoo, que inclusive já trouxe a cantora para se apresentar em uma de suas edições feitas aqui em Salvador.

Baguncei a divisão, esparramei
Peguei sua opinião, um, dois, pisei
Se der palpitação, não dá nada, conta até três
Negrita de Lacaia Carla que samba no bass

Se quiser conferir, vem cá, pra ver se aguenta
Miro muito bem, enquanto você tenta
Enquanto mamacita fala, vagabundo senta
Mamacita fala, vagabundo sente

Depois que o alarme tocar
Não adianta fugir
Vai ter que se misturar
Ou, se bater de frente, perigo é cair

Já que é pra tombar
Tombei
Bang bang

(Trecho da música Tombei, de Karol Conka e Tropkillaz)

Gif de dança

Só precisei presenciar uma canção sendo tocada para ter certeza de que a música é realmente o principal elemento da Batekoo. É através dela que as pessoas se comunicam dentro da festa, se expressam e saem de lá com uma bagagem de conhecimento a mais. Digo isso porque em algumas horas é possível descobrir novos ritmos e artistas, que muitas vezes não possuem destaque na mídia, por isso não são conhecidos por uma maioria, como eu mesma não sabia quem eram.

Foi o caso da cantora de rap Tássia Reis. Nunca tinha ouvido sua música “Ouça-me”, mas o som é tão arrepiante que tive que procurar mais sobre suas composições.

Olha só essa letra de afirmação e enaltecimento da estética preta: A revolução será crespa/ E não na TV/ A revolução será crespa/ Doa a quem doer/ A revolução será crespa/ E você pode crer/ Não podem conter.

Por um minuto fiquei parada admirando aquela cena que embalada pelo som de preto,como eles mesmo nomearam, motivava a auto aceitação.

Não era um ritmo tão dançante quanto os próximos que viriam, mas os jovens presentes se identificavam tanto com a letra e cantavam como se quisessem libertar toda repressão.

Mas assim como alguns artistas eram novidades, outros são bastante conhecidos e estourados como Marcelo D2, Beyoncé, Rihanna, Nicki Minaj, Ludmilla, Anitta e Pablo Vittar. E todos eles são ícones de representação negra, periférica, feminina e LGBTT. 

Não é por acaso que sempre estão presentes nos repertórios do evento e suas músicas são bem recebidas pelo público que lota os espaços onde a festa acontece.

Você prepara, mas não dispara
Você repara, mas não encara
Se acha o cara, mas não me para
Tá cheio de maldade, mas não me encara

Você já tá querendo e eu também
Mas é cheio de história e de porém
Virou covarde, tô com vontade
Mas você tá demorando uma eternidade

Se você não vem, eu vou botar pressão
Não vou e esperar, tô cheia de opção
Eu não sou mulher de aturar sermão
Me encara, se prepara
Que eu vou jogar bem na sua cara

(Trecho da música Sua Cara, de Anitta, Pablo Vittar e Major Lazer)

 

Outra música que roubou a minha atenção foi “Elas Gostam”, grande sucesso do Psirico e Àttooxxá. Esta faz parte da minha playlist e eu gosto bastante. Nunca pensei que a ouviria ali, mas não é que depois que tocou fez mais sentido... 

Além de representar a periferia, a letra retrata uma realidade vivida por nós mulheres que gostamos de usar shortinhos curtos, mas que somos muito taxadas pela sociedade e, ainda mais pelos homens, por conta de uma peça de roupa, e lá na Batekoo não há isso. Nossa liberdade sexual existe e é respeitada. 

Tá de shortinho
Bem coladinho
Tá bem safado
Descaradinho

É, mas elas gostam de causar
Com seu shortinho
Muitos acham até vulgar
O seu perfil
Elas gostam
Elas gostam

Tô nem aí
Tô afim de olhar
A polpa da bunda
Olha a polpa da bunda
(Polpa da bunda
Olha a polpa da bunda)

 

(Trecho da música Elas gostam, de Psirico e Àttooxxá)

Isso me lembrou muito de uma música que não ouvi tocar lá, mas que com certeza deve ser uma referência na festa. “Respeita as Mina”, de Kell Smith, que além de ter uma letra empoderada e feminista, tem um clipe fantástico que mostra em três minutos o que passamos diariamente.

Vale relembrar um trecho que diz assim: Respeita as mina/ Toda essa produção não se limita a você/ Já passou da hora de aprender/ Que o corpo é nosso nossas regras/ Nosso direito de ser

Entrando na dança

Por falar em corpo, os corpos suados na pista de dança, os movimentos sensuais e os coros durantes as canções só reforçavam o quanto a música e dança também são um ato de resistência ao sistema opressor no qual vivemos. E não vou mentir, estava me sentindo cada vez mais pertencida a Batekoo e foi isso que vi na expressão daqueles jovens.

É que a música tem esse poder de explodir sensações e sentimentos em quem a escuta e compõe, além de ser capaz de representar uma determinada cultura, no caso da Batekoo, a cultura afro.

O frescor da noite foi engolido pelo calor humano, mas isto não parecia incomodar o público embalado pela playlist exclusivamente negra e periférica, oriunda dos ritmos como blues, soul, jazz e R&B. Quando percebi também estava sendo levada pelo repertório da Batekoo, que conseguiu misturar funk, trap, rap, twerk, pagode, hip-hop e kuduro em frações de horas. Onde é que encontro isso em Salvador? 

A Batekoo propaga este cenário musical representado por figuras negras, periféricas e também LGBTT’s, que fazem das suas dores uma arte e da arte um ato de resistência. Ela valoriza e dá visibilidade a esses artistas que ainda sofrem com o discurso de marginalização imposto pela sociedade que julga, por exemplo, o funk como “putaria”, o pagode como “baixaria” ou música de preto.

Isso só reforça que, além de festa a Batekoo pode ser um espaço democrático, de representação, expressão, liberdade, livre de preconceito, racismo, homofobia, machismo e violência.

Este é um movimento negro e de empoderamento que vem ganhando força em várias cidades, atingindo cada vez mais jovens negros e periféricos, e se fortalecendo na noite soteropolitana.

Fique por dentro


Os produtores da Batekoo tentam realizar a festa, pelo menos, uma vez ao mês nas cidades onde se fixou, como Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e agora Brasília.

Os valores vão de R$ 10 com comprovante de estudante, a R$ 15 com nome na lista, que é feita na página do evento, e R$ 20 sem nome na lista.

Os horários também são alternados, mas o mais comum é começar a partir das 23h.

Como a festa é itinerante, para saber todas as informações das edições que vão ocorrer são feitas páginas dentro do grupo do facebook da Batekoo (facebook.com/batekoo/). Além dessa rede social, a divulgação do evento ocorre através do instagram (@batekoo), onde já possuem 12 mil seguidores, e pelo site oficial da Batekoo (batekoo.com/).