Robson do Val

Coluna do Sudoeste - 19/11/2017

Zona Azul – Salvador x Vitória da Conquista

No princípio era o caos. A gênese da Zona Azul de Vitória da Conquista foi antecedida por uma situação caótica em relação à disponibilidade de vagas no centro da cidade. A instalação dos totens eletrônicos, através dos quais, com o auxílio de moedas ou de um cartão magnético, o usuário podia pagar pelo tempo de utilização das vagas, veio colocar um mínimo de ordem na bagunça.

Quando a população já estava se acostumando com o novo sistema, veio uma eleição municipal e com ela uma mudança de partido no poder; saiu o PT e entrou o PMDB. Como quase sempre ocorre na politicagem mesquinha praticada no Brasil, prefeito eleito pela oposição, vê com maus olhos as iniciativas do antecessor que deram bons resultados. Na cultura brasileira provinciana da terra arrasada, não é bom que obras de sucesso do prefeito anterior fiquem funcionando como um foco de saudade daquele que se foi.  

Resultado: a nova gestão, da noite pro dia, desconsiderando o alto investimento em equipamentos da recém criada Zona Azul conquistense, chutou o pau da barraca, botou defeito no contrato, e desativou os tais dos totens.

As conseqüências poderiam ter sido bem piores, se o sistema implantado pela atual gestão, em substituição aos totens desativados, não tivesse se mostrado surpreendentemente eficiente.

 Agora basta o usuário contratar crédito pré-pago no sistema da prefeitura, informando a placa do veículo beneficiado, que ele pode estacionar em qualquer vaga da Zona Azul da cidade. O fiscal que se vire pra saber se ele tem crédito na placa ou não.

Quem baixa o aplicativo do serviço, nem precisa do fiscal pra fazer a recarga dos créditos. Pode fazer on-line no próprio celular. A única dificuldade acontece quando o motorista não tem o aplicativo e não consegue encontrar um fiscal pra fazer a recarga. Mas, justiça seja feita, isso raramente acontece.  

Enquanto Vitória da Conquista, apesar das disputazinhas políticas internas, consegue implantar um sistema satisfatório de operação das áreas de estacionamento do centro da cidade, a Zona Azul da nossa gloriosa capital, a velha Salvador dourada, continua tão cheia de vícios e defeitos, que em alguns aspectos beira o formato de uma organização criminosa.

Não faz muito tempo, em frente ao Elevador Lacerda, ponto turístico dos mais badalados da metrópole nordestina, um amigo flagrou um servidor da prefeitura lhe oferecendo uma cartela de estacionamento falsificada. A cópia era tão grosseira, com tinta borrada e tudo, que ele se viu na obrigação de denunciar a fraude ao órgão competente. O resultado da denúncia, até hoje ninguém sabe.

Na Avenida Marques de Leão, na Barra, com muita freqüência, os servidores da Zona Azul cobram o valor de R$ 6,00, equivalente à permanência por 4 horas, e entregam cartelas que valem R$ 3,00, valor cobrado para quem usa a vaga por apenas 2 horas. Quem será que fica com a diferença?

Muitos deles reutilizam cartelas que outros motoristas já usaram, adulterando os números já preenchidos. Isso quando não cobram “por fora” de alguns clientes, pra que eles deixem o carro na vaga por um tempo maior do que o permitido. O surpreendente é que quase todo mundo do bairro sabe que funciona assim.

No mesmo local, um funcionário que foi demitido pela prefeitura por cometer esse tipo de fraude, vive circulando a paisana, mantendo conversas suspeitas com os ex-colegas de trabalho, como uma espécie de coordenador informal da zona. Quem vê de fora tem a nítida impressão de que ele manda mais nos fiscais do que a própria prefeitura. Aí tem!

Resumindo o contexto da avaliação: Vitória da Conquista, que tem um décimo do número de habitantes de Salvador, que implantou a Zona Azul muito tempo depois, conseguiu fazer funcionar um sistema que é muito superior ao da capital. Neste caso, o sertão está dando um show, não só de tecnologia, mas também de ética e de cidadania.