Robson do Val

Coluna do Sudoeste - 03/09/2017

Os cegos no comando

Não faz muito tempo que recebemos a informação de uma fonte ligada ao Tribunal de Contas dos Municípios, de que mais de 90% das contas das prefeituras baianas são rejeitadas ou aprovadas com restrições.

O mais surpreendente nesse dado, não é o número de rejeições e restrições, mas sim o principal motivo que leva a esse desastre contábil.

A primeira coisa que nos vem à cabeça, com a epidemia de desvios e a roubalheira generalizada que assola o país, é imaginar que os problemas nas contas municipais estão associados a essas práticas ilícitas.

Na verdade o que tem levado o TCM a reprovar as contas dos prefeitos baianos, na maioria dos casos, são os erros técnicos no preenchimento de formulários. Traduzindo: a incompetência dos gestores para lidarem com a coisa pública.

Queda-se perplexo o cidadão minimamente lúcido, diante da seguinte questão:

- O que é pior? Entregar a sorte de nossas cidades a espertalhões que se dedicam a surrupiar os recursos que deveriam ser destinados a promover o benefício geral, ou a analfabetos funcionais que promovem vôos cegos na administração, desperdiçando o essencial por pura ignorância?

Os números do TCM não mentem; mais de 90% das prefeituras estão sujeitas a uma dessas duas realidades. Cruz ou espada? Fogo ou frigideira? Ladrões ou incompetentes? E quando o incompetente resolve ser também ladrão?

Esse quadro deixa bem claro que a degradação generalizada da educação formal da população brasileira acabou gerando mais um problema além da crise ética. Agora temos que admitir que, os poucos bem intencionados, se é que realmente existem, receberam uma formação escolar tão pífia, que estão impossibilitados, por pura ignorância, de por em prática, de forma eficiente, as suas supostas boas intenções.

Pela lei brasileira, basta saber escrever o próprio nome e rabiscar uma meia dúzia de frases simplórias, para estar habilitado a se candidatar a prefeito e assim administrar o destino de uma população inteira. Ou ainda para ocupar uma cadeira do legislativo e opinar na formulação das nossas leis. O que de bom e produtivo poderia sair daí?

Permitam-me o neologismo em latim, mas a quantidade de doutores “desonoris causa” ocupando cargos eletivos pelos quatro cantos do país, não é brincadeira. Cegos do saber conduzindo multidões.

O mais grave nesse nó górdio em que se meteu a sociedade brasileira, é que cabe justamente a esses cidadãos despreparados, a missão de elaborar e executar um projeto educacional eficiente, que possa nos tirar dessa situação vexatória e com prognóstico cada vez pior. Não é pouco conhecida a teoria de que os idiotas se reproduzem em muito maior número e muito mais rapidamente do que os sábios, por desconhecerem, inclusive, as vantagens de um bom planejamento familiar.

No meio disso tudo, é justo ressaltar a importância da iniciativa da UPB – União dos Municípios da Bahia – que realizou em Vitória da Conquista, na semana passada, mais uma etapa do projeto denominado UPB Itinerante, que conta com o apoio dos técnicos do TCM, e que tem justamente o objetivo de esclarecer os prefeitos baianos e os seus respectivos auxiliares, sobre a mais básica de suas tarefas: como aplicar os recursos corretamente e depois preencher os formulários de prestação de contas.

A UPB organiza, anualmente, 10 edições desse evento, nas diversas regiões do estado, visando atender a todos os municípios. Em Vitória da Conquista o evento aconteceu no auditório de CEMAE, e reuniu gestores dos municípios do sudoeste baiano.

É ficar na torcida para que iniciativas como essa, que por enquanto são como pingos d’água em um grande incêndio, possam produzir gestores cada vez melhores, capazes de promover, entre outros benefícios, uma educação pública de melhor qualidade.

Não podemos esquecer de que é unicamente pelo voto que podemos começar a mudar essa realidade de ignorância generalizada. Portanto é preciso qualificar, não só os gestores, mas, principalmente, os eleitores.

Complementando um pensamento muito conhecido do pré-modernista Monteiro Lobato: quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê... E vota pior ainda. Não acredita que é assim? Pergunte ao TCM.