Robson do Val

Coluna do Sudoeste - 28/08/2017

ECAD – Quase ninguém curte e poucos compartilham

Em mais de 20 anos de trabalho como jornalista, tendo contato com os representantes mais anônimos ou mais proeminentes da nossa tão maltratada música brasileira (vide o que toca nas rádios hoje), não conheci um músico sequer, que tivesse uma palavra elogiosa em relação a essa hermética e antipática instituição chamada ECAD.

A sigla esconde uma nomenclatura pomposa: Escritório Central de Arrecadação e Distribuição. Esse elefante branco, hoje todo sujo de lama, nasceu em 1973, como instituição privada, protegida por Lei Federal, para ter o monopólio da arrecadação dos direitos autorais dos músicos brasileiros, quando suas canções são executadas em espaços públicos.

Demorou um pouco para que os artistas começassem a perceber que, o que é arrecadado, quase nunca é repassado a quem tem direito legítimo. Ou seja, o que deveria chegar para o músico através do ECAD, acaba ficando por lá mesmo ou é desviado para destino ignorado.

A retenção oficial dos tais “gestores” do ECAD, para sustentar a sua estrutura suspeitíssima, deveria ser de 15% do total arrecadado em nome dos artistas. Conversei, pouco antes de escrever este artigo, com pelo menos três músicos de renome, que nunca receberam um tostão sequer do que foi arrecadado em nome deles.

O Cantador Xangai, por exemplo, que tem canções memoráveis executadas com freqüência nas rádios do país inteiro, como Matança (Jatobá) e Estampas Eucalol (Hélio Contreiras), nunca viu a cor de um centavo repassado pelo ECAD.

- Para que o artista receba alguma coisa do ECAD, ele tem que se filiar a uma entidade de classe, que é mais um intermediário no processo, e que acaba ficando com outra parcela significativa – se queixa o cantador – A burocracia parece proteger uma estrutura criada para beneficiar um monte de intermediários aproveitadores. Quem menos se beneficia é o artista – desabafa Xangai.

Há tanto cheiro de podridão nesse sistema, que em 2011 foi realizada a quarta CPI do ECAD, sugerida pelos senadores Lindemberg Farias e Randolfe Rodrigues, para investigar a evidente falta de transparência do órgão. Depois de muito esperneio por parte dos “ecadistas juramentados” que não queriam perder a boquinha, os parlamentares conseguiram, pelo menos, que o órgão passasse a ser supervisionado pelo Ministério da Cultura.

Não ajudou muito. O dinheiro continua não chegando para a maioria dos artistas. Além disso, não podemos esquecer que, no Brasil, ministério, seja ele qual for, também é uma instituição cercada de suspeições. Ainda mais quando estamos falando de uma arrecadação de mais de meio milhão de reais por ano.

Vejam um exemplo real dos absurdos promovidos pelo ECAD: um hospital de Vitória da Conquista quis botar televisores para que os seus pacientes tivessem um pouco mais de conforto. Os representantes do ECAD souberam (quando é pra cobrar eles sempre sabem), fizeram uma visita à unidade de saúde, e calcularam que teriam que receber mais de R$ 5.000,00 por mês, para que autorizassem a instalação dos aparelhos.

Outro exemplo, na mesma cidade: um laboratório instalou um sistema interno de rádio para tocar músicas na sala de espera. O ECAD calculou quanto isso lhe renderia por metro quadrado (é isso mesmo; medem a arrecadação por metro) e passou a conta. O dono do laboratório entrou na justiça. Perdeu na primeira instância, ganhou na segunda e, recentemente, botou os fiscais do ECAD pra correrem quando tentaram uma nova investida vampiresca. A lei está do lado dele. Pelo menos até que um juiz amigo do ECAD analise o caso nas instâncias superiores e reverta a decisão da segunda instância.

Quem perde, de qualquer jeito, é sempre o artista. Quando o ECAD arrecada, não repassa. Quando proíbe a execução da música porque não recebeu, o artista deixa de ser tocado e some da mídia.

Em um momento em que o país está revirando a lixeira dos seus valores éticos, principalmente na política e nas relações coorporativas, não seria pedir muito a reciclagem desse chupa cabra chamado ECAD, ou mesmo a sua extinção, para o bem de quase todos, e felicidade geral da canção. 

O festival dos nomofóbicos

Nomofobia. Esta é a expressão criada para definir um novo tipo de doente: o indivíduo que sente pânico de ficar desconectado. Aquele que realmente passa mal quando está longe do celular ou do computador.

Eles são vistos aos milhares nos estádios de futebol, tirando fotos de si mesmos (selfs), o que, aliás, é um dos passatempos prediletos dos que têm a mente atormentada por essa nova doença.

O nomofóbico é aquele sujeito que perde o gol porque estava filmando as próprias reações, ou enviando vídeos para um amigo, igualmente adoentado, que não pode vir ao estádio. Um misto de carência, vaidade e ostentação barata do tipo: “Olhem! Eu estava lá quando tudo aconteceu!”

Recentemente, em Vitória da Conquista, o parente de uma vítima de um acidente automobilístico grave lascou um catiripapo em um inconveniente que, em vez de tentar ajudar, começou a filmar tudo para colocar nas redes sociais. Qual dos dois praticou maior violência? O abutre tecnológico filmando os acidentados, ou o parente indignado com tal atitude?

Mas dificilmente algo superou em surto de nomofobia coletiva, o que presenciamos durante o show de Ivete Sangalo no festival de Inverno de Vitória da Conquista, na última sexta-feira. Em determinado momento, mais da metade do público (não é exagero) permaneceu de costas pra cantora, com a câmera do celular apontada para o próprio rosto.

Ivete, nesse contexto bizarro, era apenas uma pálida imagem ao fundo. Uma simples prova de que aquelas pobres criaturas estavam realmente no Festival de Inverno. Foi-se o tempo em que artista era atração principal do próprio show, ou que ajudar uma vítima de acidente era mais importante do que filmá-la morrendo para mostrar na internet.

Não foi sem motivo que Umberto Eco afirmou que: “As redes sociais deram...”. Quer saber o que ele disse? Veja na internet.