Robson do Val

Coluna do Sudoeste - 13/08/2017

De quem é esse jegue?
Lá pelos idos da década de 80 do século passado, o forrozeiro Genivaldo Lacerda, bradava nos versos de uma canção, uma queixa que ficou famosa na época: “De quem é esse jegue?... Ele quer me morder”.

Histórias pitorescas envolvendo animais de montaria, não faltam no sertão baiano. Certa feita, numa viagem que fiz a trabalho ao município de Campo Alegre de Lurdes, que fica na divisa da Bahia com o Piauí, fui testemunha de um desses episódios, que, de tão original, dificilmente aconteceria em outro lugar do mundo.

A população de jegues do município estava transbordando pelos canteiros e praças da cidade. A “jegaiada” faminta, não poupava nem as flores dos jardins das residências; bastava ter um raminho dando sopa e eles tascavam os dentões.

De índole naturalmente libidinosa, os bichos copulavam freqüentemente em via pública, para espanto e horror das respeitáveis senhoras paroquianas da cidade e de suas primas evangélicas igualmente conservadoras.

Na época me contaram que certo macho fogoso, numa perseguição implacável à fêmea, chegou a quebrar a vidraça de uma agência bancária do antigo BANEB. Depois de invadir o recinto, consumaram ali mesmo o ruidoso ato amoroso. O que equivale a dizer, que o “depósito” teria sido realizado literalmente na boca do caixa, para espanto dos clientes.

Era tanto jegue solto nas ruas, que não havia quem pagasse um tostão para comprar um. Eles eram dados de graça. Isso se o dono tivesse a sorte de achar quem quisesse. Na maioria das vezes nem tinham dono.

O prefeito da época, entre pressionado e preocupado com a explosão populacional dos animais, que caminhava a passos largos para assumir os contornos de uma calamidade pública, teve então uma ideia que considerou brilhante (mais tarde veremos que não era bem assim).

O chefe do poder municipal, querendo livrar a si mesmo e à sua população daquela praga de jegues que assolava praças e jardins, comendo tudo que encontrava pela frente e enchendo a cidade de bosta, fretou uma carreta, e mandou despachar pra fora dos limites de Campo Alegre, na calada da madrugada, os jegues que pôde capturar. O destino escolhido foi a zona rural do município piauiense de São Raimundo.

No dia seguinte, jegues ausentes, a sensação geral era de que o problema estava resolvido. Ledo engano. Na madrugada posterior, sem fazer questão do anonimato, o prefeito de São Raimundo revidou o golpe, e mandou para Campo Alegre, duas carretas cheinhas de jegues, com uma faixa enorme onde estava escrito: “Tomem os seus jegues de volta.” Voltaram os de Campo Alegre e , como bônus, os que estavam sobrando nas ruas de São Raimundo.

Vejam que naquela pequena cidade do sertão baiano, onde circulam pouquíssimos carros, o conflito entre o desenvolvimento e a presença dos animais de carga, já era um problema desde os anos 80.

Agora imaginem uma cidade como Vitória da Conquista, a terceira maior da Bahia, tendo que incorporar no seu sistema de trânsito, mais de 800 carroças que fazem parte da tradição da cidade?

É muito comum (e extremamente perigoso), vermos carroças, que circulam a menos de 10 km por hora, transitando tranquilamente em vias super movimentadas da cidade. Nestes momentos de tensão, perigo e manobras arriscadas, a sensação que temos é a de que o século XXI dialoga diretamente com o século XIX.

O que fazer? Tirar as carroças da rua? Isso seria desconsiderar que as carroças representam o meio de subsistência de quase 1.000 famílias que não teriam como sobreviver sem elas. Regulamentar os horários e as vias onde elas podem circular já seria um avanço. Se não resolvesse o problema, pelo menos diminuiria os riscos e os inconvenientes.

O que está valendo até agora, no entanto, é a lei mais praticada no Brasil, a do “Salve-se quem puder!” Recentemente, uma tentativa de interferência do poder público para amenizar o problema da sujeira que os animais que puxam as carroças deixam pelas ruas, virou piada nas redes sociais. A prefeitura sugeriu que fossem colocadas fraldas nos burros e cavalos. É claro que isso não foi adiante.

À tardinha, outro problema costuma aparecer na cidade: alguns carroceiros soltam os animais pra pastar livremente na urbe, no meio dos carros e transeuntes, como se estivessem na zona rural.  Esta semana deparei com um grupo de 5 cavalos no meio da rua ao dobrar uma esquina. Por sorte consegui desviar e evitar um acidente.

E vamos vivendo assim, desviando dos cavalos e da merda que eles espalham nas ruas. Este é o nosso Brasil! Do estábulo ao Planalto, tudo é quase sempre a mesma...

Conquistenses na Chapada
Vitória da Conquista, embora se destaque pela boa qualidade de vida dos seus habitantes, é uma cidade que praticamente não oferece opções de lazer na natureza. Não existem rios onde possamos tomar banho, lagoa de água limpa, monte pra escalar, e estamos a mais de 200 km da praia mais próxima (Ilhéus). Por conta dessa circunstância, é muito comum, nos finais de semana, ver conquistenses subindo a serra que leva à Chapada Diamantina.

Em menos de 3 horas, é possível se chegar a recantos cheios de atrações, como as cidades históricas de Rio de Contas e Mucugê, por exemplo, que, de quebra, ainda oferecem a opção de trilhas recheadas de belezas naturais.

Esta semana foi realizada a FLIGÊ – Feira Literária de Mucugê. Não deu outra: a maioria dos carros dos visitantes do evento tinha placa de Vitória da Conquista.

Quem foi visitar a FLIGÊ não se arrependeu. A programação foi distribuída por vários espaços da belíssima cidade histórica, que conserva os traços marcantes da época do esplendor do garimpo. 

Saraus, palestras, lançamentos de livros, apresentações musicais; tudo foi muito bem organizado durante o evento. Entre os destaques podemos citar o ciclo de palestras sobre o sertão de Canudos, que teve a participação de profundos conhecedores do tema, como os professores Sérgio Guerra e Paulo Neiva, e que culminou com uma apresentação musical magistral do cancioneiro Elomar Figueira, muito bem acompanhado ao violão pelo filho dele, o maestro João Omar.

Além de fomentar a cultura na cidade em alto nível, a FLIGÊ, está se consolidando como uma grande incentivadora da atividade econômica do município. Mucugê oferece opções variadas no campo da culinária, com diversos restaurantes e cafés, tem uma das melhores estruturas de hospedagem da Chapada Diamantina, além de ser ponto de partida para diversas trilhas.

A união da cultura com as belezas naturais, da culinária variada com a arquitetura do século XIX , cria uma atmosfera mágica, que renova as energias do visitante.