Robson do Val

Coluna do Sudoeste - 06/08/2017

Na calada da noite...

Multar quem comete infração de trânsito é uma prática amparada pelos artigos previstos no Código Nacional de Trânsito. Quanto a isso não há o que reclamar. Tal questão, no entanto, abre brechas para a relativização, em um cenário onde a deseducação geral que assola a população brasileira, transforma em criaturas toscas, não só os motoristas, mas também a maioria dos desenvolvedores de qualquer outra atividade que exija espírito de coletividade e noção de cidadania.

O sensato nas sociedades maduras é estimular a diminuição das punições, através da preparação do cidadão, que, por sua vez, bem orientado por um sistema de formação eficiente, não se sente tentado a transgredir as boas práticas.

Ocorre que, em nossa “engatinhante” célula social, as distorções não prejudicam somente a formação dos indivíduos para a cidadania, mas também, e de maneira ainda mais chocante, a relação de contrapartida entre direitos e deveres na teia social.

Temos um estado cada vez mais aparelhado para cobrar do cidadão, conforme a chamada “forma da lei”, qualquer mínimo deslize que ele por desventura venha a praticar. Assim é com o supercomputador da Receita Federal que cruza informações e identifica sonegadores, com o SERASA e com o SPC, misturando em seus cadastros, de forma fria e indiscriminada, estelionatários e desempregados, ou com o Tribunal Regional Eleitoral cancelando sumariamente os títulos de quem não se dispôs, em tempo hábil, a enfrentar a desrespeitosa fila para o tal recadastramento biométrico. Não faltam exemplos de “Nada lá, dê cá”.

Na contramão desse sistema eficiente de cobrança implacável, pacientes da rede pública de saúde, que pagam em dia os seus impostos, morrem nos corredores de hospitais lotados e mal aparelhados, crianças recebem uma educação capenga em escolas caindo aos pedaços e a falta de segurança pública permite que tenhamos um número de mortes violentas, maior do que na maioria das guerras em andamento no planeta.

Focando agora o olhar sobre a nossa aldeia, tem causado surpresa à população conquistense, a maneira como, da noite para o dia, o SINTRANS, órgão responsável pelo ordenamento do trânsito em Vitória da Conquista, tornou eficiente o sistema de aplicação de multas relacionadas aos carros mal estacionados na cidade.

Quanto à legitimidade das multas, como já disse, nada a contestar. O estranho, no caso, é ver os agentes de trânsito às 22h, em ruas semidesertas, pregando multas nos pára-brisas dos carros de motoristas ausentes. É um daqueles casos em que a aplicação da punição, embora amparada pela lei, parece se valer abusivamente da oportunidade, para aumentar o faturamento dos cofres públicos. Algo assim como o radar para flagrar excesso de velocidade, colocado estrategicamente logo depois de uma lombada, nas rodovias que todos sabem que ninguém dirige a menos de 80 km por hora, nem as viaturas da polícia.

Convenhamos: o objetivo primeiro da multa é inibir a prática da infração. Seria perverso imaginar que o poder público municipal está se aproveitando dos horários de maior distração dos motoristas incautos, para faturar alto em cima deles. Sensato, em nossa opinião, seria começar a combater esse mau costume de estacionar em local proibido, seja durante a noite ou à luz do dia, com uma ampla campanha de esclarecimento público,

mesmo que fosse do tipo: “Ou você se emenda ou nós vamos mexer no seu bolso”. Qualquer coisa que inibisse a prática da infração, e que, ao mesmo tempo, não deixasse a má impressão de que, como os bandidos, a lei está se aproveitando sorrateiramente das sombras da escuridão para se beneficiar à custa do cidadão.

O começo dessa “eficiência fiscalizatória noturna” do SINTRANS de Vitória da Conquista, coincide com a decisão desastrada que bagunçou o estacionamento no centro da cidade. Estamos nos referindo à inexplicável desativação dos parquímetros eletrônicos (que estavam dando conta da função de organizar a Zona Azul), por um aplicativo de celular que nem todo mundo quer (ou sabe) utilizar. Deu tanto problema, que a prefeitura resolveu cancelar os dois, o parquímetro e o aplicativo, e deixar todo mundo estacionar de graça. Perde o ordenamento do trânsito e cai, por pura barbeiragem administrativa, a arrecadação do município. Haja multa noturna para compensar!

Um dia, talvez...
Desde que começamos a trabalhar com a comunicação em Vitória da Conquista, há cerca de 3 anos, que se ouve a conversa (agora comprovadamente fiada) de que o Centro de Cultura será devolvido em breve à população da cidade.

O equipamento, um dos únicos espaços públicos para a difusão da cultura no município, sob responsabilidade da Secretaria de Cultura do Estado, foi interditado em 2013, depois que uma vistoria do CREA identificou falhas na estrutura do prédio que comprometiam a segurança do público.

Desde lá, entra diretor e sai diretor, o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima permanece em obras. Foi motivo de piada, inclusive, um concerto que teria sido realizado no sanitário, que posicionou a privada no meio do recinto, quando o normal seria encostá-la na parede. Os mais implicantes perguntavam: ”É uma privada ou uma instalação de arte moderna?” Na verdade era mesmo uma cagada da empresa responsável pela obra, que foi substituída por outra que se encarregou de colocar o vaso no lugar certo, mas que também não concluiu a obra.

No início deste ano, informaram que a devolução do equipamento ao público, em sua plenitude, seria no mês de outubro deste ano. Um grupo de teatro que ensaia nos bastidores do desativado Centro de Cultura chegou a anunciar a estreia de um espetáculo para marcar o glorioso momento. Mas eis que a procrastinação, prima irmã da ineficiência, se sobrepôs mais uma vez: dizem que agora só depois de dezembro. Como no caso do novo aeroporto da cidade, há quem acredite!

Onde o estado não chega...
Os relatos de quem tem que acompanhar um paciente internado no Hospital de Base de Vitória da Conquista são aterradores. Algumas vezes, sem exagero algum, os acompanhantes sofrem tanto ou mais do que os parentes internados.

Já ouvimos narrativas de pessoas que vieram somente para acompanhar alguém, e acabaram adoecendo porque não tinham o que comer ou como tomar um banho. Muitas dessas

pessoas vêm de outra cidade, por ser o Hospital de Base um Hospital de referência regional.

Se os pacientes internados recebem um tratamento precário, acomodados em macas improvisadas ou cadeiras nos corredores, os seus acompanhantes, por sua vez, não têm direito a uma mínima assistência. Ficou conhecido na cidade, o caso da senhora que morou por meses debaixo de uma marquise próxima ao hospital, para poder dar assistência a um parente internado.

Nos últimos 4 meses, essa realidade mudou um pouco pra melhor. É bom ressaltar, que essa melhora não tem a mínima relação com o poder público. Na verdade, a iniciativa partiu de um grupo de voluntários, que já trabalhava com assistência aos acompanhantes do Hospital de Base, fornecendo refeições gratuitas.

Esse grupo se mobilizou e criou uma instituição denominada Casa da Vida. Em seu curto tempo de funcionamento, a entidade já prestou ajuda a mais de 150 acompanhantes de pacientes do hospital. Um lugar pra dormir, refeições, lugar para tomar banho e lavar roupa, estão entre os serviços prestados pela instituição.

Na última sexta feira, a Casa da Vida foi apresentada formalmente à cidade em uma audiência Pública na Câmara Municipal de Vitória da Conquista. A instituição sobrevive exclusivamente de doações de particulares e dos serviços dos voluntários.