Karina Nery

Karina in Köln - Coluna de 30/07/2017

A hora de se desapegar das coisas (antes de ir morar na Alemanha)

Três de fevereiro foi o primeiro dia, oficial e combinado, em que eu e Beto começamos a empacotar nossas coisas e a dividi-las entre levar, guardar (para levar depois), guardar (deixando na casa dos nossos pais para deus-sabe-quando levá-las), doar ou vender.

Confesso que estava ansiosa por fazer isso e comecei muito antes desse dia oficial. Comecei o trabalho devagarinho desde que decidimos ir morar na Alemanha, muito antes até de qualquer confirmação do visto. Priorizei as coisas que, independentemente de nos mudarmos ou não, já não mais queríamos.

Nossa primeira experiência com o desapego foi quando pensamos em morar na Nova Zelândia e Beto foi na frente. Desde então, procuramos ser muito menos consumistas e comprar o necessário, mas este é um exercício diário que, às vezes, me leva para um ponto extremo, como, por exemplo, o de usar roupas mais gastas do que devia.

Mas talvez seja melhor do que o outro extremo, o de não comprar nada, não ir para o shopping (somente ao cinema e sair de lá correndo pra não ver nenhuma vitrine) e, em um determinado dia, entrar em uma Le Lis Blanc da vida, achar que sou rica, comprar tudo o que gostei e me endividar no crédito.

Desde então, nossa casa se esforça para ser minimalista. E, quanto menos decoração, melhor. Então, achava que arrumar as malas para essa grande mudança seria uma tarefa simples, já que não tínhamos tantas coisas assim e, muitas delas, já velhinhas e gastas.

Só que esse trabalho de abrir gavetas e closets e sair revirando tudo mexe não só fisicamente, com as caixas que temos de carregar ou fechar, como também emocionalmente, desenterrando o passado. Pelo menos só me trouxe lembranças boas.

Para acalmar o emocional, você dá um tempo para ler uma página do diário ou assistir a uma gravação e, para adiantar a parte prática, você já sai tirando fotos e pensando nos preços dos objetos a serem vendidos e postando no Facebook.  Mas isso estica muito mais o tempo, e uma tarefa que poderia ser feita em apenas um final-de-semana, já havia concluído que seria feita em um mês... E um mês era só o que tínhamos...

Vender nossas coisas pelo Face ou OLX foi uma experiência gratificante de que eu só me dei conta muito tempo depois. Não ajudava apenas a nossa mudança e a juntar mais um dinheirinho, mas ajudava também outras pessoas a conseguirem comprar coisas por um preço muito mais em conta!

E o vender por preços, muitas vezes simbólico, faz com que a pessoa valorize a compra. Melhor do que simplesmente dar, porque você sabe que aquela pessoa realmente deseja aquilo. É um exercício de conscientização sobre o consumismo desenfreado ao qual somos, de certa forma, submetidos.

Eu recebi na portaria do meu prédio pessoas que nunca havia encontrado antes e que vinham de bairros até distantes atrás de algum DVD ou livro. Saber que a minha coleção dos Simpsons hoje está na mão de um cara chamado Alex, que passa as madrugadas assistindo aos episódios e se despencou de buzu lá do Cabula pra comprar 5 temporadas a R$ 25 me deixa feliz.

Vendendo, nós conhecemos pessoas interessantes, que nos fizeram rir nos chats, pedindo pra baixar mais o preço já lá embaixo ou tirando dúvidas de coisas tão estranhas quanto perguntar se uma mesa de som da década de 80 tinha entrada pra pen drive. 

Também reencontramos pessoas que há muito tempo não víamos. Velhos colegas de trabalho, conectados pelas redes sociais, que vieram à nossa casa e trouxeram boas recordações.

Além isso, através dessas vendas, recebemos não só dinheiro, mas presentes. Uma amiga me deu um pilha de roupas de frio lindas e não pediu nada em troca. Mas eu fiz questão de lhe dar o desconto merecido na geladeira que comprou em nossa mão.

Desapegar é uma experiência única que mexeu muito comigo. Ver sua casa se esvaziando, querer almoçar e se dar conta de que já vendeu todos os pratos, olhar para a varanda sem os móveis e a rede e para a mesa da sala sem as cadeiras, sentir o coração se alegrando com a mudança, mas se apertando também com ela...

Foi emocionante! E, mais ainda, quando você recebe os agradecimentos dos seus amigos e até de desconhecidos compradores, que não só te escrevem, mas te mandam fotos dos seus antigos porta-retratos em novas estantes, de seus móveis se adaptando a novas casas e de suas luminárias iluminando novos quartos.

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O passeio favorito de Ícaro: visitar o cemitério.

Hoje ficamos por lá um tempão, conversando sobre o ciclo da vida, amor, respeito e lápides.

Só saímos quando ele já estava dando high five e tchau para os moradores de lá.

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Hoje conhecemos a "casa do Batman", uma igreja católica daqui de Bergisch, e Ícaro saiu gritando: "Batman!!! Alfred!!" 

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Karina Nery é professora de inglês desde que se entende por gente. Está morando na Alemanha atrás de uma vida que, de complicada, só tenha o idioma...

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