Robson do Val

Coluna do Sudoeste - 08/07/2017

Robson do Val

De frente para o mar, de costas pra Bahia...

Quando cheguei a Vitória da Conquista, uma das coisas que logo me chamou a atenção foi que uma parcela significativa da população local torce pelos times cariocas do Vasco e do Flamengo.

Fiquei a perguntar o que levou essa gente toda a virar as costas para os esquadrões baianos, e se encantar pelas equipes “estrangeiras”.

Aliás, já comecei a pesquisa informal, movido pelo preconceito, visto que essa ideia de nordestino torcendo por time sulista sempre me soou inadequada, considerando, principalmente, que por motivos de auto-estima bem resolvida, é quase inexistente o contingente da população sulista do país que, em movimento contrário, se queda de encantos por Bahia, Vitória e companhia.

Mas a verdadeira ciência, mesmo na informalidade, não se contenta com suposições puramente passionais; fui à caça de elementos concretos que me ajudassem a entender esse aspecto comportamental dos meus queridos conquistenses.

A tese mais propalada entre os próprios moradores da cidade é a de que, nos primórdios do rádio, as estações cariocas dominavam as transmissões no sudoeste baiano, sendo praticamente as únicas que podiam ser sintonizadas na região.

Resultado: as transmissões de jogos dos times cariocas pelos locutores da época de ouro da propagação radiofônica, com suas vozes potentes e entusiasmadas, e com os seus clássicos bordões que entraram para história, disseminaram paixões coletivas por Vasco e Flamengo, que foram passando de pai pra filho nas últimas cinco gerações.

De posse desse dado cheguei à conclusão parcial de que esse, sem dúvida, foi um dos fatores primordiais que deram origem ao comportamento futebolístico atípico que estava investigando.

Mas uma dúvida persistiu: por que a influência dos meios tecnológicos globalizantes que dominaram o mundo nas duas últimas décadas, tornando acessível a qualquer um informações que não sejam cercadas de sigilo deliberado, não afetou negativamente o contingente de flamenguistas e vascaínos alocados de maneira inusitada em Vitória da Conquista?

Foi então que o exercício do ofício jornalístico ajudou-me a encontrar o elo que faltava no mistério que me propus a esclarecer.

Além da circunstancial conexão via rádio com a capital carioca, havia uma mágoa em relação à capital baiana, no fundo do olho de muita gente que eu conversava.

A razão era lógica, justa e muito simples: os poderes públicos, estadual e federal, nunca deram para essa cidade tão importante da Bahia, o respeito e a atenção que ela merece.

Fui pesquisar mais fundo e descobri que a última grande obra (eu disse grande obra, obrinha não vale) realizada por essas paragens foi a construção do trecho da BR 116 (Rio - Bahia) que corta a cidade.

Sabem quando foi isso? Final dos anos 40 do século passado.

A lista de obras inacabadas no município é de deixar indignado qualquer brasileiro decente, mesmo que não more em Vitória da Conquista.

Uma das principais, um novo aeroporto que já se arrasta inconcluso pelo período de três governos, tem uma pista dada como pronta há mais de um ano e (pasmem) um terminal de passageiros que nem começou a ser construído, supostamente por problemas burocráticos relacionados a licitações.

Licitações diferentes dentro de uma mesma obra.

Recentemente o gestor da Embasa na cidade pediu demissão do cargo, depois de admitir publicamente que há uma defasagem de pelo menos 30 anos na estrutura do sistema de abastecimento de água do município.

Em alguns bairros periféricos e localidades da zona rural, os moradores chegam a ficar mais de um mês sem uma gota d’água nas torneiras.

A barragem do Catolé, que seria a solução para o problema, já teve licitação cancelada, dinheiro gasto com projeto de viabilidade (que foi desperdiçado porque o projeto está defasado) e terras desapropriadas.

Ficou só nisso.

Há quem diga que demorou tanto, que mesmo que a barragem seja construída hoje, não será suficiente para resolver o problema.

O pequeno Centro de Cultura da cidade, administrado pelo Governo do Estado, está em reforma desde 2013 e ninguém consegue dizer quando vai terminar essa reforma, aparentemente tão simples, para que o equipamento seja finalmente devolvido à população.

Mesmo renegada pelos que deveriam dar-lhe assistência nos meios político-administrativos, Vitória da Conquista se fez sozinha.

Ultrapassou de uma pernada só, nas décadas de 70 e de 80, as cidades sulistas de Itabuna e de Ilhéus, combalidas pela praga da bruxa que passou sua vassoura maldita pela roças de cacau que faziam a prosperidade por lá.

Nem a crise do café, principal lavoura local, que aconteceu mais ou menos na mesma época, arrefeceu os ânimos dos bravos conquistenses rumo ao desenvolvimento.

Vitória da Conquista criou novas vocações para manter o passo firme.

Além da posição geográfica estratégica em relação às outras cidades da região, que favorece o comércio local, desenvolveu um parque universitário invejável, com universidades públicas e privadas que já têm um contingente de mais de 10.000 estudantes matriculados.

Parte significativa dessa mão de obra qualificada, formada nessas escolas superiores, se estabelece na cidade.

O segmento da saúde privada também se tornou referência regional, atraindo pacientes até do norte de Minas Gerais.

Exames de alta complexidade, como ressonância magnética e tomografia computadorizada, que costumam ter fila de espera até nos grandes centros, em Vitória da Conquista são acessados facilmente, pelo menos por quem tem um plano de saúde.

Resumindo a questão: o romantismo da época de ouro do rádio carioca pode ter sido decisivo para que os conquistenses praticamente ignorem os altos e baixos das sofridas equipes do futebol baiano, mas, por outro lado, é razoável admitir, que quem está acostumado a vencer por conta própria, nunca vai se sentir confortável associando a sua sorte a times que estão sempre ameaçados de despencar para as divisões mais baixas das competições que disputam, quase sempre por conta de gestões incapazes.

Quanto ao sentimento em relação ao poder público, a situação não é muito diferente.

Para haver sintonia entre a agora auto-intitulada capital do sudoeste e a capital de fato, que fica no litoral, a 520 km de distância, é preciso suplantar um mar de indiferença e incompetência que deixou mágoas históricas.

Parafraseando o mineiro Milton Nascimento em “Notícias do Brasil”: Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país”.