Opinião

O nó das Diretas Já

O autor é jornalista

Em 1991, o presidente dos Estados Unidos, George Bush, tinha acabado de vencer a Guerra do Golfo e resgatou, com isso, a autoestima dos americanos após a dolorosa derrota no Vietnã. Era o favorito nas eleições de 1992, que tinha como oponente o então desconhecido governador do Estado do Arkansas, Bill Clinton. Foi aí que o marqueteiro de Clinton, James Carville, viu na recessão pela qual passava os estados Unidos, a chance de derrotar Bush, e cunhou a frase “É a economia, estúpido!”, quando questionado como faria isso. E Bill Clinton ganhou as eleições.

O Brasil viveu paradoxo nas eleições de Lula e de Dilma, quando a despeito dos escândalos – Mensalão e depois o Petrolão – conseguiram se eleger e se reelegerem com base no desempenho da economia. No último caso, mas com promessas e mascaramento de dados do que propriamente pelo desempenho da economia. Temer, mais do que nunca, depende da economia para ganhar sobrevida e ultrapassar as dificuldades políticas que ameaçam o seu mandato.

As manifestações por eleições diretas, mais restritas aos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, estão longe de empolgar, como aconteceu com  o movimento original em 1983/84, que num crescente por todo o País, sepultou a Ditadura e deu origem à Constituição de 88. Naquela época o País estava uníssono pelo fim do governo dos militares, e agora, dividido, vê nas manifestações oportunismos de todas as matizes.

O desinteresse de boa parte da população se justifica. A militância de esquerda e da extrema direita procuram passar a impressão de que o país está unido por eleições diretas. Mas quando se observa a situação nos estados fora do eixo Rio-São Paulo, percebe-se que a mobilização é pouca, quase nenhuma. E por uma razão simples: a economia é o foco.

Com um País que anda às voltas com um contingente de 14,3 milhões de desempregados, segundo o IBGE – quase que uma Bahia inteira incluindo crianças e idosos -  e com a economia ainda patinando para sair da recessão, as preocupações se voltam mais para a questão da sobrevivência, que se chama emprego e renda. Muito menos interessante que ir às ruas para gritar “ Fora Temer” ou pedir eleições diretas, tem sido mais urgente ir às filas do SINE, o serviço de cadastramento de desempregados em busca de vaga no mercado de trabalho.

Até porque muitos não sabem como seria essa eleição direta clamada pelos movimentos sociais de esquerda e extrema direita. Se apenas para presidente ou também de governadores, deputados e senadores. Não nos esqueçamos que em outubro do próximo ano essas eleições já estão marcadas. E por enquanto, os antigos “showmícios”, com estrelas do mundo artísticos da década de 80 valem muito mais como shows em finais de semana, do que como manifestações em si

“É a economia, estúpido!”, diria, se aqui estivesse, James Carville. E é na melhoria dela que o presidente aposta para ir, aos poucos, arrefecendo os ânimos das ruas, do Congresso e dos agentes econômicos.

Claro, antes de tudo é preciso superar os impasses dos processos no Tribunal Superior Eleitoral, que pode antecipar o fim do governo, e no STF, que pode resultar não só na renúncia ou no impeachment. A crise não acaba agora.