Opinião

O caminhão desgovernado

O autor é jornalista

Os últimos dias na política brasileira, com a sucessão de delações premiadas no âmbito da Operação Lava Jato, se assemelham a um caminhão que pegou embalo e começou a descer uma ladeira com velocidade cada vez maior. Só que o caminhão parece estar sem freio e vai levando tudo o que encontra pela frente, sem que, até o momento, tenha surgido uma barreira que o faça parar.

O primeiro embalo ladeira abaixo significativo veio com a delação do executivo da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, que teve como alvo principal o ex-presidente Lula. Mas, de imediato, veio um segundo tranco, quando outro executivo, da OAS, Léo Pinheiro, contou com riqueza de detalhes, não só supostas tramas sobre o famoso triplex do Guarujá, mas também do sítio de Atibaia.

 Em ambas delações, o alvo principal foi o ex-presidente Lula.A essa altura o caminhão já estava em alta velocidade, mostrando um certo desgoverno e aparentemente sem freio. Enquanto a Câmara aprovava em primeira instância nas comissões, as reformas Trabalhistas e da Previdência, o país se voltava para o embate entre o ex-presidente Lula e o juiz Sérgio Moro. O que parecia ser a luta do século, quase deu xabu e nada significativo saiu do depoimento, suscitando torcidas contra e a favor.

Mais eis que mal o país retomava o fôlego para se voltar a outros assuntos tão ou mais importantes, como a queda da inflação, redução das taxas de juros, a retomada da produção industrial – a Petrobras deu lucro de R$ 44 bilhões – e até mesmo os sinais, ainda tímidos, de geração de empregos em setores isolados da economia, vieram as delações de Mônica Moura e João Santana, o Patinhas, não só atingindo mortalmente o ex-presidente Lula, mas ferindo de morte a ex-presidente Dilma.

Como se estivessem a narrar um bate-papo, os dois marqueteiros das campanhas dos dois ex-presidentes mostraram, com detalhes minuciosos, fatos, diálogos, transações e até um suposto e-mail, onde aparentemente tudo teria se dado, não só de Caixa 2, mas também da Lava Jato. Um soco no estômago para quem ainda não tinha se recuperado do embate com o juiz Sérgio Moro, na quarta-feira passada.

A essa altura, o caminhão, que  continuava ladeira abaixo em alta velocidade, já parecia completamente desgovernado, sem que houvesse quem o detivesse. Na sua corrida desenfreada, não estava poupado quem quer que se interpusesse no seu caminho e, como efeito gravitacional, não parece que vá diminuir a sua velocidade. Até porque, para quem pensou que tudo estava consumado e que nada mais há para ser revelado, vem aí a delação do ex-ministro Antonio Palocci.

Se tudo se configurar como se apregoa, não é apenas o caminhão da política que parece estar sem freio descendo ladeira abaixo.  Parece que além da falta de freio, o caminhão também está com o acelerador embaixo.