Opinião

Armadilhas da rede

O autor é jornalista

alto, para as estrelas, e não para baixo, para os seus pés.”. A frase é do físico britânico e um dos maiores cientistas do nosso século, Stephen William Hawking, que, de forma parodiada, retrata bem a sociedade contemporânea dos nossos dias. Hawking vive em uma cadeira de rodas desde os 21 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica, mas se comunica com o mundo exterior através de um computador que obedece a um comando de músculos da face.

Nós, humanos comuns, temos as possibilidades da comunicação visual, auditiva, olfativa e da fonética, com a articulação das palavras. Mas cada vez mais nos limitamos à comunicação táctil, com o uso dos dedos (três no máximo) e em vez dos nossos órgãos da voz, usamos um pequeno aparelho que chamamos de smartphone.

Cada vez mais nos transformamos numa geração de pessoas cabisbaixas, introspectivas, isolacionistas, que não apreciam as coisas ao redor. Que não olha para os lados, para cima e muito menos à frente. Olha sempre para baixo, para o pequeno aparelho que tem às mãos e através dele enxergam e vivem o mundo. Um mundo virtual, mas que está lá fora pronto para ser vivido.

Estabelecemos o diálogo com as pessoas mas não sabemos nada dos seus sentimentos, suas expectativas, pela simples razão que não as vemos, ou quando muito, através de uma tela. Mas não as tocamos, sentimos o seu calor (ou frieza), e muito menos compartilhamos seus sentimentos, risos, choros. Aprendemos a nos expressarmos com emojis, a usar o rsrs em vez de rirmos.

Como a comunicação é quase que unilateral, contrariando a lógica da dialética, passamos a viver superficialmente através de redes sociais, onde temos milhares de amigos, a maioria dois quais sequer o encontramos nas ruas, nas escolas, no trabalho...em casa.

Temos seguidores, mas vivemos sozinhos, tendo companhia apenas o aparelhinho que levamos para todos os lugares. Mas o aparelhinho não dialoga. Não ouvimos a sua voz, sentimos o seu cheiro, o calor de um abraço, do aparto de mão, ou o som de um sorriso. Rsrsrs é o que nos resta.

Stephen William Hawking  fez 75 anos em janeiro. Há 54 anos não sabe o que é a plena expressão das suas faculdades de comunicação com as pessoas. Usa um sintetizador de voz para se expressar. Mas sua mente fervilha de ideias e teorias sobre a vida, sobre o universo. Com seus movimentos dos olhos, olha tudo ao redor e consegue ver as estrelas, os homens, a natureza
Consegue, com isso, se comunicar muito mais do que nós porque, mesmo nas suas limitações físicas, enxerga e vive a vida. E nós? Bem, cada vez mais nos enredamos, como numa teia de aranha, nas armadilhas de uma tecnologia da comunicação que não se comunica, mas apenas comunica.